Lesões no outside

Dr. Guilherme Vieira Lima traz estatísticas que avaliam as chances de lesões do surfista no outside.

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Quanto maior a onda, maior o risco de lesão.

O surfe é seguro? Uma pergunta simples na qual a resposta rende uma boa conversa. O surfe é um esporte que abrange um espectro muito amplo de atividade, ele varia desde ondas gigantescas em Nazaré, passando pelas esquerdas perfeitas e muito rasas de Desert Point, até as piscinas de ondas como Lemoore. Então a melhor resposta é: depende, depende muito!

Os trabalhos científicos epidemiológicos mostram que os riscos variam de acordo com*:

– Tamanho da onda (2,4 vezes mais chance de lesão quando maiores que 2 metros)
– Local do surfe (2,6 vezes mais de chance de lesão em “reef breaks”)
– Nível do surfista (profissional 4 lesões / 1000 horas, recreativos 3,5 lesões / 1000 horas)
– Dia da semana (final de semana risco maior do que dias da semana)
– Idade (acima de 35 anos maior o risco)
– Equipamentos
– Temperatura da água (mais frio, maior é a chance de desenvolvimento de hipotermia e exostose auditiva)

Em comparação a outros esportes, mostram que o surfe possui um índice de 6,6 lesões/ 1000 horas praticadas, enquanto o futebol 18,8 e o snowboard 5,4. Também pontuam que o mecanismo traumático mais frequente é o choque contra a própria prancha, e a mesma tendo um bico fino e quilhas afiadas pode torna-se uma inimiga fatal durante uma vaca.

Ainda muito se discute sobre o uso de equipamentos de proteção como capacetes e óculos, talvez esse seja o maior motivo pelo qual a prática de snowboard produza menos lesões do que o surfe.

As principais queixas dos surfistas em relação ao uso destes dispositivos são o desconforto, perda da percepção auditiva e visual, custo e empuxo durante uma vaca ou ao furar uma onda. Enquanto a tecnologia e as empresas responsáveis correm atrás de um equipamento ideal, o melhor a fazer é informar se sobre o local e proteger se ao cair.

A grande maioria das lesões (98%) são leves e raramente levam a uma hospitalização. Os traumas que mais obrigam o surfista a procurar um serviço médico são as lacerações, principalmente produzida pelo choque contra as quilhas e pedras, e os locais do corpo mais acometidos são os membros inferiores e a cabeça.

O tipo de traumatismo também mudou ao longo dos anos, especialmente entre os atletas profissionais. Atualmente, com pranchas mais leves e manobras mais progressivas, as lesões ligamentares de joelhos como rupturas do cruzado anterior e as fraturas dos ossos do pé e tornozelo são mais frequentes. Nos últimos dois anos, surfistas Tops como Caio Ibelli, Italo Ferreira, Adriano de Souza, Jonh Jonh Florence, Kelly Slater, Silvana Lima dentre outros, se afastaram por esses motivos.

Instituições como a Surfing Medicine International e a Sobrasa auxiliam os surfistas a terem mais segurança no outside.

Infelizmente o surfe também pode ser mortal, e a principal causa é o afogamento. Mesmo sendo um ótimo nadador e tendo um instrumento de flutuação preso ao corpo, esse risco é constante. Com o melhor treinamento da equipe de resgate e com avanço tecnológico das roupas infláveis, notamos uma queda significativa desse evento nos surfistas de ondas gigantes.

Hoje, no “boom” das piscinas de onda, pouco se fala sobre a segurança delas. Essa nova modalidade exige do praticante menor aptidão natatória, e isso pode ser um perigo ainda maior. O trauma crânio encefálico num piso mais raso, também é mais frequente, o qual pode causar uma perda da consciência e um consequente afogamento para esses surfistas.

Ter um conhecimento básico de primeiros socorros e suporte de vida também é muito útil, especialmente para aqueles que buscam a onda perfeita nos locais mais remotos do planeta.

Instituições como a Surfing Medicine International, que promovem os cursos de BSLS (Basic Surf Life Support – para qualquer amante do esporte ) e o ASLS (Advanced Surf Life Support – para profissionais da área da saúde), além da Sobrasa com projetos de salvamento no surfe instruem os praticantes a terem um surfe mais seguro e saudável.

A imprevisibilidade que torna esse esporte tão especial também pode ser a responsável por uma grave lesão. Estudar bem o local e respeitar os seus limites são as principais medidas preventivas para um surfe mais seguro e saudável.

Surfar é cuidar da saúde física, mental e espiritual. Mantenha-se seguro para manter-se saudável!

*Fonte Surfing Medicine International.

Guilherme Vieira Lima
Dr. Guilherme Vieira Lima, o Guiga, é especialista na área de medicina esportiva e médico da Surfing Medicine International. Para saber mais sobre o seu trabalho, siga o perfil @SurfeSaude no Instagram.