Circuito Banco do Brasil

Tudo pronto em Miami

Última etapa do Circuito Banco do Brasil, evento QS 1000, começa nesta quinta-feira (31) na Praia de Miami, Natal (RN). Torneio acontece durante Festival Tamo Junto BB.

O Circuito Banco do Brasil de Surfe com o slogan Fã e Apoiador do Surfe Brasileiro, abre nesta quinta-feira (31) a inédita etapa do QS no Rio Grande do Norte. Uma das atrações é a participação do campeão mundial e olímpico, Italo Ferreira, que compete pela primeira vez no seu estado, depois que entrou na elite da WSL em 2014. Na Praia de Miami, em Natal, será disputada a quinta e última etapa do Circuito de Surfe promovido pelo Banco do Brasil, que faz parte do Festival Tamo Junto BB, que terá competições de vôlei de praia, skate, corrida de rua e shows musicais todas as noites na Arena das Dunas.

Com tantas modalidades rolando já a partir desta quarta-feira (30), este é o maior evento esportivo do Brasil e da história do Rio Grande do Norte. Toda a equipe de surfistas patrocinados pelo Banco do Brasil estará nesta semana em Natal. O bicampeão mundial Filipe Toledo, a medalhista de prata nas Olimpíadas de Paris, Tatiana Weston-Webb, e a atual campeã sul-americana da WSL, Tainá Hinckel, vão prestigiar todos os eventos do Festival Tamo Junto BB. Já Italo Ferreira, a duas vezes vice-campeã mundial, Silvana Lima, e Juliana dos Santos, também vão competir no Circuito Banco do Brasil de Surfe em Natal.

Italo Ferreira fez uma sessão de treinos na manhã da terça-feira e já prometeu que quer a vitória no campeonato. O Brabo está escalado na oitava das 16 baterias da segunda fase e os primeiros que terão o privilégio de enfrentar o campeão mundial, são Emanoel Tobias, Gabriell Teixeira e Jeová Rodrigues. Outra grande estrela é Jadson André, que está se recuperando de uma lesão e vai estrear no confronto seguinte. Jadson ficou 11 temporadas na elite dos melhores surfistas do mundo e outros potiguares que também representaram o Brasil no CT, foram Joca Junior, Danilo Costa e Marcelo Nunes.

“A região do Rio Grande do Norte é uma das principais para o surfe brasileiro, um verdadeiro berço de grandes nomes da modalidade”, destaca Ivan Martinho, presidente da World Surf League na América Latina. “Por isso, é importante realizarmos eventos como o Circuito Banco do Brasil de Surfe em Natal, para termos a oportunidade de descobrir novos talentos no país, além de apoiar e servir de vitrine para o esporte, que tem se popularizado entre as novas gerações”.

O Rio Grande do Norte é um dos maiores celeiros do surfe brasileiro. O primeiro a projetar o surfe potiguar nacionalmente, foi Felipe Dantas, vice-campeão brasileiro profissional em 1989 e que também participou de várias etapas do Circuito Mundial nos anos 80 e 90. Da geração dele, outro nome forte de Natal, é o do Sérgio Testinha. Depois, surgiu Joca Júnior sendo o primeiro surfista da história a ser campeão brasileiro amador em 1989, profissional em 1996 e da categoria master também. Ainda teve Aldemir Calunga, Rodrigo Jorge, Fabricio Junior, entre outros, conquistando títulos brasileiros amadores nos anos 90 e, mais recentemente, Israel Junior, de Baía Formosa, foi campeão brasileiro profissional em 2022.

Nova geração potiguar – Aldemir Calunga hoje realiza um importante projeto de surfe inclusivo, levando pessoas com necessidades especiais para pegar ondas também. Já Joca Junior agora acompanha seu filho, Samuel Joca, nas competições. Outro talento de mais uma geração promissora do surfe potiguar é Mateus Sena, que já conquistou o título de campeão panamericano em 2022. Ambos conseguiram seus melhores resultados no Circuito Banco do Brasil de Surfe na primeira etapa deste ano em Torres, no Rio Grande do Sul. Joquinha foi até as quartas de final e Mateus fez a sua primeira final em eventos do QS, vencida pelo catarinense Matheus Navarro.

O Circuito Banco do Brasil de Surfe estreou em 2022 com três eventos e em 2023 cresceu para cinco etapas do Qualifying Series, valendo pontos para o ranking regional da WSL South America, que define os títulos sul-americanos da temporada e classifica 7 homens e 3 mulheres para o Challenger Series, circuito de acesso para a elite do World Surf League Championship Tour (CT). Neste ano, também são cinco e a largada foi no Rio Grande do Sul. Depois, passou por Saquarema no Rio de Janeiro, pela Praia do Francês em Marechal Deodoro, Alagoas, e pela Praia de Maresias, em São Sebastião, São Paulo.

Potiguar na briga – O Circuito Banco do Brasil de Surfe também produz um ranking próprio, computando somente os resultados das suas cinco etapas, para definir o campeão e a campeã da temporada. A jovem catarinense Laura Raupp ganhou 3 das 4 etapas disputadas e já garantiu o título de 2024 por antecipação. Mas, o masculino ainda tem 15 surfistas com chances matemáticas de ser campeão no ranking liderado pelo argentino Nacho Gundesen. Mateus Sena é um deles, está em sexto lugar e vai decidir o título em casa. Ele vai estrear na 12.a das 16 baterias da segunda fase.

“Animal ter esse primeiro QS da história em casa, com presenças ilustres como o Italo Ferreira e o Jadson André competindo, o Filipe Toledo e a Tatiana Weston-Webb vindo assistir, colocando o surfe do Rio Grande do Norte num outro patamar”, acredita Mateus Sena. “Nós somos campeões brasileiros, panamericano, campeão mundial, campeão olímpico, então a gente merecia um evento desse aqui no nosso estado. A expectativa está lá em cima, quero fazer boas baterias e mostrar meu surfe, pra galera local torcer pela gente. É um momento incrível pro surfe do Rio Grande do Norte, estou muito feliz de fazer parte disso e acho que vai ser um divisor de águas pro nosso estado, então quero tentar deixar esse título em casa”.

Novos talentos – Um dos objetivos do Circuito Banco do Brasil de Surfe é descobrir novos talentos no surfe brasileiro. Especialmente, oferecer a oportunidade para que eles participem de eventos da World Surf League. Nas 12 etapas realizadas desde 2022, um total de 225 surfistas aproveitou a chance de competir pela primeira vez em etapas do Qualifying Series – 181 na categoria masculina e 44 na feminina. Foram 93 estreantes nas 3 etapas de 2022 (76 homens e 17 mulheres), 72 nas 5 etapas de 2023 (58 homens e 14 mulheres) e 60 nas 4 primeiras de 2024 (47 homens e 13 mulheres).

Nesta quinta e última etapa em Natal, não será diferente. Surfistas não só do Rio Grande do Norte, como também do Ceará, Paraíba, Pernambuco, irão vestir a lycra de competição da World Surf League pela primeira vez no Circuito Banco do Brasil de Surfe. O mais jovem deles é Davi Lima, de 14 anos, que é local da Praia de Miami. Outros dois tem 15 anos apenas, Vinicius Trindade e Jhosefy Lima e Silva. E tem alguns inscritos bem mais experientes também, que vão aproveitar a oportunidade de participar de uma etapa do QS, como Bruno Grilo de 54 anos e Marco Aurélio, o Leléu, com 63 anos.

Festival Tamo Junto BB – A última etapa do Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024 faz parte da programação do Tamo Junto BB, um Festival de Esportes e Música que vai agitar a capital do Rio Grande do Norte. O campeonato de surfe inédito da World Surf League em Natal, será na Praia de Miami e as outras modalidades olímpicas patrocinadas pelo Banco do Brasil, vão rolar na Arena das Dunas. A nona e penúltima etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, já começa na quarta-feira. No fim de semana, tem a etapa final do Vert Battle de Skate, com os campeões mundiais Augusto Akio, Gui Khury e Raicca Ventura, além de Demo Sessions de grandes estrelas, como Bob Burnquist, Felipe Nunes e Nando Araujo.

No domingo, das 6h00 às 10h00, terá a Corrida de Rua para todas as idades, com percursos de 1 km, 5 km e 10 km, um evento especial para corredores iniciantes e experientes. Também na Arena das Dunas, será instalada a Arena Gamer com muita interatividade e adrenalina, nos gameplays com Just Dance e desafios contra profissionais, além de Meet & Greet com os influenciadores Matheus Ueta, Jeff Bala e Julia Barni.

SHOWS MUSICAIS – A programação musical também promete agitar a Arena das Dunas. No dia 1 de novembro, sexta-feira, no palco principal vai ter show de Oriente, Vanessa da Mata e Nando Reis, no dia 2 as atrações serão Attooxaa, Lexa e Jão. Nos dias 1, 2 e 3, artistas potiguares também estarão se apresentando no Palco Villa BB. Todos os shows e competições na Arena das Dunas terão entradas gratuitas, mas é necessário se cadastrar antes. Mais informações no site tamojuntobb.com.br.

Fã e Apoiador do Surfe Brasileiro é o slogan do Circuito Banco do Brasil de Surfe 2024, que promove 5 etapas do Qualifying Series esse ano, valendo pontos para o ranking regional da WSL South America. A primeira foi em Torres (RS), a segunda em Saquarema (RJ), a terceira em Marechal Deodoro (AL), a quarta em São Sebastião (SP) e a última é na Praia de Miami, em Natal, com transmissão ao vivo do Rio Grande do Norte pelo WorldSurfLeague.com.

Baterias
(Confrontos sujeitos a alterações até o início do campeonato)

Primeira fase Masculino – 3.o=65.o lugar (53 pontos) e 4.o=69.o lugar (52)

1 Rafael Melo (BRA), Sidney Silva (BRA), Patrick Alves (BRA), Vando Souza (BRA)
2 Italo Gomes (BRA), Vinicius Trindade (BRA), Jhosefy Lima e Silva (BRA)
3 Daniel Domingos (BRA), Caio Lima (BRA), João Victor Santos (BRA), Alef Kleberson (BRA)
4 Lucas Silva (BRA), Isaias Souza (BRA), Johnny Ferreira (BRA)

Segunda fase Masculino – entrada dos 56 cabeças de chave- 3.o=33.o lugar (66 pontos) e 4.o=49.o lugar (60)

1 José Francisco (BRA), Arthur Chaves (BRA), Jonathan Freitas (BRA), 1.o da 1.a da 1.a fase
2 Gabriel André (BRA), Joakim Alm (SUE), Yuri Barros (BRA), Carlos Cabral (BRA)
3 Igor Moraes (BRA), Arthur Alves (BRA), José Junior (BRA), 1.o da 2.a da 1.a fase
4 Daniel Adisaka (BRA), Weslley Dantas (BRA), Paulo Vilar (BRA), Cleodom Souza (BRA)
5 Wesley Leite (BRA), Deyvson Santos (BRA), Kellysson Gois (BRA), 1.o da 3.a
6 Vitor Ferreira (BRA), Kayan Medeiros (BRA), Lucas Felipe (BRA), Paulo Henrique (BRA)
7 Takeshi Oyama (BRA), Douglas Nunes (BRA), Adauto Sena (BRA), 1.o da 4.a
8 Italo Ferreira (BRA), Emanoel Tobias (BRA), Gabriell Teixeira (BRA), Jeová Rodrigues (BRA)
9 Jadson André (BRA), Djackson Paulino (BRA), Igor Ferreira (BRA), 2.o da 1.a
10 Samuel Joca (BRA), Lysandro Leandro (BRA), Jonatha Santos (BRA), Rafael Barbosa (BRA)
11 Cauã Costa (BRA), Leo Alves (BRA), Kauã Hanson (BRA), 2.o da 2.a
12 Mateus Sena (BRA), Lucas Catapam (BRA), Lucas Pires (BRA), Francisco Albuquerque (BRA)
13 Kaue Germano (BRA), Adailton Souza (BRA), Junior Rocha (BRA), 2.o da 3.a
14 Ryan Kainalo (BRA), Gustavo Henrique (BRA), Luiz Felipe Bezerra (BRA), Davi Lima (BRA)
15 Eric Bahia (BRA), Madson Costa (BRA), Itim Silva (BRA), 2.o da 4.a
16 Lucas Vicente (BRA), Bruno Grillo (BRA), Israel Junior (BRA), Breno Eduardo (BRA)

Primeira fase Feminino – 1.a e 2.a avançam para as quartas de final – 3.a=9.o lugar (350 pontos) e 4.a=13.o lugar (295)

1 Laura Raupp (BRA), Mariana Areno (BRA), Monik Santos (BRA)
2 Vera Jarisz (ARG), Juliana dos Santos (BRA), Maya Carpinelli (BRA), Isadora Lima (BRA)
3 Silvana Lima (BRA), Nicole Santos (BRA), Alessandra Almeida (BRA)
4 Arena Rodriguez Vargas (PER), Sol Aguirre (PER), Kayane Reis (BRA)

Rankings do circuito depois de quatro etapas
Top 5 Feminino
1 Laura Raupp (SC) – 3.800 pontos
2 Daniella Rosas (PER) – 2.800
3 Julia Duarte (RJ) – 2.150
4 Vera Jarisz (ARG) – 1.500
5 Arena Rodriguez Vargas (PER) – 1.450

Top 5 Masculino
1 Nacho Gundesen (ARG) – 1.866 pontos
2 José Francisco (PB) – 1.800
3 Matheus Navarro (SC) – 1.561
4 Peterson Crisanto (PR) – 1.350
5 Vitor Ferreira (RJ) – 1.300

Rankings sul-americanos do QS 2024/2025 da WSL América do Sul
(classificam 7 homens e 3 mulheres para o Challenger Series 2025)

Top 10 Masculino depois de cinco etapas
1 Lucas Vicente (BRA) – 5.616 pontos
2 Franco Radziunas (ARG) – 4.590
3 José Francisco (BRA) – 4.440
4 Peterson Crisanto (BRA) – 3.895
5 Igor Moraes (BRA) – 3.742
6 Kaue Germano (BRA) – 3.508
7 Nacho Gundesen (ARG) – 3.475
8 Rickson Falcão (BRA) – 3.182
9 Edgard Groggia (BRA) – 3.078
10 Cauã Costa (BRA) – 3.073

Top 10 Feminino depois de cinco etapas
1 Laura Raupp (BRA) – 9.340 pontos
2 Daniella Rosas (PER) – 6.732
3 Arena Rodriguez Vargas (PER) – 6.725
4 Julia Duarte (BRA) – 5.465
5 Vera Jarisz (ARG) – 4.822
6 Juliana dos Santos (BRA) – 3.928
7 Silvana Lima (BRA) – 3.578
8 Sol Aguirre (PER) – 3.400
9 Alexia Monteiro (BRA) – 3.220
10 Kiany Hyakutake (BRA) – 3.143

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.