Por trás das notas

Uma questão de tempo

Quando eu comecei a pegar onda, todos os meus ídolos eram gringos, entre eles os havaianos Gerry Lopez, Barry Kanaiaupuni e Jeff Hackman, e depois Larry Bertleman com seu surf elástico. Mais tarde, era o sul-africano Shaun Tomson que me inspirava e mostrava como surfar uma onda.

 

Meu primeiro ídolo no surfe brasileiro foi Pepê Lopes, eu e meus amigos saíamos da água para vê-lo surfar. Sua final no Pipe Master em 76, com 17 anos, foi a confirmação de que ele era um fenômeno.

 

Depois o Daniel Friedmann assumiu o reinado do surfe nacional. Lembro dele arrepiando no final dos anos 70. Ao mesmo tempo fui criando ídolos locais na Barra, praia onde comecei a pegar onda. No Quebra-Mar tinha o Waldemar Valney, rei dos tubos, no Postinho tinha o Raúl, que virou músico, no Meio da Barra aparecia o Ney Medeiros, irmão mais velho do lendário Roberto Casquinha.

 

Da Zona Sul gostava do surfe do Felipe Castejá. Nos anos 80 a prática do surfe no Brasil já era popular e novos talentos apareceram em todo o litoral. Picuruta Salazar, Dadá Figueiredo, Cauli Rodrigues, Valdir Vargas, Roberto Valério, Felipe Dantas, Nelson Ferreira, entre outros, tinham nível internacional.

 

Por ser regular e ter sido criado nas esquerdas do Quebra-Mar da Barra, meus surfistas inspiradores costumam ser fortes nas batidas de bakside. Atualmente gosto muito do surfe do Léo Neves, Raoni Monteiro e Beto Fernandes.

 

Trinta anos depois, não precisamos de ídolos estrangeiros e já podemos nos espelhar em vários brasileiros que são conhecidos em todo o mundo, como Fabio Gouveia, Teco e Neco Padaratz, Victor Ribas, Peterson Rosa e Guilherme Herdy, além de outros grandes campeões nacionais como Pedro Müller, Tinguinha Lima, Jojó de Olivença e Paulo Matos, ou ainda ter como inspiração o surfe moderno do campeão mundial sub-21 Adriano “Mineirinho” de Souza.

 

O talento de nossos surfistas é reconhecido e comprovado e o nível do surfe no Brasil nunca foi tão alto. Vários garotos de 12 anos surfam que nem gente grande, mas nossas vitórias nas categorias de base não têm sido suficiente para um título no circuito mundial. Alguns passos precisam ser dados entre um título Junior e o título do WCT.

 

Salvo algumas exceções, como Neco Padaratz, a maioria dos amadores tem demorado de três anos a cinco anos para despontar no cenário mundial e se classificar para a elite do surfe.

 

Da equipe que disputou o mundial da ISA em 2002, neste ano tivemos cinco representantes no mundial Pro Júnior na Austrália. Além do campeão, Adriano de Souza, Jihad Kohdr, Simão Romão, Bruno Moreira e Gustavo Fernandes mostraram que o trabalho da Confederação Brasileira de Surfe está no caminho certo.

 

O grande problema está no funil do WQS. Neste ano apenas três novos atletas (Raoni Monteiro, Eric Rebieri e Bruce Irons) conseguiram furam o bloqueio protecionista que privilegia tops e ex-tops nos principais eventos da temporada. A ASP tem de rever este formato, sob o risco de criar objetivos inalcançáveis.

O fato de termos menos representantes no WCT de 2004 não espelha uma decadência no nível do surf brasileiro, é muito mais decorrência das circunstâncias, dos horizontes que se apresentam e dos caminhos que são traçados. Um campeão é questão de tempo.

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)