Juca de Barros

Memórias da base

1600x1200

Juca de Barros com Alejo Muniz, Miguel Pupo e Jadson André na época em que comandava a CBS (Confederação Brasileira de Surf). Foto: Arquivo pessoal.

 

O empresário paranaense Juca de Barros comandou a Confederação Brasileira de Surf (CBS) de 2002 a 2009, período em que ganhou diversas medalhas com a equipe brasileira no ISA Surfing Games.

 

Advogado, professor de educação física e especialista em administração esportiva, ele atualmente dirige uma assessoria voltada à entidades, atletas e eventos, além de comandar o Aloha Surf Clube na Praia Brava de Matinhos (PR).

 

Na entrevista abaixo, Juca conta como começou no surfe, fala da experiência à frente da CBS e, entre outros assuntos, destaca a importância das categorias de base para o futuro do surfe brasileiro.

 

Quando foi o seu primeiro contato com o mar e então, em seguida, conectando com o surfe?

 

Meu primeiro contato foi aos 3 meses de vida, em dezembro de 1958. Meus pais me levaram para nossa casa de praia em Caiobá, um balneário de Matinhos, no Paraná. O amor ao surfe começou quando meu pai construiu nossa casa na Praia Brava de Matinhos, em 1969. As ondas me fascinaram e no verão de 1976 e comecei a surfar.

 

Depois dessa conexão, como foi para você participar, organizar e se envolver com o surfe pensando também nas próximas gerações?

 

O primeiro evento que fiz foi no inverno de 1981, Campeonato Paranaense, com altas ondas no Pico de Matinhos e nas direitas de Guaratuba. Depois organizei o primeiro Torneio AeroPeru de Surf, no verão de 1983 na Praia Brava, e a segunda edição em setembro no Pico. Foram os primeiros eventos a nível nacional no Paraná.

 

No verão de 1984, organizei a primeira edição do Summertime Surf Sul e no verão de 1985 a segunda edição, onde o capixaba Nelson Ferreira ganhou uma Chevy 500 de prêmio. Fundei a Associação Paranaense de Surf, a Federação Paranaense de Surf, fui presidente da Confederação Brasileira de Surf por duas gestões e vice-presidente da Pan American Surf Association por três gestões.

 

Todo meu trabalho à frente da CBS foi fomentar a base do surfe brasileiro, realizando o Circuito Brasileiro Amador, onde foram formados os atletas que representam atualmente o Brasil, no Circuito Mundial de Surf.

 

Como funciona a organização de base mundo afora? A parte jurídica destas organizações, a busca de apoios, escolinhas, patrocínios, eventos…

 

O surfe institucional é totalmente desorganizado, tanto a nível nacional como internacional. Claro que algumas associações, federações nacionais e internacionais têm um trabalho muito bem-estruturado, mas a grande maioria é entidade de fundo de garagem e reféns de maus dirigentes.

 

Quando eu era presidente da CBS, nos tínhamos uma estrutura muito boa, apoiada pelo Ministério do Esporte e pelo Comitê Olímpico Brasileiro.

 

1280x776

Para empresário, Pico de Matinhos é o celeiro natural de novos talentos do Paraná e precisa ser valorizado. Foto: Jhesus Eduardo.

 

Quanto isso valeu para a entrada do surfe nas Olimpíadas?

 

Fernando Aguerre, presidente da ISA (International Surfing Association), e Maile Aguerre foram incansáveis para que o surfe entrasse para os Jogos Olímpicos, mas, em minha opinião, não é um esporte para este evento e sim para um X-Games, por exemplo.

 

Sendo advogado, você colaborou largamente nessa empreitada jurídica de entidades que querem organizar o surfe de base. Na sua opinião, qual a importância de uma associação de surfe?

 

Sou advogado, professor de educação física e tenho mestrado em Administração Esportiva. Meu escritório oferece assessoria esportiva e jurídica para entidades, atletas e eventos esportivos. O Sistema Nacional do Desporto, hierarquia governamental do Ministério do Esporte, determina que abaixo do órgão venha o COB e depois, na ordem, Confederações Nacionais, Federações Estaduais, Associações e Clubes regionais.

 

Estes últimos são o elo principal de ligação para a formação de atletas, que depois competem nos circuitos estaduais, nacionais até chegarem às seleções brasileiras amadoras que representam o país nos eventos da ISA.

 

As associações de praia são as responsáveis pelo início da formação do atleta. É como se fosse a escola que ensina alfabetizar a criança. Sem elas, o surfe não teria como descobrir novos talentos. Na minha opinião, estas entidades, desde que bem-estruturadas e organizadas, são de fundamental importância para a revelação de novos talentos no surfe.

Quais são as medidas para que o surfe evolua na base brasileira, agregando valores aos picos do País também?

 

Como já mencionei, quando presidente da CBS, tudo funcionava perfeitamente, inclusive tínhamos um programa de Controle de Dopagem. Hoje não posso dar detalhes, mas não temos mais um Circuito Brasileiro decente; as seleções nacionais estão trazendo resultados pífios, longe da realidade e do potencial que temos no litoral brasileiro, tanto de atletas como de picos de surfe.

 

A profissionalização só melhora ou também pode criar maus administradores também? Como vimos no caso de Carlos Nuzman recentemente no COB (Comitê Olímpico Brasileiro)…

 

Sem dúvida, isto não só envergonha o esporte brasileiro, mas os atletas, que são os principais atores do espetáculo, são extremamente prejudicados com estas atitudes despóticas.

 

Qual o segredo para formar campeões mundiais como Adriano de Souza e Gabriel Medina?

 

Eles fizeram uma boa formação na base, tiveram pessoas que cuidaram de suas carreiras, além do talento claro; são educados, profissionais e competentes no que fazem. Receita certa para se tornar campeão.

 

622x415

Gabriel Medina durante o Mundial da ISA em 2010: trabalho com a base é fundamental para gerar novos campeões mundiais. Foto: Divulgação ISA.

 

De que forma buscar a excelência em todas as esferas da vida, efetivamente, gera resultados?

 

A busca pela excelência é fundamental para a formação de um profissional competente. Quando se atinge este nível, apoiado por uma equipe multidisciplinar, os resultados aparecem.

 

Depois de tanto tempo envolvido na linha de frente da base do surfe nacional, com uma excelente equipe de profissionais, como foi deixar o comando da CBS e assistir a todas essas mudanças?

 

Não gosto de comentar sobre a situação que hoje a CBS vive. Quando trabalhei lá, o pior resultado em ISA Games foi um nono lugar, no ano que a ISA tinha liberado profissionais do CT competirem. Nossa equipe era Medina, Pupo, Kimerson e Fernandez, uma ótima e jovem equipe, mas a França, Austrália, EUA e outros países levaram a linha de frente dos Pros.

 

Antes disso, nunca ficamos fora dos pódios, sendo uma vez campeão mundial Júnior (2003, Durban), octacampeão pan-americano, campeão dos primeiros Beach Games, evento organizado pela ODESUR, no qual fomos com a delegação do COB. Várias medalhas de prata e bronze foram conquistadas nestes 8 anos.

 

Sou a favor da renovação institucional a cada quatro anos, como prevê a lei. A manutenção nos cargos de entidades esportivas por maior prazo visa única e exclusivamente a interesses escusos. Deixei a CBS depois de duas gestões extraordinárias e que hoje podem ser vistas nos resultados obtidos pelos atletas que fizeram parte dela.

 

Infelizmente, não foi dado continuidade neste trabalho, por pura incompetência e falta de comprometimento com o esporte; torço para que este quadro atual seja revertido. Hoje presto assessoria profissional se for contratado e não vou mais colaborar como dirigente esportivo no surfe.

 

Como é o trabalho do Aloha Surf Clube?

 

O Aloha Surf Clube é um conceito inovador em Matinhos. Fica no Juca’s Point, na Praia Brava de Matinhos. Temos um bar onde vendemos cervejas, sucos, sanduíches, porções, refrigerantes, água e açaí. Alugamos, consertamos e pintamos pranchas de surfe. Vendemos acessórios e o clube conta com um painel de fotos da História do Surf Paranaense, tela com filmes de surf, slackline, pingue pongue e dardo.

 

Nos finais de semana do verão bandas de rock e reggae tocam ao vivo. Tenho também uma equipe de surfe, com um atleta Open (Eve Mattos), a tetracampeã paranaense Andressa Carvalho, uma atleta de longboard (Bárbara Sieno), uma free bodyboarder (Sabrina Mourão) e um Pro de Bodyboard (Léo Mendes). Oferecemos também aulas de surfe.

 

960x720

Juca de Barros comanda atualmente o Aloha Surf Clube, na Praia Brava de Matinhos. Foto: Arquivo pessoal.

 

Qual o potencial de Matinhos para o surfe brasileiro?

 

Matinhos tem um potencial muito grande, talentos e ondas. Atualmente a Federação voltou a desenvolver um circuito de boa qualidade e temos vários atletas da nova geração aparecendo.

 

Na questão da educação ambiental, ela é de fundamental importância para a preservação de nosso litoral. A consciência em relação a isto vai oportunizar que novas reservas de surfe apareçam em breve. O litoral norte do Paraná tem esta característica, altas ondas, inóspito e bem cuidado pelos órgãos governamentais de nosso estado.

 

O que espera da Olimpíadas no Japão?

 

Torço por nossos atletas e por nossa bandeira, mas vamos esperar o resultado final.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.