Disco novo na área

Banda carioca Seletores de Frequência apresenta o álbum instrumental Astral.

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Felipe Diniz
Astral é um novo capítulo na trajetória dos Seletores de Frequência.

Admita, vai; o timing veio a calhar. Esse trabalho chega em um momento em que a gente precisa de boas vibrações. Freud que nos perdoe, mas esse disco é o que podemos chamar de uma verdadeira pulsão de vida. Praticamente uma celebração ao simples fato de estarmos aqui.

Após um EP de 4 faixas lançado em 2016, surge Astral, primeiro álbum dos Seletores de Frequência sem a direção do carismático BNegão. A banda recebeu uma proposta de Dado Villa-Lobos e do produtor Estevão Casé para gravar um disco instrumental pelo selo carioca Rockit!, o que foi prontamente aceito.

O que esse trabalho trará de novo? Pedro Selector, trompetista e único remanescente da formação original, responde: “O disco traz essa abertura da gente aparecer como compositor, que ficava meio oculto. É engraçado e acontece muito, mas as pessoas não se ligam que a banda também compõe.”

O resultado é um disco instrumental pensado em formato de canção, onde a banda despreza o virtuosismo autorreferencial em nome da fluidez estilística. As fontes primárias são essencialmente as mesmas, fincadas no funk, com dinâmica direcionada ao balanço e resultado intensamente orgânico.

O álbum começa com a explosiva “Piloto de Fuga (no 2)”, primeiro single do disco, que funcionaria muito bem como abertura de uma série blaxploitation contemporânea. Outros funks pontuam o álbum, como a sinuosa “Boca Maldita”, a quase boogie “(…) E Segue o Baile” e o bailão com cores (ou seriam vitrais?) bizantinos de “Biza”.

Ouvidos atentos perceberão a presença de jazz etíope dispersa nesse trabalho. Está lá de forma discreta no soul-jazz “Fumaça” e na rascante “Leva Fé (Lá)” e mais evidentes no groove sincopado de influência moura “Tony Árabe” e na excêntrica “Trem do Cão”, que entorta a cabeça do ouvinte com sua levada 6 por 8, numa sobreposição de xote com rock steady levada com tambores de terreiro – “É uma espécie de jongo com influência jamaicana”, diz o baterista Robson Riva.

O que não faltam são acenos a um Rio de Janeiro que inexplicavelmente não gerou descendentes diretos. Aquele Rio sagaz da Banda Black Rio, do Azymuth, do Milton Banana. É interessante notar que estamos falando de uma linhagem de ouro que extraordinariamente se perdeu em algum ponto da nossa história e que retorna aqui neste trabalho de mala, cuia, cuíca e agogô.

Foi uma busca intencional? “Não foi premeditado, mas existe sim essa conexão carioca com o groove dos anos 70 e as batidas do samba-jazz. Isso é resultado da nossa busca por visitar o passado sem tentar resgatar nada, olhando sempre pra frente”. E o resultado aparece na malemolência escorregadia de “Só pra Salvar”, na elegância pungente de “Sambatido”, que por sua vez ecoa Lee Morgan e faz escala em Kingston no reggae vadio de “Riva Dobbie”. Isso não é pouca coisa.

Ainda que de forma involuntária, mas nem por isso menos ambiciosa, Astral é um trabalho libertário e de franca maturidade. Já que não podemos mais voltar de onde paramos e o futuro é uma incógnita, a celebração da vida se faz mais que necessária. E agora temos nossa trilha.

Clique aqui para ouvir na íntegra.