Quarentena no Caribe

Na fissura e cansado da pandemia, grupo de brasileiros aposta nas ondas receptivas da República Dominicana.

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BeachBuho
Surfe não sofreu restrições durante a pandemia na República Dominicana.

Já se passavam dez minutos do toque de recolher. Dirigimos como loucos em direção à pousada. Na cabeça, a história de um amigo brasileiro que havia vacilado e dormido uma noite na cadeia – e cadeia na República Dominicana não perde em nada para as nossas. Segundo ele, foi uma noite em claro, sentado no chão e cuidando das larvas que rastejavam da privada em sua direção.

Toque de recolher é uma das poucas leis que funcionam por lá durante a pandemia. Segunda à sexta, às 21 horas; sábado e domingo às 19. As cidades ficam desertas e as ruas silenciosas. Um alívio momentâneo das milhares de motos – principal meio de transporte local – que contam com suas próprias regras de trânsito e onde os capacetes são raridades.

Durante o dia, o perigo para quem dirige é tão grande que as locadoras obrigam você a fazer um seguro contra terceiros. Abater um motociclista é realidade.

Cansados da pandemia e precisando surfar, fizemos uma pesquisa e soubemos que a República Dominicana estava (e está) aberta para os brasileiros. Não é necessário ficar de quarentena, muito menos testar negativo para Covid-19. Se você tiver o exame ótimo, caso contrário, talvez seja escolhido para fazer um teste rápido na chegada ao aeroporto.

A pandemia afetou muito mais a vida econômica do País – que vive basicamente do turismo – do que o número de mortes. Até o começo de novembro, havia sido registrados 127 mil casos, com 2.250 mortes. Uso de máscara é exigido em todos os lugares públicos.

País do Caribe é uma boa opção de surf trip com baixo custo.

El Encuentro

Pesquisando as ondas, encontramos alguns picos de qualidade e começamos a monitorar os swells. O bom do Caribe é que nesta época do ano os furacões e tempestades tropicais surgem quase que semanalmente.

Chegando à capital Santo Domingo, alugamos um carro e seguimos para o norte do País. Quase quatro horas atravessando “pueblos” e descobrindo o maravilhoso mundo das motos sem lei.

O destino era a região de Sosua e Cabaret, um dos locais preferidos dos kitesurfers. O pico em questão é “El Encuentro”, um reef break com cinco seções diferentes. “Destroyer” e “The Felft” são esquerdas perfeitas e tubulares; no centro tem “The Right” – a mais constante também rápida e tubular. Mais a direita tem “Coco Pipe”, onda perfeita para longboarders.

El Encuentro segura ondulações com até 8 pés e, mesmo sendo fundo de pedra, entrar e sair não é nada complicado. Nos dias grandes o canal ainda funciona. O local respira surfe todos os dias, desde o amanhecer. Quatro escolas, além de loja, galeria de arte e duas lanchonetes fazem da beira da praia uma comunidade amiga e receptiva. Mas nem sempre foi assim.

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El Encuentro respira o surfe e funciona com ondas de até 8 pés.

Até quatro anos atrás, a região era dominada por uma milícia. Depois de uma guerra que durou quase um mês, o poder público retomou o local. Hoje reina a paz, reforçada por seguranças armados com escopetas e revólveres de prontidão nos acessos.

Surfamos por mais de uma semana um swell que só foi aumentando e chegou aos 2 metros. O crowd incomoda nos dias menores e desaparece nos maiores. A água é quente e o vento entra no fim da manhã. Madrugar é necessário.

Nosso amigo brasileiro, que conheceu a cadeia local, nos deu a dica para outra onda não muito conhecida: “The Chanel”, e no maior dos dias fomos conferi-la. Carro na beira da entrada, trilha de 15 minutos ainda na escuridão e um pico deserto. Pedras por todos os lados e correnteza constante. A onda vem quadrada e rápida, parece uma pequena Teahupoo.

Outros picos

Seguimos viagem para o leste do País, na região chamada de Samaná. A onda de “El Coson” quebra em frente à pousada e com cinco braçadas você está no outside. Onda boa para surfe “hot dog”.

Ficamos alguns dias, mas já com swell perdendo força. Terminamos a viagem em Punta Cana, o paraíso dos resorts. No momento, cenário de “Walking Dead”, tudo deserto, lojas fechadas, shoppings falidos e moradores locais caçando turistas a qualquer custo.

A onda em Punta Cana é “Macao”, um beach break de qualidade com boa infraestrutura de praia. O vento pode atrapalhar – e atrapalhou; não tivemos a chance de surfar, apesar do swell… Já era hora de voltar.

Brasileiros fazem a cabeça nas séries cristalinas do local.

A temporada de ondas em toda a República Dominicana é de novembro a março. E como a pandemia ainda vai longe, o País é hoje uma das melhores opções para uma surf trip com baixo custo. A moeda local tem valor aproximado a do Real. A Copa Airlines tem voos diários através do Panamá com passagens em torno de US$ 500. As pousadas e hotéis estão com preços em baixa e os mercados estão bem abastecidos.

Nossa trip contou comigo (Rodrigo Tusca), Diogo Wagner, Eduardo Ballão e um quiver de seis pranchas. Todas foram usadas e com diferentes configurações de quilhas. Viajar na pandemia foi um alívio, e viver por duas semanas de praia em praia de águas cristalinas e curtindo o sol do Caribe, foi uma bênção.

Dicas

– A Copa Airlines cobra US$ 150 por capa com duas pranchas por trecho. É preciso fazer o pagamento assim que comprar a passagem, pois os aviões são o Boeing 737-800 com pouco espaço no porão.

– Em época de pandemia, é roubada querer comprar sem contar com uma agência de viagens. Você pode ficar dias tentando ser atendido por um call center e estragar sua trip. Nosso voo foi cancelado sem aviso e remarcado para dez dias depois.

– Os voos da Copa decolam do Rio, São Paulo e Brasília, inexplicavelmente, sempre por volta das 4 horas. E a escala no Panamá é apertada. O País está fechado para turistas e ninguém pode desembarcar.

– A Copa Airlines exige comprovante internacional da Febre Amarela, apesar de o governo Dominicano não checar.

– É possível voar também através da Aeroméxico, Latam e as americanas via Miami. A Vianna Tur – (41) 3322-5859 – é especializada em surf trips e tem as informações necessárias para cada opção.

– O melhor lugar para se hospedar em “El Encuentro” é o “El Encuentro Surf Lodge”. Uma pousada espetacular em frente ao pico, e com um café da manhã fora de série.

– A República Dominicana é a história viva das “Américas” e tem muitos lugares incríveis para visitar além dos picos de surfe. Foi lá que Cristóvão Colombo desembarcou, em 1492, achando que estava nas Índias. Vale passar um dia na capital Santo Domingo e visitar os fortes espalhados pelo País.