O filho de dona Margaret

Tulio Brandão fala sobre mais uma vitória de John John Florence no temperamental oeste australiano.

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As performances de John John Florence se encaixaram perfeitamente nas ondas de Margaret River.

Pouca gente consegue lidar bem com o humor instável de dona Margaret River.

Uns tombam no Main Break, para a enfadonha repetição de direitas com início, meio e, sobretudo, um inapelável fim decretado por uma bancada praticamente fora d’água.

Outros, ao tentarem virar para a esquerda do mesmo pico. Um dia celebrada como a onda principal, na divisão de acesso, ela parece irremediavelmente esquecida num circuito que se transformou numa espécie de ditadura de direitas.

E, claro, há ainda os que, em The Box, são impiedosamente mordidos e engolidos por não conseguirem surfar fora da caixa.

O havaiano John John Florence, líder isolado do CT 2019, é um filho pródigo de dona Margaret. Tem, ali, a melhor leitura de onda, a melhor performance. Seus cada vez mais celebrados arcos, com extenso uso de borda, encaixam-se como luva nas águas límpidas e repletas de tubarões do oeste australiano.

Na quarta parada do tour, encerrada dias atrás, não houve espaço para dúvidas – Margaret, essa teimosa que sofreu com o excesso de mandíbulas na água ano passado, voltou a celebrar a superioridade do havaiano.

John deve ganhar, ali, muitas outras vezes.

Segundo colocado, Kolohe Andino tentou em vão frear o bicampeão mundial.

Na final deste ano, o diligente Kolohe Andino, vice na etapa e agora vice-líder da temporada, bem que tentou alcançá-lo, mas ficou pelo caminho, diante da impossibilidade de igualar, com sua técnica disponível, o jogo de borda do rival.

A liderança de John no ano é predominantemente centrada em sua rasgada de borda enterrada, em paredes inclinadas, e no seu layback. Assim venceu em Bells, assim venceu em Margaret. Seu surfe de carving realmente alcançou um nível extraordinário – embora, de minha perspectiva, ainda esteja bem abaixo do praticado em 2017.

Se pensarmos que ainda há espaço para evolução na temporada; se considerarmos que, após a quarta etapa, o havaiano já abriu quase 6 mil pontos do vice-líder; se lembrarmos que ele está a 15 mil pontos do último campeão mundial; e se admitirmos que John é especialmente querido pelos juízes, teríamos, neste cenário, uma espécie de nome favoritíssimo ao título antecipado de 2019, a longas sete etapas do fim.

Mas, para alívio de quem quer ver competição, o imponderável sempre está à espera de uma oportunidade para entrar em cena. Por mais que a WSL insista em contradizer seu slogan “you can’t script this”, com resultados muitas vezes previsíveis, em alguns momentos isso inevitavelmente acontece.

(Lembro-me nessas horas da cara dos comentaristas da entidade no exato instante em que Adriano de Souza, o cara que mais brigou contra o script, foi campeão do mundo. Aliás, na etapa do Brasil, o bravo Mineiro finalmente estará de volta ao CT. Fez falta.)

Caio Ibelli confirmou seu reconhecido talento nas direitas do Main Break.

Em Margaret, John foi o melhor isolado. Não dividiu o posto com ninguém, como em outras etapas. Dominou a onda, dominou a natureza selvagem, dominou adversários. Foi o único surfista que ofereceu, no Main Break, entretenimento de verdade aos espectadores. Alguns poucos estavam apenas um pouco abaixo – além de Kolohe, vale destacar o terceiro colocado Caio Ibelli e dois dos quintos, Italo Ferreira e Jordy Smith.

Caio, em sua última prova da janela aberta pela contusão de Mineiro, confirmou seu reconhecido talento nas direitas da ladeira do Main Break e ganhou muitos pontos ao domar as mais afiadas cavernas em The Box, eliminando o velho rival Medina.

Seus arcos, combinados com velocidade e verticalidade, quase pararam o melhor surfista. Caio ficou realmente muito perto de vencer John – eu diria, revendo as duas melhores ondas, que esteve a uma manobra da vitória, na sua segunda melhor onda, quando caiu na finalização. Em sua última jornada, fez a nota mais alta da bateria – deixando para o havaiano o recado de que não tem a vantagem em confrontos diretos, mantida mesmo após a derrota na última disputa, por acaso.

O feito de Caio é especialmente notável pelas circunstâncias em que ele perdeu a vaga na elite este ano. Vítima de uma contusão séria, viu Kelly tomar-lhe o lugar mesmo com uma contusão controversa, que o permitiu competir etapas no ano.

Gritou, não foi ouvido. Aceitou competir como convidado. Na última prova como substituto de Adriano, jogou a WSL contra a parede. Depois de Margaret, se vivêssemos no mundo dos justos, entidade teria que se virar para garantir a permanência do brasileiro na elite durante toda a temporada.

Em tempo: Kelly, o cara que tirou a vaga de contundido do brasileiro, foi escovado, na etapa, por um Caio com gosto de sangue na boca. Um placar incontestável, de 14,50 a 10,26: a história fez justiça a ele. De quebra, o terceiro posto em Margaret ainda o colocou, com justiça, no corte dos classificados na temporada.

Julian Wilson, o outro terceiro colocado, fez boa etapa, mas, a despeito dos pontos somados, não me pareceu disposto a brigar pelo título mundial da temporada.

Italo Ferreira criou novos parâmetros de backside em The Box.

The Box

Os juízes da WSL não parecem preparados para assistir ao clímax de uma história na primeira cena de um filme, foi o que a história de mais um dia em The Box nos contou.

Italo era o personagem perfeito: virgem na onda, goofy numa arena proibitiva para canhotos, um aerialista brincalhão. Ele rema na primeira onda, uma bomba prestes a explodir num slab, dropa de backside, vira a prancha pouco antes de ser decapitado, desaparece num rolo compressor e sai metros à frente, sem usar a mão na borda.

Os juízes pareciam não ter entendido o que Italo tinha acabado de fazer. Não é possível que não tenham a dimensão da dificuldade do que foi feito ali.

Entendo a desafio de se escalar parâmetros tendo como critério uma nota máxima na primeira onda do dia. Mas isso tem limite. O infame 8,16 dado ao brasileiro foi a nota mais desconectada com a realidade da temporada.

Não há debate em torno disso: Italo fez um 10.

A bronca não foi maior porque o brasileiro ainda surfou outra onda excelente e avançou com facilidade, impondo uma avassaladora combinação a seu adversário.

O dia inesquecível em The Box seguiu com grandes apresentações e algumas atuações criticáveis. Jack Robinson, jovem local do pico, somou 18,57 pontos – dando-se ao luxo de descartar um 8,5 e um 7,6, notas suficientes para vencer a maior parte dos confrontos do dia. O maior vencedor do dia, com a nítida vantagem de ser nativo de uma onda que normalmente exige conhecimento fino, fez uma vítima importante: Filipe Toledo.

Kelly Slater, de certa forma, decepcionou na quarta etapa do Tour.

O prodígio de Ubatuba teve exposta a sua aparente lacuna em ondas agudas. Viu o adversário fazer notas excelentes mesmo debaixo de sua prioridade, muitas vezes sem remar para tentar o drope. A questão não foram suas notas, e sim a aparente passividade. Impossível condená-lo por isso, mas sabemos que a imagem de um surfista na elite contém, entre muitas variáveis, a atitude.

Às vezes, a soma é irrelevante. Tentar, remar, se jogar, tudo faz parte do jogo, como fez, por exemplo Jadson André, que só parou depois de esmagado na bancada.

Filipe é um fora de série, um surfista com potencial de vencer vários títulos mundiais, um dos fenômenos modernos do esporte. Mas, de minha perspectiva, precisa abraçar a ideia de superar possíveis lacunas em certas ondas.

Essa luta não é vexame para ninguém. Mick Fanning, quando garoto, tinha lacuna idêntica. Foi tricampeão do mundo depois de vários internatos no Havaí. Mineiro, que levou o título uma vez, também gramou em Oahu em muitas pré-temporadas. A fórmula não é sofisticada, não tem mistério: tempo de voo em ondas poderosas.

Acredito sinceramente que, se ele estiver disposto a dominar ondas grandes com persistência, corre o sério risco de ser um dos melhores também nessas arenas, por ter um talento natural e um raro domínio da prancha em pequenos espaços de onda.

Entre os brasileiros, Michael Rodrigues e William Cardoso também sofreram no pico. William ainda conseguiu encontrar um 4,67 e, com uma segunda onda um pouco melhor, eliminaria Kelly Slater, mesmo sem se adaptar ao pico. Michael se perdeu.

Slater, aliás, de certa forma, também decepcionou: falou muito sobre o dia especial, sobre a importância de uma fase em The Box e fez apenas 10,06 de soma. Outro que não entregou, pelo menos ali, o talento conhecido foi o campeão John. Embora seja um surfista de calibre havaiano, saiu da caixa apenas com um 11,83.

Tops chegam à etapa brasileira do Tour e Barrinha pode dar as caras novamente.

É verdade que The Box é uma onda difícil e instável demais para servir de medição de competência através de notas. Jeremy Flores, um surfista talhado em tubos pesados, perdeu com míseros 4,93 pontos de soma. Ainda assim, é preciso remar.

Medina foi um dos eliminados do round 3 em The Box, embora tenha feito boa bateria com Caio. A situação do atual campeão mundial é curiosa – dono de algumas das melhores apresentações da temporada, ele está em 12º lugar, a mais de 15 mil pontos do líder, e a caminho de mais uma prova difícil, a etapa de Saquarema.

Corre o risco de a direção de prova brasileira repetir o sucesso de 2018 e optar majoritariamente pelas direitas da Barrinha. Será o desespero dos goofys, que este ano só surfaram de frente para a onda, por acaso, em algumas baterias de Duranbah, pico alternativo da Gold Coast. Se o Point de Itaúna não for escolhido, a turma só verá as canhotas brilharem mesmo em Teahupoo, no Taiti, na sétima parada do ano.

Agora, é aguardar os melhores do mundo em casa.

Tulio Brandão
Formado em Jornalismo e Direito, trabalhou no jornal O Globo, com passagem pelo Jornal do Brasil. Foi colunista da Fluir, autor dos blogs Surfe Deluxe e Blog Verde (O Globo) e escreveu os livros "Gabriel Medina - a trajetória do primeiro campeão mundial de surfe" e "Rio das Alturas".