
Depois de realizadas as duas primeiras etapas do circuito mundial WCT, os surfistas brasileiros, que não começaram bem a temporada, estão tendo um bom tempo para se preparar para as próximas duas etapas, no Tahiti e em Fiji.
Durante estes 40 dias eles poderão analisar o que deu errado, testar novas pranchas e treinar, se possível, no local das provas.
Analisando friamente e comparando o que os separa hoje de surfistas como Andy Irons, Kelly Slater, Mick Fanning e outros, chego a conclusão que a maior diferença está na capacidade de surfar em alta velocidade.
Minha impressão é de que os brasileiros estão indo a 60 km/h, enquanto os gringos vão a 100 km/h.

Não é só uma questão de talento, pois nós temos surfistas muito habilidosos, mas sim de movimento, de costume de surfar ondas velozes e também da flutuação das pranchas.
São as leis da física atuando a favor dos mais rápidos, dos coordenados e com equipamento adequado, que acabam conseguindo executar manobras quase impossíveis, com fluidez e estilo.
Nossos surfistas são educados em ondas lentas e curtas. São poucas as ondas no Brasil que permitem desenvolver velocidades extremas, com pistas de 100 ou 200 metros de extensão.
Depois de um certo tempo de prática os movimentos se tornam automáticos e só com muito treino em ondas como Jeffreys Bay, Burleigh Heads, Kirra entre outras, construiremos a habilidade de controlar a prancha a mil por hora com manobras fluidas, e não frear a prancha perdendo o ritmo.
Não é só uma questão de surfar ondas boas, é também uma questão de correção dos movimentos, com aperfeiçoamento técnico de alto nível, preparação física profissional e adequação do equipamento às individualidades dos atletas e aos vários tipos de ondas do circuito.
Tenho observado muitos iniciantes que estão entrando e saindo das escolinhas e este problema já vem desde cedo. O desenvolvimento das habilidades não vem seguindo uma seqüência lógica. Eles ficam em pé na prancha e já acham que podem fazer de tudo – os fundamentos básicos do surfe não estão sendo reforçados.
Questões como o posicionamento dos pés devem ser corrigidas com muito treino prático de movimento ainda na areia, muitas vezes até a fase da competição. Antes de desenvolver a capacidade e coordenação para irem até o final de uma onda, eles estão querendo fazer manobras, sem sequer dominar a técnica, e acabam caindo, o que muitas vezes é perigoso.
Ficam tentando fazer uma leitura mais vertical quando ainda não conseguem levar a prancha horizontalmente até a beira. O surfe é um esporte de construção: primeiro se desenvolve a velocidade para depois tentar fazer as manobras.