
No outside de Nazaré, em Portugal, a série apareceu sem avisar. A bateria tinha começado há menos de cinco minutos. Ian Cosenza, piloto e marido de Michelle des Bouillons, leu cada movimentação da água e começou a se posicionar. Não havia tempo para conversa. O movimento do jet já dizia tudo.
“Tá, já entendi o recado. Vamos embora”, Michelle pensou no momento em que sentiu o lançamento. Do alto, a onda parecia uma pirâmide. Vista de dentro, era uma montanha que cobria o sol.
“Pela primeira vez na vida, eu não senti medo de surfar um mar com essa intensidade.”
A descida durou intermináveis segundos, em alta velocidade. Era 13 de dezembro de 2025, durante o TUDOR Nazaré Big Wave Challenge, da WSL. Quando chegou à base, a sombra da onda já havia engolido a luz. O lip quebrou. A espuma atingiu sua perna. Mas Michelle se agachou, firmou a base, ajustou a linha e completou a onda. Uma medição preliminar realizada pelo especialista Paulo Vinicius Lopes, o mesmo que calculou o recorde de Rodrigo Koxa em 2017, apontou 24,99 metros de altura. Se confirmado pelo Guinness World Records, o feito supera os 22,40 metros de Maya Gabeira, estabelecidos no mesmo pico em 2020, e coloca Michelle no topo da história do surfe feminino de ondas gigantes.
A confirmação está prevista para 19 de setembro, durante a premiação anual do Big Wave Challenge conduzida por Bill Sharp e pelo Guinness World Records.
O caminho que ninguém seguiu
Michelle des Bouillons cresceu no Rio de Janeiro, filha de um shaper que fabricava pranchas no quintal de casa. Aos 6 anos já surfava. Aos 13, competia em campeonatos locais. Aos 24, tomou a decisão que mudaria sua trajetória: deixar o circuito de performance e ir atrás das ondas gigantes.

A virada não foi planejada. Ela conta que a administração dos eventos no Brasil teve um gap muito grande, sem competições amadoras, profissionais, nada. “Quase sumiram as competições de cenário”. Ali ela entendeu que precisava seguir outro caminho.
“Nunca fui a melhor competidora. Mostrar meu melhor em 15 minutos nunca funcionou para mim.”
O surf brasileiro vivia a ascensão do freesurf. Ela se jogou nisso. Veio o Canal OFF, campanha de modelo, presença na TV. Um momento sólido de carreira que, mas por dentro ainda deixava algum vazio. “Precisava de mais. Estava faltando alguma coisa”. Decidiu ir para a França.
Na França, longe do Brasil em que era conhecida na TV, Michelle se viu muito próxima do big surf. Fez as primeiras sessões em Nazaré. Foi à Indonésia, surfou Desert Point, uma onda que “tem muito surfista homem e profissional que não surfa ali”, como ela mesma descreveu. O caminho estava dado.
A temporada de 2025 foi a nona de Michelle em Nazaré.
A dupla
Michelle des Bouillons desceu aquela onda. A decisão de soltar a corda, o drop, o bottom turn no momento em que a espuma bateu na sua perna, a escolha de se agachar e manter a linha até o fim: tudo isso veio dela. Mas o tow-in não é um esporte solitário, e reconhecer isso não diminui em nada o feito.
No tow-in, a surfista chega à onda puxada por um jet ski. Quem pilota é Ian Cosenza, seu marido e parceiro de água há mais de oito anos. Dentro da água, ele é o piloto que a coloca nas ondas. Fora dela, é o casal que divide a mesma rotina de viagens, treinos e temporadas em Nazaré.

O papel de Ian é anterior à onda: ler o mar, escolher a série certa, posicionar Michelle no ponto exato onde a descida é possível e a onda tem valor. É uma responsabilidade técnica invisível para quem assiste de fora. “Ele está sempre me colocando nas melhores ondas do dia”, ela diz. A escolha da onda é responsabilidade dele. O que acontece depois que ela solta a corda é responsabilidade dela.
“A gente consegue se comunicar através do olhar. Através do barulho do motor que o jet faz, já entendo o movimento que ele vai fazer.”
A confiança entre os dois foi construída ao longo de anos: em treinos de apneia na piscina onde ele só pode subir quando ela sobe, em sessões no Brasil e em Nazaré, em discussões e entendimentos dentro e fora da água. Na bateria de dezembro, quando a série apareceu, Ian perguntou ao spotter (observador posicionado no alto do forte) se havia outra onda atrás. A resposta foi clara: tinha mais, mas aquela era a maior. Ele fez o movimento. Os resgatistas de apoio se distribuíram. Michelle soltou a corda.
Antes de entrar na bateria, Ian virou para ela e disse uma frase. Michelle a repete como se ainda pudesse ouvi-la: “Só confia”.
Ela confiou. E desceu.
O recorde e o que vem depois
Michelle não planejou o recorde. Caiu na primeira bateria, o que naquele dia significava pegar a maior hora do mar, já que o swell entraria em declínio ao longo do dia. A ideia era pegar a bomba, sair com uma onda de peso, e na segunda bateria entrar com performance. O recorde não estava no roteiro.
“A intenção não era essa. Mas quando saí da água, vi os vídeos, e o pessoal começou a vir falar comigo… falei: acho que é o momento.”
Rodrigo Koxa foi o primeiro a chegar e incentivá-la a iniciar o processo de homologação. Lucas Chianca também a incentivou. Bill Sharp, que havia assistido à onda ao vivo, posteriormente comentou com a equipe que havia sido um dos grandes momentos do dia. Foi aí que a ficha começou a cair.
O processo de medição envolveu análise quadro a quadro do vídeo, com a canela de Michelle como referência proporcional, previamente medida com trena. O laudo preliminar de Paulo Vinicius Lopes apontou 24,99 metros, com margem de erro de cerca de 5%. Uma validação adicional está sendo buscada junto à UFRJ.
Sobre o título em si, Michelle é direta. Ele importa. Mas não da forma que se espera.
“O recorde é como a última fase do game. Mas o que vai mudar de fora para dentro vai ser muito maior do que de dentro para fora. Não pretendo mudar quem eu sou.”
O que ela quer, mais do que o título, é que ele não fique parado. “Vamos fazer girar. Botar novos nomes em cena. O recorde ficou estacionado desde 2020. Isso não é evolução”. A maior esperança dela, nas próprias palavras, é fazer o esporte girar, trazer mais mulheres para esse universo, e trazer mais um título para o Brasil.
O Brasil já tem três recordes mundiais no surfe de ondas gigantes: Rodrigo Koxa, com 24,38 metros em 2017, e Maya Gabeira, com 20,72 metros em 2018 e 22,4 metros em 2020. Se Michelle for confirmada, o quarto recorde também será brasileiro. Koxa, aliás, também aguarda a homologação de uma nova onda surfada em dezembro de 2025, estimada em aproximadamente 29 metros.
O que o surf representa
Perto do final da conversa, depois de quase uma hora falando sobre Nazaré, protocolos de resgate, estratégia de bateria e processo de medição, Michelle recebeu a pergunta mais simples de todas: o que o surf representa na sua vida?
Ela respondeu sem hesitar.
“Tudo. O surf sempre me trouxe os melhores momentos da minha vida. Me fez viajar o mundo todo, me colocou cercada de pessoas que admiro.”

E então falou do pai. Das pranchas fabricadas em casa. Das idas constantes à praia desde criança. “Se meu pai vai deixar uma herança pros filhos, a melhor herança ele já deixou: proporcionar essa vida como surfista, como praieira, pra família toda”.
Michelle des Bouillons tem 35 anos, nove temporadas em Nazaré, e uma onda de quase 25 metros esperando para ser oficialmente reconhecida como a maior já surfada por uma mulher na história do esporte.
Mais da entrevista
O que você diz para quem quer entrar no big surf?
Esteja rodeada de boas pessoas, de pessoas que você confia, porque você de fato tem que dar sua vida pelo outro. Começa na base. Saber remar, saber dropar, saber furar onda. Viver cada etapa do processo. Se tiver que ser o último a tirar a roupa de borracha no final da operação, faça sorrindo. Isso só vai te fortalecer. Viver o processo é fundamental.
Nazaré ainda te assusta?
O cenário em Nazaré é muito assustador. É impossível chegar lá sem um mínimo de receio. E o próprio receio, o medo, é uma forma de respeito que você está demonstrando para o cenário, para a natureza. Eu digo que meu preparo é 50% físico e os outros 50% é da minha equipe que está comigo. Porque eu sei que qualquer coisa que acontecer ali, eles vão estar lá para me salvar. Forte e com uma equipe de confiança.
Qual é a importância do recorde para você?
O recorde é como se fosse a última fase do game. Ele é a recompensa de muito esforço, muita dedicação, muito trabalho em equipe. Ele não vai vir para qualquer pessoa que simplesmente chega em Nazaré e quer bater o recorde mundial. Acho que a própria Nazaré escolhe para quem vai entregar esse prêmio. O que vai mudar de fora para dentro vai ser muito maior do que de dentro para fora, porque eu não pretendo mudar quem eu sou.