Soul Surf

Uma história de surf – Parte I

Maresias durante o swell que abalou a região de São Sebastião (SP). Foto: Gil Hanada.

Uma história de surf, ou: ?O swell, o obstinado, o gênio mau-caráter e a magia que vive entre pranchas?.

 

 

I ? O swell

 

Na segunda-feira de 20 de abril, após mais um ?swell do século?, que bombou principalmente no sábado, dia 18, transformando Maresias num turbulento lago de espuma quebrando 12 pés plus, encontrei na praia com o meu amigo Oswaldo Pepe. A social na praia estava relativamente escassa. As imagens e seqüelas de quem surfou ou de quem apenas observou aquele swell boiavam ainda frescas nas retinas.

 

O surf continuou nos líquidos dentro dos globos oculares. Outra espécie de memória. O clima era de tsunami. Vai saber, a partir daí, que resíduos da experiência decantaram nas emoções formatando as coragens do futuro?

 

A areia remanescente estava sendo arrancada e devolvida por séries contínuas da escavadeira líquida de Deus. Observei, mais uma vez, a tenacidade épica do punho de Netuno martelando incessantemente sua força.

 

A onipresença sem nome do mar. Há alguns anos, e durante muito tempo, se ouvia que ?não dá mais onda como antigamente?. Nos dois últimos anos, ao contrário, a minha impressão empírica é que se avolumam o número de ondulações de poder.

 

Quando menos se espera a magia se renova. Naquele dia em particular, a praia ficou coberta de detritos, galhos, folhas e pedras. Alguns turistas incautos tinham sido arrastados pela subida da maré e jogados contra os muros.

 

Um quase foi tragado para o outside. Uma fortíssima corrente totalmente ?freak? arrastou de 35 a 40 surfistas do line-up em que se encontravam no outside da Praia da Baleia para o alto mar, fazendo com que tivessem que ser resgatados por barcos salva-vidas e Jet-skis, já quase nas ilhas. Inédito.

 

Ainda em Maresias, perderam-se celulares, kangas, cadeiras de praia, guarda-sóis, isopores com latas de cerveja e absorventes (insuficientes para interromper o fluxo e secar tanto mar), enquanto a galera de jet dropava as morras com garra. Egos foram molhados, temperados, transmutados e devolvidos à sua verdadeira dimensão pela água salg ( r ) ada. Gritos dispersos sumiam no vento, levados por uma névoa branca e fria, levantada pelas ondas.

 

A maresia pairava até as encostas da Serra do Mar, cobrindo as árvores com seu manto e gelando os ossos no seu delicado, mas incisivo caminho para o alto. Eu comentava, poucos minutos antes, com outros amigos, de como até os caras de tow-in tiveram dificuldade em varar a arrebentação.

 

Logo que me viu, Pepe foi direto ao assunto, como se já tivesse um objetivo antecipado em mente: convidou-me para ler o manuscrito final da sua biografia sobre o lendário e polêmico surfista californiano Miki Dora. Aceitei.

 

Miki está presente no meu imaginário desde as primeiras sessões do também lendário filme ?Endless Summer? (produzido em 1966). Tenho as aventuras lá exibidas revisadas mentalmente desde as exatas dezesseis vezes em que vi o filme, entre 1969 e 1972, acossado pela voraz excitação adolescente, nas matinês do Cine Praiano, no Guarujá. A sensação permanece até hoje. Para atualizar, o termo hoje seria ?instigado?.

 

Endless Summer deu a turbinada motivacional que faltava ( !?) para a primeira viagem para o Peru, em 1972. Não é exagero dizer que esse filme, isoladamente, foi o maior fator responsável pelo meu desejo de peregrinar pelos 50 países pelos quais errei (sim, errei, mas também acertei).

 

Foram os delírios mais prolíficos da minha vida, porque, afinal de contas, materializaram-se. Na saída do cinema corríamos para o mar, na fissura de quebrar as merrecas de verão de um Guarujá ainda despoluído e inocente, nos poucos minutos que ainda nos restavam de luz. O cheiro era de pitanga com maresia.

 

Com 15, 16 anos, nos sentíamos os ?fodão?, capazes de tudo e de qualquer manobra, inspirados por Mike Hynson, Robert August, Greg Noll, Rodney Sumpter e…Miki Dora, entre outros, que realizavam os nossos sonhos (com antecedência de alguns anos em relação a nós mesmos) nas ondas de Haleiwa, Sunset, Pipeline, Califórnia, Jeffrey´s Bay, Austrália e África.

 

O clima do filme, construído com maestria pelo diretor Bruce Brown e pela antológica trilha sonora dos ?The Sandals?, teve o dom de esculpir destinos. Pelo menos o meu. Lembro de Dora bailando sobre um longboard clássico entre surfistas e banhistas.

 

Parecia intocável. Inderrubável. Seu estilo, seus maneirismos, suas frases e suas andadas suaves até o bico, numa Malibu já crowd – isso depois dele ter usufruído, durante anos, da fruta ainda virtualmente virgem -, lhe renderam o apelido de ?da Cat?. Influenciou gerações.

 

Mais do que isso: foi um elo palpável, visível (e inúmeras vezes audível) entre o sagrado e o profano dentro da comunidade. Mesmo sendo considerado um surfista de ondas médias, atacou Waimea com a coragem dos que se enxergam invulneráveis. Emitia uma autoconfiança feroz. Quando Pepe sugeriu a leitura, não vacilei. Claro que eu gostaria de saber mais sobre o cara.

 

(continua)

 

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que nem sempre é preciso se locomover para entender, e é autor do livro ?O Surfista Peregrino?, nas livrarias Saraiva, da Vila, Cultura, La Selva e Argumento, no Leblon.

 

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