Quarentena não é férias

Dr. Guilherme Vieira Lima faz uma breve reflexão sobre como a pandemia de Covid-19 expõe nossas fraquezas como surfistas.

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Em breve, o tsunami irá passar e juntos voltaremos a surfar tranquilamente.

Sol, céu azul, água quente, swell batendo na costa e a praia vazia. Cenário perfeito para um dia de onda e sorriso no rosto, porém estamos mais próximos de uma ficção científica ao estilo “Contágio”. Triste realidade! Então, convido a todos leitores dessa coluna a fazer uma breve reflexão sobre como essa pandemia expôs nossas fraquezas como surfistas.

Realmente a situação merece a atenção de todos. Diariamente novas recomendações são anunciadas e, conforme a doença se espalha pelo país, aumentam as dúvidas e confusões. Para nós surfistas, praticantes de uma modalidade ao “ar livre”, amantes da natureza, da exploração de novos lugares e picos exóticos, uma recomendação de isolamento domiciliar cai como um tiro no peito.

A pergunta mais frequente que escuto é: a água do mar transmite esse Covid-19? Fui atrás da resposta, mas antes, vamos nos ater a outros fatos mais importantes sobre surfistas e a epidemia. Esse dia de surfe perfeito, descrito anteriormente, também foi o sonho de mais um milhão de surfistas. Imaginem todos da sua rua pensando em dar uma escapadinha no melhor momento do mar. Certamente alguns tomaram e tomarão os cuidados devidos, mas muitos outros, não.

Somado a isso, um fato ocorrido foi que no momento do anúncio das recomendações de reclusão domiciliar, com a possibilidade de “home work”, muitas pessoas optaram por ir para a região litorânea, principalmente dos grandes centros. Neste movimento, a chance de se ter uma maior circulação do vírus também aumentou.

O grande colapso conhecido sobre o coronavírus é o quanto ele sobrecarrega o sistema de saúde local. Essa doença de fácil transmissão, que na maioria jovem e saudável se manifestará como uma simples gripe, atingirá uma grande camada da população frágil também. Essa demandará de infraestrutura hospitalar e cuidados médicos intensivos dos quais muitos locais, principalmente praianos, não possuem.

Outro aspecto importante, já muito falado em muitos textos dessa coluna, é a imprevisibilidade do surfe. Vale lembrar que durante a sua sessão, acidentes traumáticos que necessitem de atendimento médico podem acontecer. E dessa forma, inflarão ainda mais o atendimento de urgência do pronto-socorro local.

Em relação a transmissão do Covid-19 pela água do mar, é difícil afirmar qualquer coisa sobre este assunto. Por mais que realizem trabalhos experimentais do comportamento do vírus na água salgada, é quase impossível reproduzir num estudo, as condições dinâmicas do mar quando se surfa. Além da hiperdiluição marinha que dificulta ainda mais o trabalho. Então, esse conhecimento perante a todos fatos já mencionados, deixa a resposta para a pergunta quase irrelevante para sua preocupação em surfar nestes próximos dias.

A saúde mental do isolamento domiciliar deve ser fator de preocupação também. Nossa recomendação é que escolha momentos de pouco movimento na rua, e dê uma volta, evite interação muito próxima com as pessoas e atente-se muito à higiene das mãos a todo o momento. Para aqueles que estão realizado um racionamento do álcool gel, os infectologistas afirmam que lavar as mãos com água e sabonete de forma atenciosa também é muito eficaz.

A tecnologia neste momento também nos ajuda. Diversos “streamings” de filmes estão sendo liberados e aplicativos gratuitos como o SID (@surfinjurydata), que possui uma área de exercícios (que podem ser realizados “indoor”) e uma área de conteúdo acadêmico, ajudam na “sobrevivência” a essa condição momentânea.

Enquanto a medicina e a ciência buscam exames de resultado imediato e medicamentos de tratamento promissor, é sabido que o isolamento é uma forma eficaz de conter a pandemia. Façamos então a nossa parte e seguimos as recomendações do Ministério da Saúde.

Atenção à população de risco:

– Maiores de 65 anos
– Doença Pulmonar Obstrutiva (DPOC) e outras doenças pulmonares prévias
– Doenças Cerebrovasculares
– Cardiopatias e Hipertensos Graves
– Insuficiência Renal
– Imunossuprimidos

Dicas:

– Higiene exaustiva das mãos, principalmente ao entrar e sair de casa. Se possível troca de roupa ao chegar em casa.
– Isolamento e cuidados com pacientes sintomáticos.
– Respeitar a quarentena estipulada conforme o caso.
– Procurar o pronto socorro se sinais importantes como febre, tosse, dor de garganta e principalmente falta de ar.
– Evite aglomeração e respeite as ordens governamentais estipuladas.
– Cuidado com soluções milagrosas de soro de imunidade ou medicações de cura imediata. O caos é um prato cheio para aproveitadores. Tenha a conscientização coletiva, e fiquem calmos. O tsunami irá passar e juntos voltaremos a surfar tranquilamente.

Guilherme Vieira Lima
Dr. Guilherme Vieira Lima, o Guiga, é especialista na área de medicina esportiva e médico da Surfing Medicine International. Para saber mais sobre o seu trabalho, siga o perfil @SurfeSaude no Instagram.