Imagine uma longa costa com pequenas praias, onde em cada costão no mínimo um point break aguarda constantes e gigantes ondulações.
Clique aqui para ver as fotos
Imagine agora a cultura do povo mais antigo da Europa. Este é o País Basco. Ondas perfeitas e uma cultura única.
Não é um país politicamente independente, mas um país cultural. Um país que recebeu de seus invasores o reconhecimento, mas não o respeito. Uma cultura sobrevivente.
Uma Cultura milenar completamente distinta das culturas latinas, anglo-saxônicas, escandinavas e tantas outras que formaram o continente europeu.
A língua basca é única, não possui influência ou semelhança a qualquer língua viva ou extinta. Esta cultura possui peculiaridades muito estranhas para nós, mas que merecem reflexão.
O povo basco possuiu uma religião politeísta, na qual a maior divindade se chama Mari, que se alimenta da negação e da afirmação da mentira.
Os Bascos acreditam que nas montanhas e de baixo da terra há rios de leite e muita paz, onde os sábios ancestrais habitam.
Acreditam também que tudo aquilo que acontece neste mundo possui uma explicação mágica ou divina. Para eles: ?Izena Zuen guztia omenda? ? Tudo aquilo que tem nome existe.
As casas bascas são imensas. O motivo: Todas as gerações moram na mesma casa. Pai, neto, sogro e sogra… Imagine a bagunça!
A casa basca, além de grande, é bonita. Um estilo único. A casa é o pilar principal da sociedade. Nela a mulher manda e a cozinha é o centro.
Os bascos têm na brutalidade e na força física o ideal de grandeza pessoal. Os festivais bascos contam com levantamento de peso e cabo de guerra. Apesar de ser a cultura mais antiga da Europa e ainda estar viva, ela foi se apagando através dos séculos.
Primeiro houve uma pacífica relação com os Celtas. Depois destes vieram os romanos com o seu exército quase imbatível. Eles dominaram e proibiram qualquer expressão da cultura basca.
Então veio o declínio romano, período feudal e invasões bárbaras. Neste período, sete feudos vizinhos uniram forças e criaram a Euskadi, hoje País Basco. Foi a primeira organização política deste país.
Tempos depois os francos invadiram pelo Norte e os castelhanos pelo Sul. Por respeito à nação basca foi garantida uma condição de país cultural, porém criou-se a dependência política parte à Espanha e parte à França.
Na guerra civil espanhola (1936-1939), o General Franco, aliado de Hitler, lutava contra os interesses da burguesia basca. Guernica, situada neste país, foi bombardeada ? acontecimento que virou célebre por uma tela de Pablo Picasso.
A escolha do alvo foi por esta cidade possuir a ?Gernikako arbola?, árvore sagrada onde nobres e sábios juravam lealdade às leis Bascas. A ditadura venceu e mais uma vez a língua basca foi proibida e a cultura, então frágil, corria ainda mais risco.
No meio deste tumulto surgiu o ETA (Euskadi Ta Askatasuna), que significa país basco livre. Este é um grupo que luta pela independência política do país. No começo agia de forma pacífica, porém ao longo dos anos passou a realizar atentados, assassinar pessoas importantes e até hoje suas ações mantêm em alerta as autoridades.
Hoje a cultura basca se mantém timidamente. É incrível imaginar como, depois de tudo, ela ainda esteja viva. A língua foi liberada novamente e é ensinada nas escolas. Os esportes e festivais bascos são atrações turísticas e sua culinária rústica e picante é muito apreciada.
Esta região é mágica. Além de possuir uma cultura inspiradora, para os surfistas ela esconde diversos tesouros: centenas de ondas solitárias com qualidade internacional.
No país basco está a lendária onda de Mundaka. Tem a nova atração do mundo de ondas gigantes Belhara e mais uma infinidade de ondas com fundo de pedra.
Imagine uma costa com diversas praias muito pequenas que em seus constantes costões há no mínimo um pico com fundo de pedra para se surfar, podendo haver dois, três, ou mais. Ondas alucinantes uma ao lado da outra, na maioria das vezes sozinhas. Para completar, todas são decoradas pela cadeia de montanhas do Pirineu. A região é abençoada.
O mais engraçado é que dentre as centenas de picos, todos os surfistas da região se concentram em poucos picos que possuem uma característica entre si: um estacionamento bem em frente.
Não se atreva a surfar ali, pois os bascos criaram uma característica agressiva após anos de agressões à sua cultura.
Dentre centenas de picos, estes poucos ficam lotados, enquanto ondas com qualidade internacional estão todos os dias aguardando algum surfista de alma.
Uma viagem imperdível. Ondas excelentes, muita cultura, comida boa e tranquilidade.
##
Fiquei muito feliz com os comentários relacionados ao texto que escrevi semana passada sobre o País Basco.
Além de muitos brasileiros, dois bascos, o Brow e o Dani, me honraram com suas colocações.
Brow, que mora em Santos, mas é de sangue Basco, deu uma verdadeira aula para complementar minhas pesquisas. Já o Dani lembrou que no País Basco, assim como na maior parte do mundo, quem chega com respeito, será respeitado.
Algumas pessoas me enviaram e-mail pedindo maiores informações sobre o País Basco, assim, relacionei aqui alguns dados sobre as ondas, o quiver ideal, melhor época, estadia…
As ondas O País Basco está situado parte na França, parte na Espanha, sendo a última mais extensa. Surfei apenas na parte francesa devido à minha intenção de estudar a língua daquele país, porém escutei muito sobre as ondas da Espanha, que não devem nada em qualidade para as francesas.
Lá está Mundaka, lendária esquerda, tem a cidade de Sopelana com suas ondas gigantes, entre tantos outros picos. Na parte da França, mais ao Norte, ficam as cidades de Anglet e Biarritz. Nestas, há apenas beach breaks, porém todos de extrema qualidade, aguentando ondulações de até 4 metros.
É impressionante ver ondas grandes quebrando com tanta perfeição em um beach break. Algo único. Destaque para a onda de Cavaliers, onde rola uma etapa do WQS.
Mais ao Sul fica a cidade de Guetharry. A cidade do big surf. Guetharry e Avalanche são ondas que aguentam ondulações de 2 a 7 metros com uma perfeição impressionante e um canal sem nem mesmo um quebra coco. Chega-se ao pico de cabeça seca. Mas, cuidado! Entrar é uma coisa, dropar é outra. Lá ficou em dois pedaços uma 7?2 mágica que eu tinha.
Ainda nesta cidade fica a diretia de Lafitenia. Uma onda longa, um pouco cheia, mas muito gostosa de surfar.
Na divisa com a Espanha estão as cidades de Saint Jean de Luz e Henday, o local para onde os merrequeiros devem correr no dia que o mar cresce. Vários picos espalhados pela costa.
Há ainda a onda de Belhara, que fica a alguns quilômetros da costa em frente a Saint Jean de Luz. Esta onda quebra apenas a cima de 7 metros. O sonho do tow surf.
Quem vai ao País Basco em busca de ondas gigantes com muita perfeição, para chegar até o pico sem molhar a cabeça, fazer drops de vários segundos e pegar tubos monstruosos, sairá mais que satisfeito.
Já quem busca um surfe hot dog, aquele 1 metro para várias manobras, este não ficará lá muito feliz.
As ondas pequenas são cheias e a água fria tira todo o tesão. Apenas para quem quer treinar os cutbacks.
Vale lembrar que esta é a experiência que eu tive. Os picos, mesmo os de fundo de pedra, sempre variam sua qualidade em função de fatores além da nossa vã ciência.
Onde Ficar – França Na frente do pico de Lafitenia, na cidade de Saint Jean de Luz, fica o Camping Playa Acotz. Valor: E$ 24 para uma barraca, duas pessoas e um carro. Site. Bem perto dos picos de Guethary e Avalanche fica o hotel Le Madrid. Aconchegante e com bom preço. Valor: E$ 35 ? E$ 72. E-mail: [email protected] .
Ficar em Biarritz, apesar de toda a beleza, só se estiver a fim de gastar bastante dinheiro e ficar no meio da multidão, night, Ferraris e beach breaks. Opções de hotel não faltam.
Em Anglet só existem beach breaks, mas de altíssima qualidade que suportam ondulações grandes com perfeição. Um boa opção é o albergue da rede Hostels, que tem camping em anexo. Valor: Camping, E$ 13 com café. Albergue, E$ 20 com café. E-mail: [email protected]
Para obter mais informações sobre a região há alguns sites interessantes:
Saint Jean de Luz, Guethary, Biarritz e Anglet
Como chegar O aeroporto na parte da França fica em Biarritz. Na Europa existem diversas companhias aéreas de baixo custo. Vale comparar a rota Brasil ? Londres – Biarritz ou Brasil ? Paris ? Biarritz.
Na época que estive lá cheguei a ver vôo de Londres a Biarritz por E$ 19. De trem vale apenas se quiser fazer mochilão pela Europa e comprar o Euro Pass ? ticket de passe livre. Para quem quer chegar pela Espanha, a cidade de Bilbao é uma boa opção.
Quando ir As ondas começam a chegar em setembro e ficam até maio. No inverno o frio beira o insuportável e os ventos são mais fortes. O ideal fica na primavera e outono.
O verão, principalmente em agosto, é insuportável. Quase não há ondas e parece que a Europa inteira está ali, enchendo as praias e lotando as boates.
Quiver As ondas quando chegam são realmente grandes e fortes. Com minha 7?3 eu me senti um merrequeiro. Claro que existem picos alternativos. No auge do swell é possível achar ondas desde meio metro até mais de 7 metros.
Para os big riders de plantão, uma 8? ajuda, mas não esqueçam de trazer pranchas de ondas pequenas, pois período de flat, apesar de pouco comum na época de ondas, existe. Roupa de borracha e botinhas são essenciais de novembro a abril.
Dia de flat Vale a pena passar nos escritórios de turismo, pois sempre existem folhetos com todas as programações do mês. Não deixe de assistir um jogo de Pelote Basque, nem de comer em um restaurante típico.
Para cultura e museus, vale visitar o museu Basco de Bayonne, as grutas de Sare, em Sare e Ortillopitz, uma tradicional casa Basca de 1660. A cidade de Saint Jean de Luz merece uma caminhada pelo centro. Para quem gosta de caminhadas, a montanha La Rhune é uma ótima opção. Visual épico.
Não possuo muitas dicas sobre a parte espanhola, mas garanto: há muitas possibilidades. San Sebastian é uma cidade alucinante! Só de caminhar pelas ruas da cidade já vale o passeio. O povo basco é amigo do amigo. Conhecer este povo é um grande passo na evolução de uma pessoa. E, de quebra, um grande passo na evolução como surfista.

