Italo em voltagem máxima

Campeão mundial Italo Ferreira conta o que rola nos bastidores do Havaí, analisa mudanças do CT e fala sobre desafios, limites e sonhos, em entrevista exclusiva ao Waves.

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Italo Ferreira sempre pronto pra botar pra baixo com disposição em Pipeline. Nesta foto, durante o Billabong Pipe Masters 2019.

Tudo pronto para o Billabong Pipe Masters e para a volta do Circuito Mundial no Havaí, depois de um ano inteiro de espera. Apesar da pandemia que mudou o rumo da humanidade em 2020, finalmente teremos o prazer de ver os melhores do mundo novamente em ação e logo nos tubos insanos de Pipeline, a rainha do North Shore de Oahu. Tudo com os devidos protocolos de segurança.

Alto astral, disposição, humildade e busca constante por adrenalina são ingredientes de sobra para o nosso atual campeão mundial Italo Ferreira, que exatamente há um ano trazia mais um título mundial pro Brasil, além de cravar o seu nome na seleta e restrita lista histórica de Pipe Masters.

Rápido, atirado e explosivo dentro da água, o dia a dia de Italo tem sido intenso pelo North Shore, em uma busca constante por evolução e novas experiências. Diretamente do Havaí, ele trocou uma ideia exclusiva com o Waves, pra contar um pouco do que tem rolado nos bastidores por lá, analisar as mudanças do Circuito Mundial e falar sobre os seus desafios, limites e sonhos. Confira a seguir.

Um ano depois da conquista do título mundial, Italo Ferreira está de volta para competir no Billabong Pipe Masters.

Um ano depois, você volta exatamente ao mesmo lugar onde competiu profissionalmente pela última vez e conquistou o seu primeiro título mundial. Como é estar de volta em Pipeline para competir?

Sem dúvidas é incrível! Muitas memórias boas, na verdade. Eu sempre lembro de vários flashes e bons momentos, que são legais de lembrar e sentir. Foi muita emoção! Sempre aparece também alguma imagem nova na internet desse dia, que eu vou lá e assisto. Essa história é algo que já me deixa feliz e confiante, por saber que eu posso conseguir de novo. Isso tem me motivado bastante. 

Agora começa tudo do zero. Uma chance de ir bem novamente e mostrar o meu potencial de novo. Tem sido diferente, pois este ano não tenho por aqui as pessoas que eu queria que estivessem comigo, mas tem alguns amigos que estão ali tentando segurar a onda e me deixar bem. 

Tenho aproveitado bastante dentro da água também, testado várias pranchas e me divertido por aqui, mas é sempre um desafio surfar com tanta gente na água.

 

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Nos últimos dias você tem surfado todos os tipos de onda. De Rocky Point a Pipeline, e até mesmo as bombas de Waimea. Como tem sido essa experiência diversa?

A ideia de surfar outros lugares é para se soltar um pouco, porque Waimea é totalmente diferente de Pipe e Sunset, onde teremos as etapas, mas é uma onda grande, volumosa e que traz outra sensação, daquele tipo que se eu consigo surfar aqui, consigo surfar em outro lugar. Um novo desafio, que eu vou tentando quebrar entre um surfe e outro. 

Eu tenho surfado Pipe grande, pequeno e médio (risos). Há três dias atrás eu surfei cinco vezes num mesmo dia e testei cinco pranchas diferentes pra ver qual era a melhor. E a cada sessão que fiz, peguei uma ou duas ondas, pra você ver como é difícil. Às vezes você fica duas horas pra pegar uma ou duas ondas. 

Hoje eu surfei de novo e não consegui pegar nenhuma onda. Quer dizer, peguei uma fechando. Na verdade é bem difícil de treinar, mas por um lado é bom, porque isso me deixa com raiva e quando entrar na bateria eu vou descontar.

 

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Entre as novidades do Tour agora temos essa perna havaiana inicial. E justamente Sunset, que você falou, é a novidade no CT, apesar de já ser uma velha conhecida no QS. Uma onda forte, volumosa, que quebra lá fora e tem uma leitura difícil. Como foram as suas experiências anteriores nessa onda, tanto em competições como no free surf? O que você espera dessa etapa?

Eu já tive um bom resultado no WQS e boas performances por lá. Ontem eu fiz uma sessão muito boa. Tava todo mundo em Pipe esperando melhorar, então eu peguei uma prancha e fui olhar Sunset. Quando eu cheguei lá não tinha muita gente, tava de boa. Pra você ver, consegui pegar umas seis ondas boas. Deu pra testar prancha e sentir o balanço da onda, que é totalmente diferente, uma onda forte. A leitura naquele mar realmente é diferenciada. É preciso dedicar um tempo naquele lugar. E foi o que eu fiz ontem. Fui lá do nada, peguei altas ondas e saí amarradão.

Italo Ferreira ataca o lip de Sunset durante a Vans World Cup of Surfing 2014.ASP / KC
Italo Ferreira ataca o lip de Sunset durante a Vans World Cup of Surfing 2014.

Há um mês você teve uma experiência surreal e pegou a maior onda da tua vida em Nazaré, Portugal. Conta pra gente um pouco como foi essa experiência e quais os teus maiores desafios como surfista.

Eu sempre tento buscar adrenalina e sair um pouco da minha rotina e do lugar comum. Eu não sou acostumado a pegar onda grande, então eu gosto de ir lá, sentir, tentar pegar uma, sabe? Sentir aquele desafio e falar, caramba, tá muito grande, mas eu acho que eu consigo pegar.

E foi o que aconteceu em Nazaré. Eu fui pra Portugal pra pegar Peniche e algumas outras ondas que podiam me ajudar a treinar, não só para as etapas da Europa se acontecessem, mas também para as do Havaí que são tubulares. E aí acabou que eu tive a chance de fazer mais uma sessão em Nazaré. 

Peguei três ondas e uma delas foi bem grande. Isso me deixou muito amarradão. Feliz por conseguir surfar aquela onda que estava fora da minha zona de conforto. Isso me deixa um pouco mais forte, sabe? Me faz elevar o limite cada vez mais. 

Eu tenho vontade de surfar em outros lugares que tem ondas grandes. Mas claro que preciso ter o equipamento certo e estar bem preparado. A última vez realmente foi loucura, eu comprei uma prancha na loja, peguei um colete emprestado de um, as presilhas emprestadas de outro (risos). É meio loucura, mas é a vontade que dá de ir lá e fazer valer a pena. 

Em Waimea, eu surfei com uma prancha do Aldemir Calunga (risos), que eu achei e fui pra água. Acho que daqui em diante eu preciso me preparar um pouco melhor e ter o meu próprio equipamento pra conseguir ir mais além.

O que você achou do novo formato do Tour em geral e da grande final para decidir o título em Trestles?

Este ano o Tour vai ser bem diferente na verdade, terminando em Trestles, com aquela final entre os cinco melhores atletas. Algo que eu não esperava é que iria ser nos EUA. Eu imaginei que seria em Mentawai, ou Fiji, ou algum outro paraíso pelo mundo, por ser uma final de Circuito Mundial.

Mas tudo bem. Vai ser na Califórnia, numa onda que todo mundo já conhece e que já tiveram vários eventos. O formato é bem diferente do normal e do que a gente tá acostumado a competir, então acho que vai ser um desafio para todo mundo. É até difícil de falar, mas a ideia é ir bem em todos os eventos e estar entre os Top 5 no final.

Italo Ferreira manobra com expressão durante o Oakley Lowers Pro 2015 em Trestles, etapa válida pelo QS.Divulgação
Italo Ferreira manobra com expressão durante o Oakley Lowers Pro 2015 em Trestles, etapa válida pelo QS.

No calendário atual, quais ondas você se sente mais à vontade e quais você acha que precisa trabalhar mais?

Acho que Pipeline é uma das ondas que eu mais preciso trabalhar, sem dúvidas. Eu sinto muita dificuldade ali. É uma onda muito difícil de surfar. A galera acha que porque eu fui campeão é mais fácil. Não é. É muito difícil. E eu não consigo treinar no lugar. Em nenhuma sessão ali você sente que pegou altas. É uma onda que eu tenho que ter um pouco mais de calma e na bateria poderei dar o máximo, porque no free surf não tá dando (risos).

 

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Apesar de toda essa dificuldade de treinar em Pipe, no ano passado você fez um grande trabalho com o Shane Dorian. Este ano ele está com você de novo?

Sim. O Shane me ajudou no ano passado e foi incrível. Ele é um cara super educado e conhece muito a onda, sabe como ela funciona. Ele é surfista, o que é diferente de um cara que nunca surfou aquele tipo de onda e não viveu aquele mundo ali. No ano passado ele me ajudou bastante em detalhes que fizeram a diferença.

Todo mundo surfa ali em um nível muito alto e você só vai se distanciar do seu adversário se pegar uma onda muito boa, porque todo mundo tá no mesmo nível. Ele me deu alguns detalhes muito importantes sobre o pico e o posicionamento.

Este ano vamos estar juntos novamente. Acho que vai ser legal. Ele é um cara que me passa confiança também. Ele fala pra mim: “cara, rema nas ondas, pega as ondas”. Mas eu não tenho essa cara de pau, sabe? Eu não consigo bater o braço com um cara que acabou de pegar um tubo e já tá voltando pra pegar outro.  

Hoje mesmo o Mikey Wright me deu a volta três vezes. E aí eu fiquei olhando pra ele e falei, caramba, já vai pegar a terceira? Sabe? Aí eu saí do mar. Eu não vou disputar com ninguém ali. Eu realmente não sou de fazer isso. 

E o Shane fala: “Cara, você tá ali, você tem que pegar as ondas, você é o número 1”. Mas pra mim não é assim que funciona, mas tudo bem. É como eu te disse e digo de novo, na hora da bateria eu vou fazer valer a pena. Ele realmente é um cara que conhece muito e que pode fazer a diferença pra mim nessa caminhada. 

 

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E o Jamie O’Brien? Parece que no ano passado vocês acabaram criando uma boa amizade. Vi vocês se divertindo juntos várias vezes. E inclusive este ano ele foi te visitar em Baía Formosa (RN). O que vocês vão aprontar neste ano?

Nós temos quase o mesmo perfil. Gostamos de nos divertir e pegar onda. Às vezes mesmo que o mar tá ruim a gente consegue encontrar umas ondas e vamos lá. Acabei de voltar do Waimea River com ele. Tentei surfar o rio, mas não tava legal dessa vez. 

Mas é legal ter ele sempre ali como companhia pra ir pra água, pra gente surfar e ver ele de perto, pois ele é um dos melhores em Pipe disparado, surfa como ninguém. Isso é incrível de acompanhar de perto. 

Uma hora ou outra sobra pra mim, ele fala “vai” e eu tenho que ir na primeira, quando a segunda é melhor (risos), mas a gente se diverte e acho que é isso, às vezes é bom sair da bolha e daquela pressão de campeonato, sabe? Pelo menos me faz bem.

Jamie O’Brien e Italo Ferreira durante um final de tarde em Pipeline, North Shore de Oahu, Havaí.

Qual é o teu maior sonho na vida?

Conseguir ajudar algumas crianças em Baía Formosa, onde eu moro e conseguir ser um atleta exemplar. Deixar um legado e uma história boa, sem nada de errado, para que seja exemplo às outras pessoas e para a nova geração que está vindo. Acho que é um objetivo. 

Arthur Villar e Italo Ferreira em Baía Formosa (RN).

 

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E sabemos que muitos desses garotos da nova geração já se inspiram em você. O que você diria pra eles?

Aproveitem todos os momentos, busquem evoluir e respeitem as pessoas, pois não é preciso passar por cima de ninguém. E sejam felizes, porque é isso que a gente leva no final. Às vezes a gente ganha campeonato e às vezes a gente perde, mas o que sobra é a nossa alegria no final, a gente estar bem e aprender com os nossos erros. Viver cada momento intensamente e acreditar nos nossos sonhos. Eu acho que uma das maiores coisas que o ser humano pode fazer é acreditar em si próprio e olhar pra dentro e ver que é capaz. 

Acho que isso é o que pode ficar pra nova geração. E de resto não mude nada. Vai pra cima! Se aparecer uma dificuldade, é aí que você tem que crescer. Aproveitem!

E no surfe? Qual o teu maior sonho? 

Ir para Mentawai! Eu nunca fui pra Mentawai e acho que todo surfista já foi (risos).