Borges, Piazzola, Joseph Conrad, Jack London e o vento no rosto. Parte II (final).
O escritor e filósofo argentino Jorge Luís Borges disse que Leopoldo Lugones – misterioso personagem -, ao suicidar-se, talvez tenha sentido “pela primeira vez na vida, que estava livre, afinal, do misterioso dever de procurar metáforas, adjetivos e verbos para todas as coisas do mundo”, e, com isso, nos libertou em vida, para, mesmo quando esse dever nos arde por dentro, consigamos, ainda assim, ser felizes.
Mesmo quando não encontramos a metáfora escondida nos veios das árvores, no tubo remoto ou nas nossas próprias veias, e consigamos, ainda assim, não levar a felicidade tão a sério, como objetivo, como dever ou como praga.
Se, para Borges, “todas as coisas do mundo conduzem a um encontro ou a um livro”, o mundo se resume a um encontro com um livro, a um impacto estético que já vínhamos gestando dentro da nossa experiência não-consciente, agora materializada. O mundo é um encontro poético com o mistério, um rendez-vouz com o limbo.
No nosso caso, um encontro com a onda – um sopro de vida de água, que dá e tira a vida. E com a impermeabilidade da poesia que ama o mistério. E com a permeabilidade de nossa experiência nesse planeta, que absorve os minerais, os impactos emocionais, as energias, os olhares, e os mistérios, as estrelas, e resulta em um ser humano universal.
E o que é a humanidade sem Borges? Fica incompleta. Como incompleta é a humanidade sem o vento no rosto ao se dropar uma onda de responsa. Como é incompleta sem você, leitor. Sorry, jogadores de vôlei, cricket ou bocha. Puxo demais a sardinha para a fogueira de água salgada. Péssimo hábito. Ou melhor, não me desculpem. Devo fazer outra vez, com certeza, sentado na geral do estádio do mundo, torcendo pela humanidade.
Sou sectário e obtuso, como um torcedor de futebol fanático, que se sabe desbalanceado, mas que se apega àquela paixão inexplicável como se fosse o néctar não só da vida, mas da sobrevivência psicológica – é necessário ter-se um objeto de devoção (?). Abraçar a escuridão nos leva à luz?
Uma das técnicas do outside consiste em mentalizar e receber. Ao invés de sempre buscar, deixar vir a mim. É o famoso Método Queiróz “traz prá nóis”. Muitas vezes consegui atrair uma série. Ela me reconhece e vem em minha direção. Não preciso remar, não preciso (precioso) me preocupar, não preciso sofrer, só sentir a agradável dor agridoce do mistério.
O escritor Joseph Conrad, uma combinação exótica de escritor com aventureiro dos mares – o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, foi baseado no seu livro “Heart of Darkness” (“Coração das Trevas”) -, escreveu, num seu outro romance denominado “Lord Jim”: “Se quiser saber a idade da Terra, basta observar o mar durante uma tempestade”. A gênese do Tempo se revela na violência e no mistério das águas.
O foco vem naturalmente. As coisas acontecem. A dispersão, essa amostra grátis do pânico, se dispersa nas águas e toma ares definitivos. Somos o foco e o fogo de Deus?
Peço ao ímpeto, esse filho do medo, que se acalme, para que eu possa fluir íntegro, com leveza, num universo de espelhos, tigres, labirintos e facas.
“I would rather be ashes than dust!
I would rather that my spark should burn out in a brilliant blaze
than it should be stifled by dry rot.
I would rather be a superb meteor,
every atom of me in magnificent glow,
than a sleepy and permanent planet.
The proper function of man is to live, not to exist.
I shall not waste my days in trying to prolong them.
I shall use my time”. Jack London (1876 – 1916).
Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, fundou a OP Ocean Pacific no Brasil, viajou por 50 países e quer mais. Autor dos livros Almaquatica (Fnac), O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Lançará sua terceira obra, “Poentes de Amor”, em poucos meses. Não é nada, não é ninguém, e mais perplexo, apaixonado e aquecido fica a cada vez que tenta descobrir-se dentro e fora de uma humanidade tão profunda quanto crua.
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