II ? Pepe, o Dragão, Kahuku e os egípcios.
Oswaldo Pepe foi um dos lançadores da revista Trip, com o Paulo Lima, o Califa e o Dandão. Foi assessor de imprensa da Fluir, da Town & Country, das feiras de surf do Claujones, da Billabong, da Mostra de Arte e Cultura do Surf, etc, etc.
Sabia tudo do surf, mas nunca tinha surfado. Um ?teórico-master?, da mesma escola e linhagem do Reinaldo ?Dragão? Andraus, com a diferença de que o Dragão sempre atrelou a prática intensa a uma vasta teoria embasada na sua memória fotográfica para eventos, datas, swells, nomes de surfistas, de picos, do cacete.
A sua idéia sempre potencializou a sua ação. E vice-versa. O cara consegue dizer e provar coisas do tipo: ?no meio do verão, no dia 17 de fevereiro de 1974, caiu uma chuva que alisou o mar lá pelas quatro da tarde na frente do Monduba. Bateu um vento terral que ajeitou a ondulação de 4 a 5 pés, incomum naquela época. As condições ficaram perfeitas. Tubos arredondados pela brisa, na maré baixa, (detalhe importante), fizeram a cabeça da moçada. Ah! O banco de areia ao lado da ilha tava demais!…?.
Mas a sua maior qualidade é a confiabilidade. Um brother de fé. Amigo dentro e fora da água. Nunca vou esquecer o nosso fim de tarde num dos únicos lugares onde o North Shore de Oahu quebra legal com o Kona Wind – o vento faroeste deles – a milhão: Kahuku oito pés sólidos.
E olha que os pés dos havaianos são bem grandes… Lá fora, só nós, amarradões, depois de remar à vera pelo canal sinistro, pressentindo a presença de um tubarão invisível. O cheiro de coral nunca foi tão forte. Impregna-me as narinas até hoje. Fecha parênteses ?Dragão?.
O Pepe, por sua vez, resolveu finalmente começar o seu idílio dentro da água. O início tardio foi plenamente compensado pelo entusiasmo e por uma perseverança atroz. ?Para mim o surf é T-U-D-O?, como ele mesmo define.
Para mim pode não ser tudo, mas é, com certeza, uma das melhores partes do todo. A saliva pura do planeta. Um lugar que muito recentemente ficou cheio de dentes cariado por palavras ruins e mentes infiltradas por vibes malignas.
O surf safou-se mais ou menos e, além e depois de tudo, salvou-me do caos mental, tirando-me da beira de um precipício psíquico (eu, sei, soa estranho…), mas isso é outra história. Eu acho engraçado quando alguém me diz que está ?velho? para aprender a surfar porque tem 30 ou 40 anos. É uma combinação perniciosa de falta de noção com força de vontade precocemente debilitada.
Exagerando, os havaianos, por exemplo, têm Rabbit Ehukai, com seus 90 e cacetada (?) anos. Nesses casos eu sempre cito o Pepe, meu exemplo de longevidade. Ele é o único cara que eu conheço que começou a aprender a surfar com 50 anos e, hoje, com 60, continua se divertindo no Moreira.
Mais uma prova de que o nosso limite é sempre auto-imposto, não está gravado nas tábuas de nenhuma lei marcial da juventude nem nas pirâmides, o maior exemplo de (tentativa de) perenidade da raça humana. A nossa noção de tempo é precária, sempre foi.
?Os ventos que batem no tempo arrastam o brilho dos olhos?. Exagerando ainda mais, tome, por exemplo, e ainda, os egípcios: usaram dois milhões e seiscentas mil pedras de duas toneladas e meia cada uma, em média, durante vinte anos, para construir a pirâmide de Quéops, a maior dos seus joguinhos de armar, e não se tem registro de que alguém tenha chiado, tipo: ?vamos agilizar, moçada!?.
Quéops era uma das ?pirâmides-mudas?, na qual nada foi escrito, pouco se sabe, e da qual até hoje não acharam nem a planta da obra nem como os caras carregaram a pedraria heavy-metal por 800 kilômetros até a planície de Gizé. O que vale é processo.
Não somos nada no infinito painel do tempo. Não existem arestas onde se agarrar nos beirais dos segundos. A História nos mostra e ilustra. O bom senso também. O momento é o único infinito. Os egípcios queriam que sua obra, como a Muralha da China e o Maracanã, fosse vista da estratosfera pelos satélites do futuro?
Nada a ver. Pretendiam reverenciar o divino, como nós fazemos, sem perceber, quando estamos num tubo, ou quando, distraídos, graças a Deus, esquecemos de quem somos socialmente. A verdade é que nos damos importância em excesso. Eles não, sabiam que é na precariedade da vida que reside sua beleza. O mar não tá nem aí. As estrelas do deserto também não. As areias de todas as praias do mundo muito menos.
(continua)
Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP OCEAN PACIFIC, viajou 50 países para descobrir que nem sempre é preciso se locomover para entender, e muito menos construir uma pirâmide de vontades para surfar a realidade. É autor do livro ?O Surfista Peregrino?, nas livrarias Saraiva, da Vila, Cultura, La Selva e Argumento, no Leblon.
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