
Nascido e criado no Havaí, Cliff Kapono, 30 anos, é um dos nomes mais singulares da atualidade: surfista profissional, PhD em Química pela University of California, San Diego, documentarista e defensor da cultura indígena havaiana.
PhD é um título de doutorado acadêmico que representa o mais alto grau de formação numa área de conhecimento, obtido através de pesquisa original e inédita sobre um tema específico.
Embora a sigla venha do latim Philosophiae Doctor (Doutor em Filosofia), este título é concedido em diversas disciplinas, não se limitando à filosofia.
A conclusão de um PhD envolve a elaboração e a defesa de uma tese perante uma banca examinadora, com o objetivo de expandir o conhecimento da área. No caso de Cliff, sua investigação científica se conecta diretamente com o oceano.

Cliff liderou o Surfer Biome Project, no qual utilizou ferramentas de biologia molecular, sequenciamento genético e espectrometria de massa para analisar como a imersão no mar altera o microbioma de surfistas ao redor do mundo, explorando a relação entre microrganismos, saúde e estilo de vida.
Ao longo de sua carreira, o havaiano tem mostrado como a cultura do surfe pode dialogar com pesquisas científicas, sempre com o mar como fio condutor de sua vida.
Surfista de alto nível, mergulhador e fotógrafo, ele prova que é possível unir tradição e ciência, espiritualidade e tecnologia, ondas gigantes e moléculas microscópicas.

A seguir, ele compartilha com o Waves suas experiências e visões sobre o futuro dos recifes, a importância da ciência no surfe e o papel de integrar conhecimentos ancestrais e saber acadêmico.
Você cresceu no Havaí, berço do surfe. Como esse patrimônio cultural moldou sua visão de mundo e inspirou sua jornada científica?
Tenho muita sorte de ser do Havaí. Temos muitas histórias sobre como nos conectamos com o mundo natural como povo havaiano. Acho que isso moldou a forma como vejo o mundo e me mantém interessado em aprender mais sobre como estamos conectados à natureza em níveis moleculares.

Qual foi o ponto de virada que o levou a buscar um PhD em química ao mesmo tempo em que mantinha a vida como surfista profissional?
Eu não sou um surfista competitivo e nunca busquei de fato uma carreira no circuito. A maior parte do meu surfe gira em torno de encontrar as melhores ondas do ano, o que significa que muitas vezes sobra bastante tempo livre.
Como acontece com muitos free surfers viajantes, três ou quatro sessões realmente boas por ano já rendem um vídeo que faz parecer que você está pegando altas ondas todos os dias.

Percebi que, se priorizasse essas sessões e usasse o tempo livre para me manter em forma, ainda teria bastante espaço para outras atividades.
Naturalmente, acabei usando esse tempo para aprender ciência, o que evoluiu para um curso universitário. No começo, a ciência era apenas uma forma de passar o tempo fora d’água. Nunca pensei que ambas se transformariam em carreiras.

No Surfer Biome Project*, você estudou o microbioma de surfistas em diferentes oceanos. Que descobertas mais o surpreenderam nesse trabalho?
Os instrumentos que usei para analisar moléculas eram muito sensíveis. Cheguei a ver traços de drogas na pele de surfistas durante o projeto.
Não fiquei exatamente surpreso, mas foi curioso perceber como os efeitos de festas fora do surfe podem ser rastreados na pele mesmo depois de uma sessão no mar.
Em nível de bactérias, foi surpreendente ver que existem espécies oceânicas que parecem favorecer tanto humanos quanto baleias.
O MEGA Lab** tem a meta de mapear um milhão de recifes até 2030. Como equilibrar tecnologia de ponta com o conhecimento tradicional das comunidades locais nesse processo?
Acredito que a tecnologia de ponta é também conhecimento tradicional. De certa forma, os smart-phones podem ser vistos como pouco avançados, já que são apenas blocos de vidro que nos distraem.
Navegar ao redor do mundo em canoas de madeira usando estrelas e correntes, isso sim é uma das formas mais avançadas de transporte. Totalmente sustentável e conectado às nossas tradições.
Nosso projeto de mapeamento busca justamente criar essa ponte: usar os dispositivos, mas permanecendo em contato com o oceano. Quanto mais recifes mapeamos, mais aprendemos a protegê-los.

O que você aprendeu sobre corais e saúde do oceano que ainda não é suficientemente discutido fora da comunidade científica?
Existe muito discurso pessimista sobre a morte dos recifes. É verdade que os corais estão criticamente ameaçados em várias partes do mundo, e que muitos recifes já não são como eram há 10 anos. Mas também há esperança.
Além dos esforços de conservação, ainda existem recifes belíssimos e vibrantes a serem descobertos. Podemos preservá-los garantindo que saibamos onde estão localizados.
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Esse é o benefício do mapeamento: ele mostra onde está o tesouro, para que possamos protegê-lo.Muitos vêem o surfe apenas como esporte. Para você, como surfista-cientista, o que significa estar no oceano em termos de pesquisa, espiritualidade e cultura?
O surfe é minha profissão, minha arte, minha prática de estudo e, provavelmente, o mais importante: minha cultura. O surfe tem aspectos de esporte, mas para mim é mais um pilar de quem eu sou e de quem eu quero ser para as pessoas que amo.

Suas produções audiovisuais já chegaram às grandes plataformas como The New York Times e The Surfer’s Journal. Qual a importância de contar essas histórias para além do mundo acadêmico?
Muitas vezes, na academia, seguimos rápido demais para a próxima ideia. Não dedicamos tempo suficiente para construir sobre o que já foi feito.
Quando mensagens e histórias chegam além da academia, mais pessoas podem acessá-las. Isso aumenta as chances de o trabalho ser aprimorado e gerar impactos mais duradouros.
Você é um defensor ativo do conhecimento indígena havaiano. Como a ciência ocidental e a sabedoria ancestral podem trabalhar juntas em favor do oceano?
Acho que é preciso reconhecer as diferenças entre as duas e usar os pontos fortes de cada uma para criar uma comunicação melhor. Sempre gostei do ditado de que a escola pode não ser para todos, mas a educação é.
Há muito a aprender com os mais velhos que passaram a vida pescando ou que sabem prever o clima observando o comportamento dos animais.

Podemos então usar os dados empíricos para responder questões imediatas, que talvez sejam pouco familiares para comunidades afetadas por mudanças rápidas. Há benefícios nos dois mundos. Juntá-los pode não ser fácil, mas as coisas mais valiosas muitas vezes surgem do trabalho árduo.
O surfe moderno está se tornando cada vez mais tecnológico, das pranchas às piscinas de ondas. Como você vê o papel da ciência nesse novo cenário?
A ciência continua transformando todos os setores da indústria outdoor. Desde as pranchas até a fabricação de roupas, tudo está se tornando mais eficiente e continuará evoluindo.
Se a essência de nossa cultura vai abraçar isso ou não, ainda é cedo para dizer. Para mim, acredito que um equilíbrio saudável entre arte e ciência nunca falha.
Que conselho daria para jovens surfistas que também desejam seguir uma carreira acadêmica sem perder a conexão com o oceano e com suas raízes culturais?
A sociedade está mudando. Ser uma pessoa multidimensional vai torná-la mais valiosa em qualquer carreira futura. Eu os encorajaria a permanecer comprometidos com o oceano, pois ele será a armadura que os protegerá dos muitos desafios que, sem dúvida, irão enfrentar.
*O Surfer Biome Project busca investigar a relação entre surfistas, o oceano e a microbiologia. A ideia central do projeto é entender como o contato constante com o mar, ondas e diferentes ambientes costeiros influencia a microbiota humana, as comunidades de microrganismos que vivem no corpo, especialmente na pele e no intestino.

**O MEGA Lab (Multiscale Environmental Graphical Analysis Laboratory) é um laboratório colaborativo de ciência e inovação fundado pelo surfista e cientista havaiano Cliff Kapono.
A proposta do MEGA Lab é unir pesquisadores, artistas, surfistas, comunidades locais e instituições de ensino em torno de um objetivo comum: entender e preservar os ecossistemas costeiros e marinhos.