Os riscos do mal súbito

Cardiologista Nabil Ghorayeb explica por que atletas bem preparados morrem de mal súbito durante competições.

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Leo Neves ao lado da havaiana Coco Ho durante o Oi Rio Women’s Pro 2017 na praia de Itaúna.

O carioca Leo Neves, 40, e o triatleta Paulo Pereira, 42, faleceram no dia 24 de novembro após sofrerem um mal súbito no mar enquanto participavam de competições em Itaúna, Saquarema (RJ), e Cancún, no México.

Uma matéria do site VivaBem expôs o risco entre pessoas acima de 35 anos de sofrerem algum tipo de parada cardíaca enquanto praticam atividades físicas que exigem bastante esforço.

Segundo Nabil Ghorayeb, cardiologista e médico do esporte do Hospital do Coração, duas coisas em comum chamam a atenção no caso dos atletas: eles tinham mais de 40 anos e os dois estavam no mar.

“O risco de um atleta morrer de um mal súbito na água é maior do que se o mesmo problema acontecesse na terra, porque no mar não temos condição de ver. Se ele se afoga, se afunda, quem vai ver? Ainda mais em uma prova, com centenas de atletas nadando junto”, afirma Ghorayeb.

Um estudo feito com mais de nove milhões de participantes de triatlo em três décadas (1985 a 2016), mostrou que 135 pessoas morreram repentinamente ou tiveram uma parada cardíaca, sendo 107 delas mortes súbitas. No geral, 90 mortes e paradas cardíacas ocorreram durante a natação, ou seja, mais de 66% das mortes ocorreram na água. Além disso, as vítimas tinham 47 anos em média e 85% eram do sexo masculino.

Ainda sobe o estudo, os dados da autópsia mostraram que doenças cardiovasculares clinicamente silenciosas estavam presentes em uma proporção inesperada de falecidos, sugerindo a necessidade de os participantes conhecerem seu risco antes da prova.

Ghorayeb diz que, para um atleta de esporte coletivo, é sugerida uma avaliação médica anual, no início do ano esportivo, e outra após qualquer doença que ele tenha tido durante o ano, seja gripe ou até mesmo uma desidratação. Já nos esportes individuais e de alta intensidade, como surfe, triatlo, natação em mar aberto ou maratona, é indicado que avaliação seja feita, no mínimo, a cada seis meses.

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Hoje papai do céu levou para perto dele uma das pessoas com o maior coração que já tive a oportunidade de conviver. Ele se foi fazendo o que mais gostava e avisou “esse é o mar mais lindo que já vi na vida, se eu não sair da natação é por que fiquei admirando os peixinhos.” Paulinho, você estará para sempre em nossos corações. Te amo ❤️

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“Não adianta achar que só porque não sente nada, não precisa fazer exame. O atleta tem que fazer, principalmente exame do que mata, que é o coração”, diz o cardiologista. Ele ainda alerta para a avaliação periódica com o especialista, um cardiologista do esporte que entenda as alterações que possam aparecer. “O coração muda de tamanho e forma em atletas, então o exame vem diferente”. Alguém que não entenda dessas alterações pode confundir com doença ou até escondê-la.

Outro problema em questão é que, em casos como o dos atletas, cria-se um estigma de que o exercício pode fazer mal, o que não é verdade. O esporte não mata, e sim as doenças não valorizadas e não diagnosticadas, o uso de drogas para melhora de performance ou o esforço exagerado, superar limites sem estar preparado. “Esporte competitivo é diferente de andar na esteira todo dia na sua casa. Mas em todo caso é preciso realizar o exame. Claro, ele pode falhar. Nunca vai prever 100%, mas garanto que 95% ele consegue ver”, diz Ghorayeb.

Entretanto, mortes de atletas bem preparados vai além do cuidado pessoal. Segundo o médico, os organizadores também deveriam colocar mais “olheiros” nas provas aquáticas. “Geralmente são quatro pessoas olhando o mar. Tem que por mais gente olhando, mais observadores, para agir rapidamente quando qualquer pessoa sofrer um mal súbito na água”.