
Para minha estréia como colunista do Waves Bodyboard, resolvi encarar o desafio de contar um pouco da minha trajetória no esporte, principalmente para a galera da nova geração.
Confesso que isso me tirou um pouco o sono, pois às vezes ficam as omissões, outras vezes as paixões. Porém, por intermédio do meu site muitos amigos e a galera em geral se surpreendem com a história do bodyboard…Então, aí vai.
Em 1973 vi pela primeira vez uma prancha de bodyboard em um anúncio da revista norte-americana Surfing. Neste mesmo ano, meu amigo Fábio Lobo trouxe de uma viagem do Hawaii aquela prancha mágica. Como qualquer adolescente, testávamos tudo o que era novidade.
E, comigo não foi diferente, me apaixonei. A praia do Leme era perfeita para o bodyboard e, embora não soubesse disto, estava fazendo o test-drive daquilo que seria uma verdadeira revolução na minha vida e também na de muitos jovens.

Anos mais tarde, dividindo a paixão entre surf, surf de peito, skate e outros esportes, fixei-me de vez no bodyboard. Outro grande amigo chamado Divino (não por acaso, agora acredito eu!) trouxe o último lançamento da época, a famosa Morey Boogie, a prancha 139 Rainbow.
Não tive dúvidas, larguei tudo e só queria saber de me jogar nas buraqueiras que rolavam no Leme!
Durante quase toda a segunda metade da década de 70, passei surfando, viajando e me aprimorando como bodyboarder. Do Leme ao Grumari, na época uma aventura para chegar, fui conhecendo mais e mais gente que trazia ou que ganhava uma prancha Morey Boogie.
Fomos nos tornando um grupo: eu, Fábio Lobo, Marcelo Câmera, Alvalex, Alvabreu e Animal. Todos eram os adolescentes precursores, que nas horas vagas deixavam o skate de lado e experimentavam a novidade.

Naquela época, todas as manobras eram cópias do que fazíamos no surf e no surf de peito, como cutbacks, snaps, batidas e tubos. Ah…Os tubos. Foram eles, ou melhor, a forma como uma prancha de bodyboard nos transportava por dentre deles, principalmente nas ondas do Leme, que fizeram nossa cabeça.
Nessas trips, em que íamos para Grumari e Guaratiba, conheci Sérgio Peixe, famoso kneeboarder, que me estimulou a surfar de joelho sobre aquela prancha flexível. Entretanto, por não ter quilhas, a prancha saía de lado em cada tentativa de cavada. Foi aí que, por acidente, inventei a manobra que mais tarde se chamaria Kung Knee.
Com a perna para fora da prancha, usava-se a nadadeira como quilha e, com a mão apoiada na parede, percorria-se as longas esquerdas tubulares que entravam pelo canal da praia de Guaratiba. Era o máximo!

A década de 80 chegou. Eu era um ávido leitor de revistas gringas como Surfing e Surfer, que já publicavam pequenas matérias sobre o inusitado esporte que despontava.
“Aprendi” com Jack the Ripper a executar o drop knee. Era o único que realizava tal façanha. E era mesmo, pois o único pé-de-pato disponível na época era o Orca, nadadeira de mergulho. Quem conheceu sabe do que estou falando!
Foi nessa período que conheci a pioneira do bodyboard feminino, Gisele Vargas, a Gica. Além de sagrar-se a primeira campeã carioca em 85, me apresentou aos empresários do surf para que eu conseguisse realizar o sonho de representar o Brasil no Pipe Master de Bodyboard.
É isso mesmo. Em 82, comecei a receber as primeiras correspondências da Morey Boogie dos EUA e como relatava a eles praticamente tudo o que estava fazendo por aqui, me convidaram para participar das triagens do primeiro Pipe Master da história.

Tentei de todas as maneiras, mas não foi dessa vez que realizei meu sonho. Acabei recebendo um prêmio maior, uma revista chamada Action Now, que tinha na capa Jack the Ripper em Pipe no primeiro El Rollo fotografado em seqüência.
Corri para a praia e, depois de algumas semanas de treino, aprendi a executar a manobra que colocou o bodyboard definitivamente na mídia mundial. Juntamente com a revista, veio um completo guia de como montar e realizar um campeonato. Já organizava entre meus amigos pequenos eventos de surf de peito e fazer algo com o bodyboard era iminente.
No ano seguinte, em 83, tomei conhecimento que uma galera de Niterói estava organizando um campeonato. Foi a oportunidade que aguardava, liguei para o João Manoel, o organizador, e ofereci o prospecto enviado pela Morey Boogie. Foi realizado então, o primeiro campeonato de bodyboard do Brasil, na praia de Piratininga. Empresas locais e surfistas se uniram naquela iniciativa, caso do Jiló, que foram importantes para a realização do evento.

O grupo cresceu. Dos 16 participantes, Gica era a única mulher do evento. Mário Rutman foi o grande vencedor e eu fiquei em segundo. Nomes como Cláudio Leite, Otto, Carlinhos, Bruno Godinho já despontavam na época.
Eventos foram acontecendo ao longo do ano e, em 1984, criei junto com Cláudio Marques, Marco Salgado, Guto de Oliveira, Kiko Pacheco, Fábio Lobo, Eliezer, Robson, entre outros, a primeira associação do esporte no mundo, a Associação de Morey Boogie do Estado do Rio de Janeiro (AMBERJ).
Por intermédio dela, realizamos o primeiro circuito com regras de competição. Conseguimos apoio da mídia, bem como de empresas do setor. As primeiras revistas especializadas em surf, como Visual Esportivo e Fluir, além de jornais e televisão, como o programa Realce, do Bocão, nos apresentavam como verdadeiros “bandeirantes” das ondas.

As primeiras fotos que aparecerem sobre o bodyboard brasileiro foram captadas nas esquerdas do Arpoador por Nilton Barbosa. Seguido de perto, por seu pupilo, Marcelo Cozzare, que fotografou o primeiro El Rollo em seqüência na mesma praia. Cozzare foi o primeiro fotógrafo a se especializar no bodyboard e, anos mais tarde, produzimos o primeiro vídeo didático: Bodyboard por Marcus Cal Kung, em 1991, único no gênero, produzido por brasileiros até hoje.
No ano seguinte, 85, realizava meu antigo sonho de ir ao Havaí. Juntamente, com Cláudio Marques, Marco Salgado, Guto de Oliveira e Xandinho rumei para defender o Brasil no Pipe Master. Lá nos encontramos com Andréa Ferreira, carioca de Niterói, que havia conseguido a vaga na França. Foi show! Cláudio Marques conseguiu a melhor classificação individual, ficando em décimo lugar e o Brasil em terceiro, atrás apenas do Hawaii e Austrália.

A mídia mundial descobriu os brasileiros e fui entrevistado pela Morey Boogie e em seguida pela revista Bodyboarding Magazine. Éramos a grande surpresa. E não foi só isso. Com o conhecimento técnico adquirido voltamos profetizando ao Brasil: “Guilherme Tâmega será campeão mundial e as brasileiras são as melhores do mundo!”. Benditas palavras!
A Clark Foam, que iniciou a fabricação em 84 das famosas Mach 77 no Rio de Janeiro, contratou-me e, de repente, anunciava na televisão divulgando a marca e o esporte por todo o Brasil.
Em 1986, uma equipe brasileira rumou para a Califórnia para participar do circuito Nacional Americano, em que novamente fomos a atração. Cláudio Marques foi o destaque da competição. Em seguida participamos de um evento em Carlsbad e cheguei na final, com nomes como Keith Sasaki, ficando em sexto lugar.

Enquanto não estava competindo, aproveitava as horas vagas e fazia visitas às fábricas locais, como a BZ, Scott e outras. Isto serviu mais tarde para ajudar empresários brasileiros a estabelecerem essas marcas no Brasil.
Quando fiz minha estréia no primeiro número da revista Fluir Bodyboard, em 1987, ainda não imaginava que o Brasil se tornaria a maior potencia competitiva do esporte no mundo. Claro que já sonhava, pois tínhamos ido ao Hawaii e Califórnia e bodyboarders de todo planeta surpreendiam-se com nossas performances. Ajudei a desenvolver e lancei o pé de pato Kpaloa.
Naquele mesmo ano, Glenda Koslowsck iniciava uma carreira de sucesso em tubos internacionais que se perpetua até hoje.

No ano seguinte, em 88, mesmo Pipeline não permitindo um título para o Brasil no Pipe Master, sambou literalmente com a performance da equipe brasileira. Xandinho, Kiko Ebert e Ugo Corti retalharam as esquerdas de Pipe e Backdoor, juntamente com todos os outros brasileiros que estavam lá disputando o evento.
Durante o campeonato, recebi o prêmio de Personalidade Mundial do Esporte, pela contribuição, criação e divulgação de regras, conceito e, principalmente pela idéia de institucionalizar o esporte em nível mundial.
Apesar da descrença geral, consegui através da associação promover uma campanha nacional para renomear corretamente o esporte, conhecido como Morey Boogie.
Viabilizamos a realização, com o patrocínio da Nestlé, dos primeiros eventos internacionais no Brasil, o Bliss International. Mike Stewart, Ben Severson, Keith Sasaki chegaram no Brasil e chocaram-se com a organização e a popularidade do esporte na nossa terra.

Ajudei na criação do primeiro circuito brasileiro e na criação da ABRASB, primeira entidade esportiva de representação nacional. Ainda em 88, fui contratado pela marca Speedo, que revolucionou os conceitos do mercado de pranchas na época.
A maior equipe já existente foi montada e reuniu atletas do Rio Grande do Sul ao Maranhão, revelando celeiros e nomes até então desconhecidos. Além é claro, dos principais atletas que figurariam no seleto grupo dos campeões mundiais e nacionais, como Guilherme Tâmega, Kiko Pacheco, Kiko Ebert, Stephanie Pettersen e as irmãs Mariana e Isabela Nogueira.
No final de 89, criei a Speedo Genesis, que mais tarde foi conhecida apenas como Genesis. Uma prancha com tecnologia totalmente diferente do que se fazia na época e permitiu pela primeira vez a participação do Brasil no mercado mundial.

Com o sucesso internacional e o desenvolvimento de marcas e tecnologias para empresários que queriam entrar no ramo de fabricação de pranchas, aceitei o convite para ir a São Paulo no início da década de 90.
Além de desenvolver e produzir marcas como Xuxa, OP, Gul, entre outras, resgatei a licença para produzir a marca que havia batizado o esporte em 1993, a Morey Boogie.
Encarei definitivamente a carreira como empresário e, junto com minha companheira e sócia, Neca Castro, dediquei-me a ampliar o desenvolvimento de produtos e acessórios ligados às marcas que trabalhava. Iniciei a importação de produtos especializados, como vídeos e as nadadeiras australianas Hydrofins – hoje conhecidas como Techfins.
Paralelamente, desenvolvi um projeto que me deu muito prazer e hoje é o principal diferencial da marca Kung em relação às existentes no mercado, a prancha Custom, pranchas de

bodyboard feitas sob encomenda exclusivamente para o cliente.
Embora afastado da promoção e política do esporte, acompanhava a trajetória vencedora de Guilherme Tâmega e das bodyboarders brasileiras, que “assaltaram” de vez o cenário competitivo mundial, confirmando as previsões outrora proferidas.
Da mesma forma, com preocupação acompanhava o conturbado cenário político carioca e nacional, que dura até hoje.
Em 1997, retornei ao Rio e lancei a Kung Bodyboard, reapresentando ao mercado o design inovador lançado em 93 do sistema Phazer. Com esse design, consegui colocar pela primeira vez o bodyboard brasileiro no mercado americano aparecendo, inclusive, no Guia de Pranchas da revista Bodyboarding.
Dois anos depois, em 1999, Bernardo Puertas, talento da nova geração baiana, sagrou-se campeão brasileiro amador com essa mesma prancha. O novo século chegou e, em 2001, criei a Escola Kung de Bodyboard.

Funcionando há quase três anos, na praia da Barra, transmito, juntamente com um grupo de atletas da pioneira e novíssima geração, meu conhecimento e experiência a pessoas de distintas condições socioeconômicas e profissionais.
Mostro meu sentido de viver, o estilo de vida e o prazer de surfar com uma prancha de bodyboard. Tenho também um grande aliado nessa empreitada, meu filho de seis anos, Calvin, que claro, já tem a sua Kung Custom Board.
No mesmo ano, em novembro de 2001, lancei o site Kung Bodyboard, com conteúdo inédito sobre a história do esporte, informações sobre a Escola Kung, pranchas e cursos e workshops direcionados à profissionalização na fabricação de pranchas de bodyboard.

No site tive a oportunidade de reencontrar velhos amigos e conhecer talentos da nova geração, pois ele funciona como a porta de entrada para muitos bodyboarders, que independente de estarem no cenário competitivo, são como eu.
Vivem suas vidas pessoais e profissionais, mas jamais abandonam o prazer de surfar e respirar o estilo de vida de ser um bodyboarder.
Mais recentemente tenho revivido minhas primeiras experiências como pioneiro do esporte realizando palestras e workshops em universidades e escolas de bodyboard.
É isso, primeiramente, quero agradecer ao Waves e a todos aqueles que dispensaram um tempo para ler esse texto. E, também, convidar a todos a entrar na Sala de Shape do Kung.
Sejam bem-vindos!
Vejo vocês na água!
