A imprevisibilidade do surfe

Dr. Guilherme Vieira Lima debate sobre as peculiaridades que transformam o surfe em um dos esportes mais imprevisíveis do mundo.

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O preparo para um grande dia de surfe se inicia desde a noite que antecede o swell.

A segurança e as medidas preventivas que todos envolvidos no mundo do surfe precisam ter já foi tema debatido em vários textos desta coluna. Porém, nunca discutimos a fundo os grandes motivos para essas preocupações. No primeiro texto de 2020 pretendo dissertar sobre as imprevisibilidades da sua prática, estilo e cultura.

Surfar, diferente de esportes como o futebol ou basquete, não depende somente de uma bola, ou um time e uma quadra para praticar. No surfe, ao sermos noticiado sobre um swell a caminho, todo um ritual é preparado.

Graças às inovações tecnológicas, com previsões antecipadas e precisas, é possível planejar melhor nossa “surf session”. Tamanho da onda, intervalo, temperatura, intensidade do vento, além de muitas outras informações, colaboram para o preparo do equipamento e do estudo do local. Separamos a prancha, quilhas, leash, roupa e até a parafina mais adequada. Mas mesmo com toda essa “previsibilidade”, o surfe ainda é considerado um esporte imprevisível.

O preparo de uma queda se inicia desde a noite que antecede a um grande swell. O nervosismo e ansiedade atrapalham a qualidade do sono do aventureiro e este descanso inapropriado interfere muito no rendimento. Ao acordar cedo, após o jejum noturno, o que seria ideal como alimentação? Um café da manhã reforçado para suprir toda a demanda energética de um dia intenso de onda ou uma alimentação leve para não “pesar” muito e gerar um desconforto gastrointestinal na água?

Chegando à praia, antes de cair na água, alongar? Aquecer? Como aquecer? Beber água?
No trajeto, situações como a do campeão mundial Adriano de Souza, com entorse do joelho com lesão ligamentar, podem acontecer sem mesmo ter pego uma onda sequer.

No momento em que entra na água, o risco do afogamento é presente, mesmo o surfista sendo um ótimo nadador e ter um objeto flutuante preso a ele. Situações trágicas como um trauma seguido de afogamento ou a de um “mal súbito” de origem cardiopulmonar, podem levar a um desfecho desfavorável, como, por exemplo, o caso do surfista Leo Neves.

A interação homem / natureza, que abrilhanta o esporte, pode ser considerada o fator mais expressivo nesse conceito. O ambiente aquático marinho, pode “pegar” o surfista de surpresa. Além de causar doenças já bem conhecidas como as dermatites, otites, micoses, também pode ser responsável por patologias como as infecções gastrointestinais após a ingestão de água contaminada, queimaduras por cnidários ou o até um ataque por tubarões.

Na maioria das vezes, os eventos traumáticos são considerados imprevisíveis. O que mais chama atenção no surfe é o extenso espectro de lesões causadas por trauma. Elas variam desde o choque direto contra a prancha, lesões ligamentares complexas na execução de uma manobra, até amputação de um dedo causada por estrangulamento do leash.

Como em todos os esportes, uma avaliação médica (pré-participação) para praticantes profissionais entre 35 a 40 anos é recomendada, principalmente para aqueles que andam com o check-up desatualizado ou possuem alguma doença de base que possa intervir na atividade.

No caso do surfe, realizar um preparo físico complementar, exercitando tanto a parte cardiopulmonar e fortalecimento do CORE como estímulos musculares explosivos, auxilia muito o aproveitamento no esporte. Controlar o peso corporal e manter o alongamento de tronco e membros, protegerá o surfista de diversas lesões.

Não se esqueça de hidratar e repor o gasto energético. O surfe, talvez seja um dos únicos esportes, no qual a reposição desses, não é realizada durante a prática. O surfista muitas vezes fica no mar por duas, três horas, e não ingere um gole de água potável. Situações de desidratação e hipoglicemia são muito frequentes e predispões a muitos danos.

Diversos dispositivos tecnológicos, atualmente, auxiliam no cuidado à saúde. É possível, através de GPS, verificar a distância percorrida, número de ondas, velocidade alcançada e tempo de prática. O App SID (Surf Injury Data), lançado recentemente, conta com a colaboração da comunidade do surfe de forma coletiva e global.

Através do “report” dado pelos surfistas usuários nas mais diversas localizações do mundo, é possível “prever” o tipo de lesão mais frequente por região. Dessa forma, mesmo sem conhecer o pico, o surfista já terá informações do local.

As piscinas de ondas, mesmo que produzam ondas exatamente idênticas, também traz surpresas. A qualidade da água e a prevenção a traumas e afogamentos precisa ter atenção especial das empresas responsáveis. Para praticar da forma mais saudável, visite seu médico e busque orientações das mais diversas naturezas.

O surfe não é somente mais um esporte. Ele é uma experiência surpreendente a cada momento que praticamos, pensamos e até consumimos. Surfe e mantenha-se mais vivo e saudável. Ótimo 2020 a todos!

Guilherme Vieira Lima
Dr. Guilherme Vieira Lima, o Guiga, é especialista na área de medicina esportiva e médico da Surfing Medicine International. Para saber mais sobre o seu trabalho, siga o perfil @SurfeSaude no Instagram.