
Muitos surfistas sofrem com a ansiedade, o medo e a pressão nas competições. Isso ocorre quando vencer torna-se obsessão.
A obrigação de vencer arrasa com o desempenho esportivo de qualquer atleta. Todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez na vida, seja no esporte, no vestibular ou no trabalho.
Como é difícil controlar a cabeça nestas horas! Entretanto, existe uma luz no final do túnel, cabe a cada um de nós encontrá-la.
Comigo não foi diferente, durante minha fase de competidora passei por um desses momentos de stress. Tudo aconteceu no Festival Brasileiro de Ubatuba, meu primeiro teste como nova contratada da equipe da Sundek.
Nos últimos meses os resultados haviam sido bons: segundo lugar, vice-campeã, terceiro lugar. Mas, faltava o título de campeã. E assim começava a tal obsessão. Uma voz no interior da minha cabeça murmurava: “está na hora de vencer, esse é o momento”.

Nos primeiros dias, tudo aconteceu da melhor forma possível: passo minhas baterias e estou na grande final. Acordo na sexta-feira com a surpresa da chegada de uma frente fria.
O forte vento e a devastadora correnteza de sul acabam com as ondas que quebram disformes e enormes em alto mar.
Começo a ficar nervosa, tudo colabora para isso: a praia desconhecida, as ondas grandes e irregulares, a pressão por um resultado, o medo que tudo desse errado e ainda o compromisso com o novo patrocinador.
A sensação é das piores! Mas, eu ainda tenho dois dias e tudo pode ficar melhor. O mar cresce ainda mais no sábado, o vento diminui. Nos dois dias que se passam nem chego perto do mar água.
Chega o grande dia, domingo de decisões e eu rezo para ver o mar um pouco menor e mais ajeitado. Nada feito e para piorar ainda mais a situação, o vento resolve mudar para nordeste, contrário à corrente. Que maravilha! Parece uma máquina de lavar roupa.

Mas, hoje é tudo ou nada. Estou apavorada e totalmente pressionada. Tiro as pranchas do carro e logo ouço a voz do Ermínio, dono da Sundek, dizendo para equipe: “Bah gurias, hoje quero ver vocês arrebentarem neste mar enorme!”.
Era uma brincadeira provocativa e também uma certa cobrança por um bom resultado. Decido logo entrar no mar para conhecer a situação e encarar o medo e a pressão.
Remo no canal completamente insegura, quando estou quase chegando lá fora, entra uma série enorme. Na minha frente, Otávio Pacheco e outro surfista desconhecido despencam de uma morra bem em cima de mim. Sou literalmente atropelada, esmagada e arrastada por baixo d’água.
O bico da minha prancha fica totalmente destruído e pendurado pela resina. Saio do mar desolada com a péssima investida. Estou totalmente assustada e penso: “Nossa, esse campeonato vai ser um desastre”. Como enfrentar todo aquele stress do medo e da pressão?

Quando tudo parecia perdido, recorro a uma força interna que eu nunca tinha experimentado, mas eu sabia que existia e já havia lido a respeito. Vou tentar!
Recolho-me a um cantinho da praia, deito ao sol, fecho os olhos e começo a respirar concentrada em relaxar meu corpo. Em poucos minutos estou completamente distante de tudo que me perturba.
Então, início um processo de meditação e visualização: com os olhos da mente enxergo-me preparada para grande final, estou calma, motivada, feliz de estar ali e com muita vontade de surfar, independente das condições do mar.
Enxergo cada passo do processo, desde minha caminhada para buscar a camiseta de competidora, a remada no canal com muita tranqüilidade e a minha atuação durante a bateria. Nesta hora visualizo até a onda perfeita que quero para mim, sinto-me completamente sintonizada com o mar. Então, de forma exemplar, surfo esta onda com a mente.
Realizo movimentos e manobras perfeitas, cada detalhe é visto com precisão e registrado internamente. Preparo tudo que quero fazer e sentir, até o término da bateria com bom resultado.

Nem sei quanto tempo isso tudo durou, mas foi longo. Acordo dessa viagem completamente indiferente a tudo que sentia e ao que está por vir.
Está na hora, ouço meu nome ser chamado para final e lá vou eu como se estivesse indo para um free surf no mar mais perfeito do mundo.
Estamos todas bem no outside quando avisto a primeira série se aproximando. Minha percepção está aguçada. Decido com rapidez pegar a primeira onda, pois as seguintes são maiores e fecham por inteiro.
Deu certo. A direita abre toda até virar uma esquerda na outra sessão e finalizo enterrando as quilhas na areia.
Pego mais duas dessas sem cair, com manobras cautelosas e precisas. Sinto-me entrosada com o mar, então decido buscar uma esquerda, meu frontside. Loucura! Não há esquerdas. Elas fecham bem nas pedras. Mas sinto-me tão bem que resolvo arriscar.
Sou engolida pela onda e levo um bom tempo debaixo da água procurando uma saída. Mas a coragem está mais poderosa que a insegurança. Insisto na esquerda e acho uma menor que acaba abrindo. Estou tão concentrada em mim e no mar que não percebo as outras competidoras.
Tudo acontece naturalmente, pego as melhores ondas num mar superdifícil e grande. Termina a bateria. Sou a vencedora!
O que aconteceu se eu estava quase derrotada pouco antes da bateria? Se a minha mente acredita que “não posso”, sabotarei meu próprio esforço. As opiniões formadas sobre mim mesma distorcem as verdades sobre meu potencial.
Na verdade o que fiz foi transformar minhas convicções interiores usando a visualização e transformando o “não posso” em “eu posso”. Assim mudei os aspectos exteriores e obtive um bom resultado.
Outro fato importante é o resgate da paixão, da emoção de estar totalmente presente no surfar, livre de qualquer pressão para obter um ótimo desempenho. Isso não é possível se pensamos demais no futuro, ou no passado.
Eu estava totalmente presa ao que poderia acontecer e ao que um dia havia me acontecido quando passei por uma experiência ruim durante um campeonato. O passado já passou, o futuro não existe, o único momento verdadeiro é o presente, o “agora”.
Todo stress é gerado pelo que já passou ou pelo que virá. O presente é a chave para a liberdade, portanto você só pode ser livre agora. A atuação ótima em qualquer campo da vida é gerada por nossa dedicação apaixonada em cada momento. A vitória é o resultado natural dessa perspectiva. A atuação ótima resulta de um processo de prática física e mental.
O poder está dentro de cada um de nós. Não limite sua capacidade, acesse seu interior e liberte o “eu posso”. Viva o presente, ele é o único momento que temos, o resto não sabemos.
