O começo, os meios! E um tubo sem fim…
Anos 70 A necessidade da busca por ondas perfeitas, a determinação do surf como lifestyle, não por pura alienação dos anos sofridos de uma ditadura sombria, cinza, e muito, muito podre.
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A busca era por um mundo de paz, luz, cor, vida, amizade, natureza, sol, praia, areia, ondas, ondas, ondas, surf e liberdade, uma liberdade de verdade!
O surf não como moda, mesmo porque não havia nada de moda naquela época! O estereótipo era de “ratos de praia”, alienados, drogados.
Praias virgens, ondas quebrando sem interferência alguma, sem brigas e multidões acotovelando-se na disputa de um espaço. Mais do que cinco na água já era crowd.
Quantas e quantas vezes saíamos sexta à noite de São Paulo, passando praia por praia, mesmo à noite, na fissura de descobrir em cada estradinha novas ondas, novos picos. Novos horizontes.
Antes mesmo de abrir o trecho da BR-101 (Rio-Santos) que passa por Maresias, Camburi, acabávamos chegando em Trindade por Cunha. Rio, Cabo Frio, às vezes acabávamos em Setiba em um final de semana.
Viagens mais longas ao Nordeste, Sul do país, até darmos a volta no Brasil em uma Kombi, passando por lugares que nunca ninguém tinha visto uma prancha ou alguém surfando. Na Pipa, a molecada brigava e gritava para carregar nossas pranchas, nas pedras, aplaudia cada onda surfada. Baía Formosa, Itacaré, todas virgens!
Nestas viagens nasceu um material muito rico para pensarmos em uma revista. Na época só havia a Brasil Surf, do amigo Pessegueiro, feita no Rio. A Surfer e Surfing eram as grandes referências do que existia neste novo mundo!
Anos 80 Nesta época já trabalhava em agência de propaganda, na Salles, e tinha uma referência de qualidade gráfica, junto a feras da propaganda!
Um dia na porta da faculdade, conversando com Romeu surgiu a ideia de fazer uma revista de surf! Mas como? Qual iria ser o time?
Claudião trabalha em vendas, leão! Alexandre Andreatta, o Xan, escreve muito, poeta! O Brunão tem altas e altas fotos, de vários picos pelo mundo. Romeu no financeiro e eu na arte! Fechado!
Primeira reunião no meu apartamento em Pinheiros: Alfredo Bahia, Sergio Monaco, Claudião ou Claudjones (Cláudio Martins), Romeu e Xan Andreatta, Brunão (Bruno Alves) e eu (Fernando Mesquita).
Cada um soltava ideias diferentes para nomes de revista. De repente, Brunão manda… e se for Fluir?! No começo todos rejeitaram a ideia: “O quê? Terrível, muito ruim!”.
Mas o nome Fluir foi sendo digerido, fluindo e tomando corpo nos ouvidos, só sei que todos acabaram por adotar o nome teve tudo a ver, perfeito! Não é que até hoje faz sucesso, 300 edições!
A edição número 0, o embrião! A pioneira era um layout feito de recortes da minha coleção de revistas Surfing e Surfer, coladas em um papelão com os títulos de matérias em letra set, na época um transfer de letras.
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Bem, o Claudjones colocou tudo em baixo do braço e saiu vendendo de porta em porta nas poucas surf-shops e empresas de surfwear que existiam, nascendo, desbravando na raça este mercado que hoje é gigante!
A construção das marcas, a divulgação dos atletas. O engrandecer do “Esporte dos Reis”.
A volta pra casa da edição Fluir nº1 A primeira redação ficava em uma casinha velha, bem de avó do interior. Rua Chanés, número 400, em Moema. Quando chegou o encalhe da distribuidora, trazendo as revistas que não tinham sido vendidas nas bancas, nossa!
Parou um caminhão na porta, cheio de revistas! Caraca, os caras começaram a descer e colocar tudo para dentro, a sala foi ficando cheia, cheia, cheia, cheia e de repente – Brumm – o chão cedeu, ali havia um porão! Que susto, ficamos aterrorizados duplamente!
Cheiro de tinta no papel Cada fechamento de edição era na unha, o Xan na máquina de escrever e eu no past-up, letrinha por letrinha coladas, um verdadeiro cordel! Dias e dias enfurnado na redação. Quantas vezes dormimos em capas de pranchas, virando noites e noites para colocar a revista na gráfica!
Que orgasmo máximo, pegar as provas de fotolito, ver a revista em máquina rodando! Ver a revista nas mãos dos apaixonados leitores não só para nós, mas para o mundo. Fluir nasceu desta necessidade inconsciente de colocar para fora esse mundo que vivemos, uma religião, de verdade!
1º edição esgotada e agora A número 4, Taiu na capa com foto do Cação (Alberto Sodré). Esgotou, ufa! Acabou em bancas do Brasil inteiro!
Uma batalha ganha, a guerra da sobrevivência ganha. A Fluir consolidada como uma grande revista, a Dinap, distribuidora da Abril, nos olhando com outros olhos, vendo meninos e cifrões. Hoje, olho com brilhantismo e magnitude este caminho de sucesso, de muito trabalho, amor e dedicação dos que trabalharam, deram o seu melhor, e fizeram a revista Fluir chegar até aqui!
2010, edição de nº 300 Chegou uma hora ali que segui meu caminho, solo, na editora Abril, revista Vogue. Voltei para agências de propaganda, fui ganhar prêmios pelo mundo: Cannes, Nova York, Londres e muitos no Brasil.
Me orgulho ter tido a honra de criar esta revista com mais quatro amigos e participar, depois de 38 anos de surf, depois daquela primeira edição em setembro de 1983, desta histórica “edição comemorativa nº 300”, de fazer poder um logo fluido, um 300 de água em movimento!
Um movimento de sequência de mais 300, 400… edições! Parabéns a todos os leitores, colaboradores e a quem dá o sangue para colocar todo mês esta maravilhosa revista nas bancas!
Aloha!
Com 38 anos de surf pelo mundo, Fernando Mesquita é publicitário, artista plástico, fotógrafo e um dos idealizadores da revista Fluir.