De Penho ao Brazilian Storm

Bruno Alves escreve uma cronologia dos atletas que contribuíram para que o Brasil se tornasse uma das maiores potências do surfe mundial.

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Carlos Eduardo Soares, o “Penho”, carioca, apaixonado pelo surfe, saiu do Brasil em 1966 numa odisseia que demorou um ano e meio, para chegar no inverno de 1968 ao Havaí.

Hoje o Brasil é uma das maiores potências do surf mundial, temos dois campeões mundiais do circuito profissional da WSL, no CT, o Gabriel Medina (SP) e o Adriano de Souza (SP), e na época da publicação dessa matéria poderemos ter mais um título mundial com o Gabriel Medina, ou prestes a ter. Estamos dominando o QS, e temos uma geração de surfistas  quebrando tudo no CT.

Essa geração chamada “The Brazilian Storm” é uma assombração para os surfistas australianos, americanos e sul-africanos, que sempre dominaram o surfe.

Diante de todo esse cenário inimaginável no passado, fiquei inspirado a escrever uma cronologia dos competidores brasileiros que de alguma forma contribuíram para que o Brasil se tornasse uma das maiores potências do surfe mundial, numa época em que competir era bem mais difícil para os nossos heróicos “brazucas”.

Nessa trajetória, tive a honra de participar como espectador, e depois como repórter da Fluir e também como editor de revista, de alguns momentos importante dessa incrível história. Pretendo falar mais a respeito dos surfistas, mas frisando que essa história de sucesso foi construída também pelos empresários, shapers, associações, organizadores de eventos, pela mídia, principalmente as revistas, pelas prefeituras municipais, por pais e mães dos nossos competidores, enfim, uma grande soma vinda de todas as áreas atuantes e dedicadas ao surfe brasileiro. Esses surfistas que na raça saíam para competir no exterior são verdadeiros heróis e que fazem parte da história do surfe brasileiro.

A nossa história em competições internacionais se inicia há quase meio século, ou 49 anos atrás, mais precisamente em 1968, no Havaí, onde tivemos  a primeira notícia de um brasileiro representando o Brasil em um campeonato internacional de surfe.

Cartaz do International Surfing Championships disputado em 68, em Makaha: foi a primeira participação de um brasileiro em eventos internacionais de surf.

Carlos Eduardo Soares, apelido Penho, carioca, apaixonado pelo surfe, saiu do Brasil em 1966 numa odisseia que demorou um ano e meio, para chegar no inverno de 1968 ao Havaí. Ele andou a pé, pegou carona, trem, ônibus, barco e iniciou sua jornada pelo Peru, passando pela América Central em guerra, até chegar à Califórnia, naquela época fervilhante com protestos nas ruas contra a guerra do Vietnã, os Black Phanters lutando por uma liberdade maior para a raça negra, e todo aquele movimento cultural da época.

Penho chegou às ilhas havaianas no inverno de 1968, onde pôde participar do International Surfing Championships em Makaha, sendo o primeiro brasileiro na história a competir num evento internacional, e fora do nosso país, o que rendeu até uma matéria em um jornal local de Honolulu.

Quanta coisa rolou de lá para cá, de Penho aos Brazilian Storm, e é importante que as novas gerações conheçam um pouco dessa trajetória.

Sete anos depois da participação do Penho no Havaí, o mundo era outro. A guerra do Vietnã já havia acabado, o mundo vivia o auge da cultura hippie, a Guerra Fria, e o surfe era considerado uma contracultura. Outro carioca participa de um campeonato em Makaha coincidentemente. Lourenço Ipanema, o Lari, que conheci no Havaí no inverno 75/76, conquistou nesse evento, o Lightning Bolt Makaha, um honroso sexto lugar, mas foi pouco divulgado esse feito.

Lembro do Lari ter passado no nosso hotel com um galera, inclusive estava o internacional AD do Guarujá, e projetaram um filme em super 8, com cenas daquele inverno de 75/76 do North Shore e trazendo s notícia desse feito. Os fatos eram divulgados no boca a boca, e não me lembro desse acontecimento ser noticiado em algum meio de comunicação, e nem na Brasil Surf, a primeira revista de surfe brasileira.

O Havaí era intenso nessa época, e os australianos empolgavam o mundo do surfe e incomodam os havaianos com os Bronzed Aussies (Australianos Bronzeados), uma equipe de surfe inspirada numa equipe australiana de três tenistas, composta por Ian Cairns, Mark Warren e Peter Townend, sendo que este último, em 1976, se tornou o primeiro campeão mundial da história pela circuito da IPS (International Professional Surf), organização fundada por Fred Hemmings e Randy Rarick. Adicionado aos Bronzed Aussies originais, Wayne “Rabbit” Bartholomew vem botar fogo no circo.

No mesmo inverno, um sul-africano chamado Shaun Tomson impressiona o mundo com surfe inovador, e mostra uma nova maneira de surfar Pipeline de backside e percorrer tubos em Off The Wall com movimentos na prancha dentro do salão. Havaianos incríveis como Gerry Lopez, Rory Russell, Jeff Hakman, Buttons, Dane Kealoha, Owl Chapman, Larry Bertleman, entre outros, era a balança para o lado havaiano, enquanto americanos como Jeff Crawford, da Flórida, e Mike Purpus e Jackie Dunn, da Califórnia, vinham do continente deixar mais eletrizante o inverno de 1976, quando pude estar lá com muito orgulho.

Na temporada havaiana de 76 / 77, o carioca Pepê Lopes chocou o mundo do surfe ao chegar à final do Pipe Masters em meio a outros surfistas incríveis.

Um ano depois, no inverno 76/77, também no Havaí, o carioca Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, mais conhecido como Pepê, surfista de extremo talento, apareceria para o mundo quando conseguiu um feito inacreditável, chegar à final do Pipe Masters em Pipeline, Havaí, no meio de surfistas incríveis. Ele, que havia conquistado um importante terceiro lugar no primeiro internacional do Rio em 1975 e vencido em 1976 o primeiro Waimea 5000 no Rio de Janeiro, sendo o primeiro brasileiro a ganhar um evento internacional na própria casa, e em razão dessas conquistas convidado a competir no Smirnoff 1977 em Sunset Beach, Havaí, onde não se deu muito bem e foi eliminado na primeira fase.

Pepê ficou em sexto lugar em uma final que reuniu nomes como Mark Richards, Rory Russell e Gerry Lopez.

Depois da derrota, ele ficou surpreso ao ser convidado a competir no Pipe Masters em Pipeline, e com apenas 17 anos de idade. Na sua primeira chave eliminatória, teve de enfrentar Rory Russell, Peter Townend, o atual campeão mundial, Jeff Crawford, local da Flórida e especialista em Pipeline, outro australiano integrante dos Bonzed Aussies, Mark Warren, e o cara que se sagraria campeão mundial naquele ano, o sul-africano Shaun Tomson. Pepê foi segundo, com Rory Russell em primeiro. Na final, ele ficou com um honroso sexto lugar numa bateria em que todos eram especialistas em Pipeline, isso com apenas 17 anos.

Essas participações e conquistas iam lentamente abrindo as portas para o Brasil.

Ainda em 1977, o também carioca Daniel Friedmann venceu o Waimea 5000 na cidade do Rio de Janeiro, evento patrocinado por uma loja carioca que levava o mesmo nome do evento. Estive lá como espectador e pude ver os melhores surfistas do mundo no Arpoador e depois no Quebra-Mar, numa época em que o nosso Brasil era muito tranquilo e seguro, apesar de vivermos na ditadura militar.

Digo isto porque fomos num Chevette em quatro pessoas e dormimos na estrada, via Dutra, e já no Rio ficamos tranquilos e em nenhum momento eram noticiados assaltos e coisas absurdas que ouvimos hoje em dia. Numa ocasião, chegamos a armar a barraca para dormir no Pepino, em frente à favela da Rocinha, e foi bem tranquilo.

Daniel venceu com maestria o evento internacional, batendo grandes surfistas e ídolos internacionais como Allen Sarlo, Terry Richardson, Cheyne Horan, David Balzerack, Joe Buran, Cheyne Horan, entre outros. Na época, Daniel já era patrocinado pela US Top, uma marca top de jeans.

Ainda nos anos 70, mais brasileiros saíam para competir no exterior representando o País, seja no Havaí ou Austrália, mas sempre eram ações isoladas e sem muita repercussão na imprensa, e como disse, na raça, mas nem por isso eram menos valiosas. Eram atletas talentosos e com muita disposição e determinação. Surfistas como Daniel Friedmann (RJ), Cauli Rodrigues (RJ), Rico de Souza (RJ), Ricardo Bocão (RJ), Paulo Tendas (SP), Otávio Pacheco (RJ), Paulo Proença (RJ), Ianzinho (RJ), Valdir Vargas (RJ), entre outros, freqüentemente competiam representando o nosso país.

Daniel Friedmann foi o campeão do Waimea 5000 no Arpoador (RJ), em 1977.

Quando estive na Austrália, no verão de1979/80, alguns australianos de Manly Beach vieram comentar comigo sobre o Daniel Friedmann, que o viram competindo na Gold Coast e impressionou muito a todos, pelo estilo e competitividade. Isso, para mim, um surfista brasileiro, era motivo de orgulho.

Uma ressalva a Rico de Souza, que além de ser muito respeitado no Havaí, era um cara que soube explorar bem o marketing próprio, e foi o único surfista brasileiro – me corrijam se eu estiver errado – a ter o patrocínio da Rede Globo, isso nos anos 70.

Ainda nos anos 70, o paulista Luis Feio Sala venceu um evento internacional na categoria Junior em La Pambilla, no Peru, sendo o primeiro brasileiro de que se tem notícias a ganhar um evento internacional fora do Brasil, embora Junior.

Em 1979, nos veio a informação, tudo no boca a boca, que criou um grande frisson na comunidade do surf brasileiro, de que o talentoso carioca Valdir Vargas conseguiu chegar em nono lugar num evento nível A da IPS em Bells Beach, Austrália, e ainda surfando de backside. Depois do Pepê em Pipeline, talvez o segundo grande resultado de brasileiros no exterior em eventos da elite do surfe.

Final do campeonato internacional de La Pampilla, vencido por Luis Feio Sala; da esquerda para a direita: Brad Waller, Jim Palmer, Chris de Grazia, Max de la Rosa, Peninha do Brasil, Gabriel Gomes Sanches, Carlos Barreda e Feio, do Brasil.

Os anos 80 pareciam promissores. Os brasileiros estavam viajando para competir cada vez em número maior, com melhores patrocinadores, principalmente na Austrália, Havaí e África do Sul. Apesar de os patrocinadores geralmente pagarem ao surfista para competir numa etapa ou outra do circuito, o brasileiro dificilmente competia em todas as etapas, e a grande maioria dos surfistas brasileiros colocava dinheiro do próprio bolso para competir lá fora.

Em 1983, Otaviano Bueno, o Taiu, morando no Havaí, trabalhando como Padcab, conseguiu na raça se inscrever e conseguir um brilhante sétimo lugar no Sunset Pro Classic Trials, além de competir no World Cup e alguns campeonatos de verão em AlaMoana.

Nessa época, o nome brasileiro mais assíduo e respeitado nas competições internacionais era o carioca Roberto Valério, um surfista talentoso e um empresário visionário que investiu muito no esporte. Seus melhores resultados foram no início até o meio dos anos 80, dentre vários, foram o 5o lugar no World Cup em Haleiwa, 7o lugar no World Cup em Sunset, 9o lugar no Pro Class Trials, e 11o lugar no Billabong Pro e o quinto lugar em 1982 no Renault Pro em Durban na África do Sul, um feito inédito até então, ficar em quinto lugar em um evento da ASP (antiga IPS) no exterior, batendo no homem a homem, nada mais nada menos do que o hot local Martin Potter.

O talentoso e visionário Roberto Valério em ação nas ondas de Cronulla, Austrália, no ano de 1986.

Em março de 1984, ocorreu um fato inédito no surfe nacional. Foi a primeira vez que o Brasil enviou uma equipe de surfe organizada, com uniforme, coach, patrocinador e um fotógrafo para um evento internacional de equipes, no Peru, em Punta Hermosa, onde tive a felicidade de ser o repórter. A equipe era composta pelos paulistas Tinguinha Lima e Paulo Rabelo e os carioca Fred Dorey e Rosaldo Cavalcanti na categoria principal; e os paulistas Paulo Kid e Kemel Adas Neto, o Nê, na categoria Júnior. O técnico era o paulista Piva de Albuquerque. A nossa equipe fez bonito, ficando em terceiro lugar na colocação geral, atrás da Austrália e Estados Unidos, num embate com surfistas de peso como os australianos Simon Law e Mark Sainsbury (in memorian), que viria se tornar campeão mundial amador, o americano da Flórida Richard Rudolph e o peruano Magoo de la Rosa. Nesse evento, Fred Dorey (RJ) deu um show em Señoritas, ficando em terceiro nessa etapa, enquanto o Paulo Rabelo (SP) deu um show em Punta Rocas e Caballeros.

Em julho de 1984, o surfe brasileiro atingiu um novo patamar, abrindo mais ainda as portas que nos levava lentamente à consolidação do surfe profissional, e esse fato foi o envio para competir na perna da África do Sul da nossa maior estrela, o paulista Alexandre Salazar, o Picuruta, e eu como fotógrafo e redator, numa ação conjunta com a Revista Fluir, lojas Star Point, as lojas Ronjon e apoio da South Africa Airlines. Enquanto o Picuruta seguia para a África comigo, o surfe brasileiro lá fora vivia a sua maior crise. Alguns surfistas brasileiros passaram a ser mal vistos pela comunidade internacional, porque naquela época iam aos eventos vender drogas, e alguns até competiam nas triagens, e isso manchou forte a reputação dos nossos atletas, e quem queria trabalhar e competir com profissionalismo era visto com uma certa desconfiança. Eu mesmo tentei comprar uma foto na Austrália, do Davizinho Husadel, com o renomado fotógrafo australiano Peter Crowford, e ele me disse de forma sumária: “Pague antes que te dê a foto, não confio em brasileiros, são tudo uns cheiradores”. Lastimável!

Picuruta Salazar teve performances sensacionais na África do Sul.

As atuações do Picuruta em 84 e 85, na África, e óbvio, de Valério, mostraram ao mundo internacional do surfe que no Brasil existe gente séria, que existia uma revista de surfe, e principalmente, que existiam surfistas no nível dos melhores do mundo. Em dois anos seguidos em que estivemos na África, o Picuruta tirou um quinto lugar no Gunston 500, perdendo por 3×2 para o campeão do evento e campeão mundial Tom Carroll, tirou outro quinto no Renault Pro, um nono no Spur Steak em Cape Town e um outro 17º lugar no Gunston 500, e o brilhante oitavo lugar no Instinct Super Series 85, que é como um Grand Slam da perna sul-africana com seu três eventos, despachando feras brabas como Willy Morris, Jim Hogan, Mike Burness, entre outros.

Em dois anos, o Alex, como era chamado pelos gringos, virou um cara respeitado por todos que o cumprimentavam na praia e o chamavam pelo nome, inclusive o próprio Carroll veio falar comigo para que o levasse para morar na Austrália devido ao seu enorme talento. Picuruta também deixou sua marca em Jeffreys Bay ao transpor todas as seções da onda, enterrando sua prancha na areia, e isso foi histórico, repetindo o que o Simon Anderson fez alguns dias antes durante o campeonato Country Feeling. O incrível é que no primeiro ano ele levou apenas uma prancha de surfe feita pelo seu irmão Almir Salazar. Se Picuruta tivesse na época um patrocínio que o bancasse em todo circuito mundial, um quiver de pranchas para diversos tipos de onda, facilmente naquela época ele seria um Top 16 e um sério candidato ao título mundial, pois seu talento era invejável.

Além de Picuruta e Roberto Valério, outros brasileiros representaram o Brasil no exterior nesse período, dentre eles Fernando Bittencourt (RJ), Dadá Figueiredo (RJ), Marcelo Boscoli (RJ), Antar Teixeira (Es), Fred Dorey (RJ), Felipe Dantas (RN), Mauro Pacheco (RJ), Gui Mattos (SP), Rogerio Izetti (RJ), Italo Marcelo (RJ), Lipe Dylong (RJ), Fernando Cunha (RJ), Gui Mattos (SP), Xan Brandi (SP), Luis Feio Sala (SP), Ferrugem Baltazar (RJ), Rodolfo Lima (RJ), Lula Menezes (RJ), João Maurício Jabour (RJ), Luís Lovasz (RJ) entre muitos outros. Este último foi o único participante brasileiro na primeiro etapa do circuito da ASP Inland, longe de mar, numa piscina de ondas, em 1985 na Pensilvânia (EUA), onde estive como repórter.

Luís Lovasz foi o único participante brasileiro na primeiro etapa do circuito da ASP numa piscina de ondas, em 1985, na Pensilvânia (EUA).

Apesar das conquistas, o universo do surfe no exterior ainda parecia tão distante da nossa realidade. O nível dos competidores internacionais era altíssimo, tirando algumas exceções,  chegava a destoar do nível do surfe dos brasileiros. A Fluir sempre focou o surfe de forma global, e chegou a publicar, em 1984, uma entrevista que fiz com o Tom Carroll e outra com o Martin Potter, além de uma matéria com os Top 16 internacionais, e por causa desta reportagem fomos muito atacados em editorial por uma outra revista de surfe, que escreveu que nós babávamos ovo de gringos. A Fluir não podia se envolver nisso, pois tinha uma missão maior, que era divulgar o que acontecia no mundo do surfe no exterior, e isso foi de uma colaboração inestimável para o surfe brasileiro. A prova veio alguns anos mais tarde, quando ganhamos em Turtle´s Bay, no Havaí, o prêmio inédito no Brasil, o The Best Print Mídia, oferecido pela ASP.

Na sequência, em março de 1986, acompanhei o campeão brasileiro, o catarinense David Husadel, na perna australiana, o Australian Grand Slam. Husadel venceu o OP Pro Joaquina em janeiro de 1986 e ganhou como prêmio uma passagem para competir na Austrália. Ele teve uma participação razoável na sequência de eventos, que se iniciou em Burleigh Heads, no estado de Queensland, depois foi para Cronulla, Sidney, no estado de NSW, e por fim em Bells Beach, Torquay, no estado de Victoria.

Eu, David e Avelino Bastos e um amigo, o André, fizemos todo o percurso de carro acompanhando as etapas. Se o Davizinho não arrasou nas competições, e tinha surfe para isso, no free surf ele arrepiou, e foi contemplado com a capa do jornal Tracks num big Shark Island na melhor onda do dia em que disputou na remada no pico com Gary “Kong” Elkerton. André também teve uma foto publicada na página central da revista Surfer, e na edição especial de pôster da Surfer, por conta de uma onda que pegou de backside em Shark Island.

Nessa viagem, encontramos alguns brasileiros nas competições, dentre eles Roberto Valério (RJ), Lula Menezes (RJ) e João Mauricio Jabour (RJ).

David Husadel ataca o lip na Austrália, em 1986.

Competidores isolados de todo o País estavam competindo por todo o mundo durante esta fase e nem tenho como enumerar e classificar todos eles, mas nada de destaque, e na verdade estávamos esperando uma grande notícia, que não vinha. Depois do Picuruta, surgiu uma lacuna.

A boa notícia veio em 1987, um grande acontecimento eletrizou o surfe do Brasil, que era o campeonato Hang Loose Pro, que recebeu em peso toda a elite do surfe mundial num campeonato histórico, com ondas perfeitas, grandes com sol e terral. Esse evento, que aconteceu na praia da Joaquina (SC), graças à visão do empresário Alfio Lagnado, era o que estávamos precisando, e desde o último Waimea 5000 de 1978, vencido pelo australiano Terry Richardson, o Brasil não recebia um evento internacional. Para o surfe brasileiro, aquilo era um sonho. Surfistas como Tom Carroll, Mark Richards, Shaun Tomson, Mark Ochilupo, nas águas da Joaquina, mostrando um surfe que só podia ser acompanhado em filmes e revistas, era surreal e isso com certeza nos ajudou muito para a continuidade da evolução do surfe do Brasil.

Em 1988, mais um marco importantíssimo do surfe brasileiro, a vitória inédita do paraibano Fábio Gouveia no Mundial Amador em Porto Rico, na praia de Wilderness, e o terceiro lugar do carioca Rodrigo Resende, que no futuro se tornaria campeão mundial de ondas gigantes em Todos os Santos, no México. Na categoria Junior, outro carioca, Fernando Graça, conseguiu um incrível segundo lugar. Além dos brilhantes resultados individuais, o Brasil ficou em terceiro lugar na classificação geral por equipes, que foi coordenada pelo técnico Marcos Conde.

Além dos brilhantes resultados individuais, o Brasil ficou em terceiro lugar na classificação geral por equipes no Mundial Amador em Porto Rico, em 1988.

Definitivamente o Brasil se consolida, vira uma nação mais respeitada e a imagem mal desenhada no passado começa a mudar. A Fluir, com o seu fotógrafo e repórter Beto Issa, esteve lá fazendo toda a cobertura do evento histórico. O mundo do surfe passava a ter um campeão mundial amador brasileiro, e pela primeira vez não era um americano, havaiano ou australiano. Quando Beto chegou na redação com as imagens e descrevendo os fatos, foi extremamente emocionante para todos nós e a Fluir, com exclusividade, publicou a matéria, o que causou um impacto muito grande na comunidade do surfe. Na época não existia internet e a televisão brasileira pouco divulgava o esporte, então as revistas de surfe tinham um papel fundamental para a disseminação das notícias.

Foi em 1989, com outra atitude despojada de Alfio Lagnado, dono da Hang Loose, que o Brasil decola de vez e sobe mais um grande degrau, e escancara a porta que começou a ser aberta por Penho, em 1968, ao patrocinar o paraibano Fábio Gouveia e o catarinense Teco Padaratz no circuito mundial. Com essa visão, tivemos, pela primeira vez na história, surfistas brasileiros entre os top 16 do circuito mundial de surfe profissional da ASP(Association of Surfing Professional) e surfistas brasileiros subindo no lugar mais alto do pódio, desbancando feras como Tom Curren, Kelly Slater, dentre outros.

Teco Padaratz durante o Pipe Masters, no Havaí, em 1991.

O catarinense Teco Padaratz chegou a ser, em 1994, o oitavo melhor surfista do mundo no ranking do WCT, e nesses anos que correu o Tour, chegou a vencer uma etapa na França, o Rip Curl Pro Landes 1994, e uma no Brasil, na Barra da Tijuca, o Alternativa Pro 1991. Ele também obteve três vice-campeonatos, o Gunston 500, em 1989, na África do Sul (perdeu para Brad Gerlach); o Alternativa Pro, em 1990, na Barra da Tijuca (perdeu para Brad Gerlach); e o Rip Curl Bells  Beach 2000, na Austrália (perdeu para Sunny Garcia).

Teco foi o primeiro brasileiro a derrotar Kelly Slater em uma final de WCT – durante 16 anos, o único a fazê-lo, até Jadson André igualar o fato em Imbituba, no Brasil. Por outro lado, o paraibano Fábio Gouveia, no World Qualifying Series, o WQS, foi vice-campeão em 1993 e campeão em 1997. Ele conquistou sete vitórias entre 1993 e 2002 (três delas no exterior) e foi o primeiro brasileiro top 16 em 1991, feito que repetiu três vezes após a criação do WCT. Ele ficou em quinto lugar no ranking  no ano de 1992, o que o torna um pioneiro, pois, além do primeiro campeão amador brasileiro, foi primeiro a ser top 16 e o primeiro a ser quinto do mundo. Fabinho venceu quatro etapas do Tour nos anos que competiu, subindo no lugar mais alto do pódio no Brasil 1990, no Hang Loose Pro, na praia do Maluf, Guarujá; no Havaí, em 1991, no World Cup Sunset; numa piscina de ondas no Japão, o Marui Pro 1990, e também o Arena Surf Masters 1991, na França, em Biarritz, dando voltas em Pottz.

Fabio Gouveia venceu o Maui Pro em 1990, numa piscina de ondas do Japão.

Não só os garotos da Hang Loose estavam fazendo bonito no Tour, como também toda uma nova geração que mostrava na água, e fora da água, que o surfista brasileiro tinha talento, postura e profissionalismo, e que o surfe brasileiro estava se organizando cada vez mais.

Outros surfistas competiam também no circuito mundial com ótimos resultados e boas performances, com destaque para Guilherme Herdy (RJ), Tadeu Pereira (SP), Renan Rocha (SP), Piu Pereira (SP), Joca Jr (RN), Fernando Graça (RJ), Ricardo Tatuí (RJ), que venceu uma etapa na França, Jojó de Olivença (BA), que chegou a ser vice-campeão do mais badalado campeonato, o OP Pro de Huntington Beach, perdendo para o havaiano Sunny Garcia na final, Peterson Rosa (PR), que venceu etapas, Piu Pereira (SP), Tinguinha (SP), Victor Ribas (RJ), que também venceu etapas, e chegou a ficar em terceiro no ranking mundial, melhor classificação do Brasil no WCT masculino até Gabriel Medina tornar-se campeão.

#tbt ??#pipemaster?? #10pointride ? #pipeline ? #greatmemories❤️ @serieaofundo

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A partir daí, a última vitória brasileira em etapas no Tour, antes do fenômeno Brazilian Storm, foi de Neco Padaratz (SC) na França, em 2002, inclusive ele bateu Andy Irons no auge e isso foi muito significativo. Depois dessa vitória, o Brasil só foi subir ao topo do pódio em 2008, com Bruno Santos, no Tahiti, como convidado do evento.

Depois desse feito, o Brasil fica num vácuo que só foi quebrado com a primeira semente do Brazilian Storm, com Adriano de Souza (SP), nosso “Capitão Nascimento”, que vence uma etapa na Espanha em 2009, e logo a seguir, com Jadson André (RN), que venceu uma etapa no Brasil, em Imbituba (2010), e Raoni Monteiro (RJ), em Sunset, Havaí, em 2010.

Como não podia ficar de fora, as mulheres tiveram sua contribuição com essa história, lembrando que, em 1991, tivemos o ingresso da primeira brasileira no circuito mundial, Andrea Lopes, que conquistou, em 1999, o título pan-americano. Em 1993, a cearense Tita Tavares torna-se campeã do mundial amadora na Venezuela, e em 1995, vice-campeã no mundial amador. Depois desses resultados, passou para o surfe profissional. Foi a primeira mulher a tirar nota 10 no mundial feminino do WQS, em 1996. Em 2001, Jacqueline Silva, de Santa Catarina, vence o WQS Em 2002, Jacque torna-se vice-campeã mundial, um feito histórico entre homens e mulheres. Ninguém havia antes, no surfe brasileiro, chegado tão perto de um título mundial da categoria de elite.

Victor Ribas foi terceiro colocado no ranking em 1999, melhor colocação de um brasileiro na elite mundial masculina até Gabriel Medina conquistar o título

No ano de 2003, outra brasileira, a cearense Silvana Lima, ingressa no circuito, e em 2008 e 2009 se torna vice-campeã mundial atrás da australiana Stephanie Gilmore. Ela saiu da elite e voltou com tudo no CT depois de vencer em 2016 a etapa do QS 6000 Feminino, e o circuito de acesso à categoria principal. Em 2017, venceu de forma inédita a etapa de Bells Beach, Austrália.

Voltando ao masculino, depois da vitória de Mineirinho (SP), Jadson André (RN) e Raoni Monteiro (RJ) chancelando o Brazilian Storm, a história já é bem conhecida e noticiada por toda mídia e internet e mídias sociais, com surfistas como Gabriel Medina (SP), Filipe Toledo (SP), Mineirinho (SP), Caio Ibelli (SP), Jadson Andre (RN), Italo Ferreira (RN), Ian Gouveia (PE / SC), Wiggolly Dantas(SP), Miguel Pupo (SP), que compõe a elite do Brazilian Storm, e hoje sem dúvida, fazem do Brasil uma das três maiores potências do surfe mundial, por isso devemos prestar uma homenagem a guerreiros como Penho e todos citados neste artigo, que numa época do surfe profissional brasileiro, pobre e primitivo, depois nem tanto, com seus esforços, raça, auto patrocínio, humilhação e dedicação, cada um com sua contribuição específica e pessoal, ajudou a construir a história do surfe profissional brasileiro que hoje chegou a um patamar inimaginável naquela época.