
Alguns fotógrafos documentam a história. Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava.
Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio na saída do Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo.
O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, onde Fedoca jogou todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã.
“A foto que eu não tirei, essa me persegue.”
Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e patrocínio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026.
Conversamos com Fedoca sobre tudo isso.
Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro?
Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria.
Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único.
Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua.
A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer?
O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais.
A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a virar esporte. O Wady Mansur e o Fuad Mansur, que tinham a loja Mansur, foram dos primeiros anunciantes. Fizeram quatro contracapas, depois duas páginas dentro, vendendo camisetas pelo correio. A pessoa escolhia a cor, o tamanho, e eles mandavam. Aquilo movimentou a economia do surfe.
Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava.
Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora.
E eu estudava. Primeiro fiz vestibular, depois faculdade. Meus amigos, o Rato, o Bocão, ninguém fazia nada. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital.
Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte?
O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua.
E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, um pouco menos, o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão, o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo.
O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa, o Russell comprou casa. Eu vivenciei tudo isso.
E o Quebra-Mar, nos anos 70, era alucinante. Era liberado, sem localismo, podia surfar.
E as viagens. Todo mundo conheceu o Peru primeiro. Vários anos cheio de brasileiros lá, o Pepê, o Daniel, o Paulinho Aragão, o Feio de São Paulo, que foi um cara que arrebentou. Depois começou a misturar Peru e Havaí. Eu cheguei no Havaí no final de 78.
O primeiro campeonato de pranchinha do Brasil foi em Ubatuba, em 72. Era para ter sido em janeiro, mas não tinha onda, mudou para julho, nas férias. O Rio foi lá e invadiu, ganhou tudo. Começou uma certa rivalidade com São Paulo, que sempre existiu, mas ao mesmo tempo começou uma troca. O pessoal de São Paulo só apareceu em Saquarema em 75. Até lá, a gente tinha o Píer e tinha Saquarema. Não precisava.
Teve também o filme de surfe. Tinha o Sérgio Richer, paulista, que começou a fazer um filme, mas ele morreu e não terminou. E teve o filme que o Livio Bruno fez com o Maraca e o Gustavo Carreira. Os dois estudaram no meu colégio, o Carreira era da minha sala. Quando ele começou a fotografar, usava o laboratório lá em casa, que era do meu pai mas era meu também. O Carreira foi um dos primeiros fotógrafos de surfe da nossa geração. Era um big rider, pegava Saquarema enorme sozinho, numa época em que não existia cordinha, não existia roupa de borracha adequada, a água era fria e a gente ia assim mesmo.
Tudo isso, junto, foi mudando o surfe. O modo de viver, os calções, os fabricantes de prancha, os fotógrafos, a revista. A gente tem parte do que o surfe brasileiro se tornou.
Você surfou e fotografou no Havaí entre 1978 e 1981, em Waimea e Pipeline, numa era lendária. O que aquele período fez com o seu olhar que nenhum outro lugar conseguiu?
Era o auge do Gerry Lopez. Nos filmes que a gente via, Five Summer Stories, Free Ride e outros, o final era sempre o Gerry Lopez em Pipeline. Clássico. Aí cheguei em Pipeline achando que ia me dar bem pela experiência do Píer. Quatro, cinco, seis pés, fiquei do lado do Lopez. A maior emoção que já tive no mar foi aquela. Caraca, estou em Pipeline ao lado do Gerry Lopez.
“A maior emoção que já tive no mar foi aquela. Caraca, estou em Pipeline ao lado do Gerry Lopez.”
E o Lopez era franzino, tipo eu. Não era um Tom Carroll da vida, não era um saradão. Era mais filosofia, mais zen, mais paz e amor. Mas duas, três remadas e ele entrava na onda com uma facilidade absurda. Eu do lado dele amarelava. Quando eu começava a remar, via aquela bancada, água transparente, transparente, os peixinhos passando. Teve um dia que sonhei com a Praia de Ramos, na Baía de Guanabara, aquela sujona, só para não ter que ver o fundo tão perto (risos).
Mas fui. Peguei onda ao lado do Shaun Tomson, do Bob Brewer, do Michael Ho. Fotografei o Rory Russell. Vi o Simon Anderson chegar com as três quilhas em 81. Nunca caí ao lado do Mark Richards. O Pepê Lopes participou do Pipe Masters em 76, ganhou o Waimea 5000, mas eu não estava lá naquele ano.
Fui para passar dois meses e fiquei três anos e meio. A Brasil Surf tinha falido. Quando alguém perguntava o que eu estava fazendo no Havaí, eu aprendi a responder em inglês que tinha perdido o que mais gostava de fazer no Brasil, que era fotografar para a revista. Ficava contando essa história. E fiquei.
Lá a gente também jogava futebol. Fomos campeões da Liga Havaiana na temporada de 79/80, 12 jogos sem perder nenhum. Time com americano, havaiano e brasileiro. O técnico tinha uma regra: só substituía brasileiro por brasileiro. O nosso goleiro era carioca, o Jean Carvalho, segurava tudo. O melhor jogador da ilha era um gaúcho, o Bitt. Minha mãe foi me visitar no Havaí e acabou virando torcedora do time.
Em 82 voltei para o Brasil. Mas o Havaí foi onde o olhar ficou afiado de vez.
Sua câmera registrou desde tubos clássicos até shows históricos de Rita Lee, Bob Marley e Rolling Stones. O que existia em comum entre o universo do rock e o do surfe naquele período?
No Havaí, num dia de jogo no Kapiolani Park, do lado tinha o show do Bob Marley no Shell. Tinha comprado uma teleobjetiva 135mm e um Kodachrome 125 só para fotografar aquele show. Era de dia, sem iluminação, final de tarde. Eu era a única pessoa que não fumou maconha naquele show. Fui indo, fui indo, quando vi estava com a grade na frente, quase pedi música para ele.
“Eu era a única pessoa que não fumou maconha naquele show do Bob Marley.”
Depois fui ver os Rolling Stones na Califórnia com o Luiz Oscar Niemeyer, fomos duas vezes. Mais tarde ele trouxe o Rock in Rio pro Brasil. Quando o Rolling Stones veio ao Maracanã, os amigos dele me contrataram como fotógrafo. Fui para o palco, três músicas embaixo do Mick Jagger. Maracanã lotado. Demais.
O Paul McCartney no Maracanã eu fotografei dois dias. No primeiro dia choveu tanto que esvaziou o estádio. No segundo foi o maior público da vida dele em lugar fechado. Mas aconteceu um lance: estava tudo sendo preparado quando, numa segunda-feira, o Fernando Collor trancou o dinheiro da poupança. Chego lá e o filho do prefeito estava abrindo uma mala com um milhão de dólares para garantir o cachê. Tirei a foto. O filho do prefeito fechou a mala na hora. Aí o cara ao lado disse: não, é o Fedoca, é dos nossos, está tranquilo. E foi. A prefeitura garantiu o pagamento, o show aconteceu.
“Chego lá e o filho do prefeito estava abrindo uma mala com um milhão de dólares para garantir o cachê. Tirei a foto.”
O Robert Plant eu encontrei num bar em Copacabana, debaixo do hotel onde ele estava hospedado, meia-noite, era o último sábado antes do carnaval, todas as escolas de samba ensaiando. Chamei para ir à Mangueira. Ele entrou no meu carro. Acabou não indo, a intérprete paulista que estava com ele não queria. Mas entrou no meu carro.
As fotos do Jimmy Page e do Robert Plant eu perdi. Não sei o que aconteceu. Tentei falar com a produção, a produtora ficou de me ligar, não ligou. Quase 30 anos. Ninguém sabe mais das fotos.
Mas o capítulo do livro está lá: Rita Lee, Rolling Stones, Bob Marley, Paul McCartney, Eric Clapton. A minha vida foi surfe, cliques e rock and roll. Não é só o título do livro.
Depois de tantas décadas registrando ondas, viagens e personagens históricos, existe alguma imagem que você olha hoje e pensa: essa foto resume uma geração inteira?
É difícil. A foto que eu não tirei, essa me persegue. Em 68, 69, quando acabaram os pranchões e vieram as mini-models, não existia consenso de shape. Você pegava quatro caras andando no Arpoador e as quatro pranchas eram completamente diferentes. Rabeta, tamanho, largura, quilha, espessura, tudo diferente. Os pranchões mediam em metros, não em pés. O meu tinha 2,80m, porque eu era baixinho, comprei com 11 anos. As mini-models tinham entre 2,10m e 2,40m. Cada shaper fazia do jeito que queria. Impossível ter duas parecidas. Eu gostaria de ter registrado isso com clareza.
Mas a capa do livro, quando me perguntei agora, eu percebi que ela representa a geração. Está o Daniel Sabbá em pé no carro do motorista dele, um Opala. A gente foi para a Praia do Peró, em Cabo Frio. A maré estava vazia, mar pequeno, a molecada foi pegar onda e o motorista dormiu. Quando acordou, a maré tinha enchido e o carro estava atolado na areia. Uma loucura. O motorista saiu correndo para chamar um jipe. Várias fotos daquele dia ficaram famosas. As pranchas do Bocão, a minha, a do Sabbá, a do Rato, a do Bené. Todas diferentes.
“A minha geração teve um baque violento entre o Píer e os anos 80. Morreu muita gente.”
E tem uma coisa pesada nessa foto. Estão o Sabbá, o Domenech e o Paulo Proença. Os três já morreram. A minha geração teve um baque violento entre o Píer e os anos 80, com problema de droga, morreu muita gente. Essas três pessoas não morreram por causa de droga, foi mergulho, foi acidente, foi complicação de acidente de moto. Mas vários outros amigos foram. Quando olho para essa foto, é isso que eu vejo.
O livro reúne mais de cinco décadas de registros e mistura memória, cultura, música e surfe. Em que momento você percebeu que aquele acervo deixava de ser documentação pessoal e passava a contar uma parte importante da história do Brasil?
O subtítulo do livro é ‘A trajetória de um fotógrafo carioca desde 1968’. Tudo começa com uma máquina fotográfica alemã que meu pai me ensinou a usar, diafragma, profundidade de foco, enquadramento. Fui para a praia de Copacabana e estava passando o Rolls-Royce aberto com a Rainha Elizabeth. Tirei a foto em frente à casa do Chateaubriand, que na época era o cara mais poderoso do Brasil. Depois veio o príncipe Charles, no outro Rolls-Royce aberto, na mesma orla. Naquela época não tinha grilo de terrorismo, de segurança, era um carro aberto e eles passando. Você vê pela foto que a lente normal da minha máquina era uma 40mm, quase uma grande angular. E está ela, bonitinha ali.
Com a mesma máquina tirei o Mick Jagger saindo do quarto do Copacabana Palace, dando o dedo do meio. Tinha 14 anos. E tirei foto do Rico, que na época não era o Rico, ele se chamava Dentinho do Leblon. Ele tinha 16, eu tinha 14. Não tinha muito acesso a ele ainda.
As pranchas, as roupas, os comportamentos, os biquínis, os cabeludos que deixaram de ser cabeludos. Os campeonatos de Saquarema que eram um barraquinho e hoje são uma cidade inteira montada um mês antes. Já estão construindo o palanque do campeonato que vai ser no dia 16 de junho. Um mês de construção para um palanque. Eu sinto que a gente tem parte de tudo isso.
Em 1975, a nata do surfe éramos nós. Os paulistas chegaram depois. De São Paulo vinha o Cisco Araña, o Paulinho Tendas, o Bruce. O primeiro campeonato de pranchinha do Brasil foi em Ubatuba, em 72. Era para ter sido em janeiro, não tinha onda, mudou para julho. O Rio foi lá e invadiu, ganhou tudo. O pessoal de São Paulo só apareceu em Saquarema em 75. Até lá, a gente tinha o Píer e tinha Saquarema. Não precisava ir a Ubatuba surfar.
O livro tem um capítulo chamado ‘Do Píer ao Brazilian Storm’, que vai de Kelly Slater, Victor Ribas, Teco Padaratz, Fabinho Gouveia, ao Italo, ao Yago até chegar ao Medina e ao Filipinho. Quando você vê esse arco todo numa mesma prateleira de imagens, fica claro que não é só memória pessoal. É a história de como o Brasil virou potência mundial no surfe.
Qual a previsão de lançamento e você ainda está em fase de captação de patrocinadores?
Estou correndo atrás do patrocínio. Recentemente fiz uma live com o pessoal nisso. O Wady Mansur e o Fuad Mansur já deram força. Tenho um primo que pediu para esperar acabar esse mês por causa do imposto de renda, depois ele entra com um anúncio da empresa. A ideia é lançar até novembro.
Se tiver certeza do livro em agosto, setembro, posso marcar o lançamento numa livraria para dezembro, que é quando saem os livros. Se não der, pode ser novembro, ou vai ter uma festa no Longboard Paradise, uma guarita de prancha na Macumba. Quem conheceu a Macumba antes da pandemia e for lá agora não vai acreditar. Viraram dois locais, tem prancha de tudo que é tipo, é uma coisa impressionante.
E vai ter um capítulo grande do livro sobre a Macumba. Talvez um terço do volume seja essa parte digital, mais recente. Estou morando aqui há 15 anos. As outras décadas estão contadas nas revistas, no Fluir, na Radical, na AlmaSurf. Esse pedaço mais novo vai estar no livro também.











































