Zé Lúcio solta o verbo

A trajetória do bodyboarder e jornalista Zé Lúcio Cardim, 38 anos, se confunde com a história do esporte no país. Ele arriscou suas primeiras braçadas aos 19 anos e, desde então, já se passaram 19 anos de dedicação e paixão pelo esporte. Atualmente Zé Lúcio é considerado um dos bodyboarders mais influentes do Brasil, pois atuou no meio jornalístico em diversos veículos dos segmentos surf e bodyboard.

Durante alguns anos, Cardim foi editor da Fluir e também integrou a equipe da Fluir Bodyboard, uma das mais fortes revistas de bodyboard do Brasil. Ele também deu sua contribuição à mídia digital, onde foi editor do site G-Zero, direcionado aos praticantes de boardsports.

Atualmente, Cardim cuida da seção DropTudo do jornal Drop e é o novo colunista do site Waves Bodyboard. Nessa entrevista, ele passa um pouco da sua experiência adquirida em 19 anos de envolvimento com o esporte, além de contar um pouco da história do bodyboard no Brasil.
Qual é sua condição de mar predileta?

#Atualmente, gosto de mares com ondas entre 3 a 8 pés, glassy, tubular e, principalmente, sem crowd.

O que você acha do bodyboard em ondas como Jaws e Maverick’s?

É possível, mas acho necessário pensar numa prancha especial para essas condições, pois só assim os bodyboarders poderão desfrutar dessa ondas plenamente. Jaws e Maverick’s, por exemplo, são ondas com muito volume d’água e a tendência é que as pranchas saiam quicando. Talvez o ideal seria pranchas mais pesadas, mais estreitas, sei lá. Até um determinado tamanho é possível – basta ver há quantos anos bodyboarders dropam Waimea. Mas, chega um momento em que controlar um bodyboard fica quase impossível. Imagino que, assim como no surf em pé, as pranchas de bodyboarding para Tow-In necessitem de algumas adaptações. Só não me pergunte quais. Por outro lado, a evolução do bodyboarding na exploração de novos limites não tem de estar, necessariamente, ligada a Jaws e Mavericks. Surfistas idolatram essas ondas porque são surfáveis para eles. Mas, será que não existem bancadas ainda mais cascas que Shark Island, Teahupoo ou aberrações tipo The Wedge perdidas por aí? Na minha opinião, tão ou mais importante do que tamanho de onda, é a largura do tubo…

Como e quando você começou a praticar o bodyboard?

Comecei em 83, por insistência de amigos. Já era considerado meio velho, pois tinha 19 anos. Nunca mais parei. Por isso, acho que acompanho o esporte no Brasil praticamente desde o início.

Fale um pouco sobre as mudanças e fases do esporte?

No começo, houve um “boom”, principalmente, devido o investimento das empresas de surfwear, que estavam de olho no mercado feminino (exatamente como o que está acontecendo hoje com o surf feminino). Depois, houve um ponto de equilíbrio, no final dos anos 80, quando ficou claro para o mercado e imprensa nacional que o bodyboard não era exclusividade feminina. Neste período, atletas tinham patrocínios razoáveis, havia pelo menos uma revista forte (Fluir Bodyboard) e campeonatos bem organizados. O resultado desse bom momento foi a consagração do Brasil como primeira potência no bodyboard mundial.

E o que você diria sobre a dificuldade do bodyboarding em manter este ponto de equilíbrio ?

Para mim, a queda do esporte aconteceu, principalmente, pelo preconceito dos donos de empresas de surfwear. Falo isso porque sou amigo de alguns deles. O preconceito é algo inexplicável. Eles são meus amigos, gostam de mim, mas sou bodyboarder e eles não gostam de bodyboarders. Vai entender. Nesses anos, já discuti com boa parte deles dentro d’água. Eles odeiam o bodyboard, não investem no esporte, mas você não vê nenhum deles lançar uma campanha como: “bodyboarders, não comprem roupas da minha marca!”. Quer dizer, da nossa grana eles gostam…
Voltando ao assunto. A surfwear não investe e o mercado exclusivo para bodyboard é muito pequeno (até porque criar e administrar uma empresa hoje é muito mais difícil que no início dos anos 80, quando nasceram quase todas as grandes surfwears brasileiras). Logo, os editores das revistas de bodyboard, verdadeiros “heróis da resistência”, não têm como manter seus produtos e, depois de um tempo, acabam tendo de ir cuidar da vida… A situação atual do bodyboarding brasileiro, sem dúvida, é difícil. Mas aconteça o que acontecer, o esporte nunca vai acabar.

Quais as ondas que mais lhe assustam e fissuram no planeta?

Hoje, a mais assustadora é Teahupoo, até pelo bombardeio de imagens feito pela mídia. Mas, acho que Shark Island, Backdoor, Pipeline e algumas bancadas da Indonésia não ficam atrás. Puerto Escondido, apesar do fundo de areia, também é uma senhora onda. Tem muita onda desconhecida por aí em picos no Chile, Tahiti, Austrália, Fiji, Filipinas. A real é que praticamente qualquer onda, quando quebra com condições ideais, é fissurante.

Como foi a onda da sua vida? E o maior desafio que você já passou (apuro ou adrenalina)?

Existem várias ondas inesquecíveis na minha vida. Mas, acho que a mais marcante foi o primeiro tubão que peguei de verdade, de entrar, andar muito lá dentro e sair pela boca. Acho que foi em 85, na Boca do Poço, em Paracuru, uma onda que não é nem tubular, mas que nesse dia estava mágica. Passei duas ou três seções por dentro! Claro que já peguei muitos tubos melhores que esse, mas a sensação de ver o mundo de dentro de um tubo pela primeira vez não dá para esquecer. Mundaka também é uma coisa difícil de explicar, o visual medieval, com aquele tubo inacreditavelmente perfeito… O maior apuro foi em Puerto Escondido. Dropei uma onda de uns sete pés, vacilei na cavada, tomei a lipada na perna e meu joelho rodou 180 graus, segundo o médico. Rompi menisco e ligamento cruzado anterior. O pior foi sair do mar remando, com uma dor terrível e rezando para a série não entrar. O outro grande apuro foi em Portugal, em Ericeira. Estava surfando na Pedra Branca, no final de tarde, e remei para outra bancada, o reef. Era a primeira vez que surfava lá, estava sozinho no mar e a maré enchendo. Peguei uma onda, fui parar em cima das pedras e não conseguia sair da bancada, isso já anoitecendo. Fiquei uns quinze minutos me arrastando nas pedras até um local, de cima do cliff, me explicar como sair do mar. A sorte foi o long john, que me protegeu das pedras.

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