O bodyboarder carioca Marcelo Siqueira começou a praticar o bodyboard no final de 1985, na febre da “Morey Boogie”, principal marca de prancha da época.
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Destaque nas competições, o atleta foi durante um bom tempo a “pedra no sapato” do maior bodyboarder brasileiro de todos os tempos, Guilherme Tâmega.
Um dos atletas mais completos de sua geração e dono de uma linha de onda fluida com manobras plásticas, ele se tornou um dos maiores campeões de nossa história.
Hoje, aos 40 anos e morando fora do Brasil, o atleta fala o início de sua trajetória no esporte, motivos da aposentadoria e os momentos mais marcantes de sua carreira.
Você foi um dos melhores atletas que surgiram em meados dos anos 80. Quando percebeu que levava jeito para o esporte?
Meu primo Alexandre morava no Leblon, conhecia o Xandinho, Kiko Pacheco, Carlos Sequeira e tinha um circuito amador no Leblon. Entrei em dois campeonatos e fui até às quartas-de-final. Logo depois, rolou uma etapa do circuito estadual na época no Postinho. Entrei e ganhei na Júnior. Estava na final com o Guilherme Tâmega e outros dois. O Guilherme já estava nas revistas, nos anúncios da Quebra-Mar & Seacat. Foi assim que tudo começou.
Em que ano você disputou seus primeiros campeonatos?
Estes campeonatos foram em 1986. Depois rolou o Redley em Búzios (1986), que eu ganhei também na Júnior. Eu acho que ganhei todos os Redleys que participei.
Quais foram suas principais influências e seus primeiros ídolos no esporte?
Pat Caldwell & Mike Stewart. Estes foram meus primeiros ídolos. No Brasil, depois que comecei a competir, sempre gostei do estilo do Paulo Esteves, Guilherme Tâmega e da linha de onda do Marcos Portinari.
E como surgiram os primeiros patrocinadores?
O Paulo, que era dono da Mr. Polly, morava na minha rua. Ele pegava onda de Bodyboarding e me levava para surfar na Prainha e Macumba. Ele foi o meu primeiro patrocinador. Depois que ganhei o Redley de Búzios, a Redley me chamou para fazer parte da equipe.
Naquela época, com o apoio dos patrocinadores, você conseguia viver somente do esporte?
Quando virei profissional em 89, morava com meus pais e era pago para pegar onda. Viajava 5 meses por ano fora do Brasil e o resto eu competia aqui mesmo. Dava para sobreviver bem, mas naquela época, não tinha que pagar aluguel.
Em 89, em um dos seus primeiros campeonatos como profissional, o Bliss Competition, você foi o responsável pela eliminação do Mike Stewart logo na primeira fase. Como foi este momento?
Foi uma emoção muito forte. Acho que eu tinha 16 anos. Chorei e tudo. Me lembro de uma foto minha que saiu num jornal, abraçado com a Alessandra Malta, minha patrocinadora na época. O mar estava mínimo e ganhei porque dei um helicóptero de três 360. No mesmo campeonato, resolvemos descansar um pouco na casa dos Maltas. Na volta para praia, o trânsito estava horrível e as baterias estavam rolando uns vinte minutos antes do horário previsto. Quando cheguei na praia, faltavam 10 minutos para terminar minha bateria e perdi por W.O..
Quais foram seus melhores resultados?
Fui campeão carioca em todas as categorias (1987 – Júnior, 1988 – Sênior e 1989 – Profissional). Também fui vice-campeão Brasileiro no Amador em 88 e no Profissional em 1989 e 90.
Você era muito amigo das irmãs Nogueira (Mariana e Isabela) e muitos dizem que seu estilo e da Isabela eram parecidos. Poderia falar um pouco sobre esta convivência com a turma da Mari, Bela, Stephanie, Dani, Glenda entre outras?
Eu morava na Barra e não tinham muitos bodyboarders por lá. As Nogueiras e a Stephanie namoravam locais do Quebra-mar, por isso, sempre surfávamos juntos, tanto no Quebra-mar, Postinho ou no Meio da Barra. Pegamos altas ondas juntos, tanto no Rio quanto na Indonésia. Talvez meu estilo e da Isabela ficaram parecidos pela convivência com a turma do surf.
Qual foi seu momento mais marcante no esporte?
Foram as minhas viagens para a Indonésia. Eu tinha um círculo de amigos que sempre viajávamos juntos pelo mundo. Isso foi muito bom.
E o pior momento? A maior decepção dentro do esporte?
Foi quando eu estava com tudo certo para ir à Ilha de Páscoa, com o Xandinho e o Paulo Esteves. O agente da companhia de turismo deveria mandar meu passaporte para o aeroporto, mas nunca chegou. Os dois embarcaram sem mim. Outra decepção foi ver o esporte arrebentar com patrocínios, altos campeonatos e depois perder o interesse de grandes companhias em patrocinar os campeonato. O esporte quase sumiu.
Durante anos você foi a pedra no sapato de Guilherme Tâmega. Como era a convivência entre vocês? A rixa ficava apenas na água ou às vezes rolava umas intrigas fora?
Nunca tive problema com o GT fora ou dentro d’água. Sempre fomos rivais porque queríamos ganhar. Fizemos varias viagens juntos para Austrália, Bali e Hawaii.
Todos diziam que você parecia calmo, frio, dentro d’agua. O GT com aquela agressividade e você com a fluidez. Depois de tantas baterias, tantos campeonatos, você ainda ficava nervoso?
Lógico, mas ficava mais quando era contra o Guilherme, o Paulinho Esteves, o Fabio Aquino. Sempre tive humildade de achar que qualquer atleta poderia me vencer, por isso, sempre entrei para ganhar. Às vezes eu achava que era super radical, mas as pessoas sempre me viam como um cara fluido.
Depois de mais de 20 anos, como é ver o GT ainda nas cabeças? Passa na sua cabeça que poderia estar na ativa ainda?
Fico impressionado com o Guilherme. Ou melhor, sempre fui. Me lembro quando fomos ao Hawaii pela primeira vez. Ele era mínimo e caia em Pipeline com uma Mach 6, uma das menores pranchas da bodyboard. Ele sempre arrebentou. As vezes passa na minha cabeça, mas acho que não conseguiria ficar no mesmo nível que ele está hoje. Ele escolheu este caminho para a vida dele, e pelo visto escolheu bem.
Quando competiu profissionalmente pela última vez e por que resolveu parar?
Como mencionei, nos anos 90, o esporte começou a declinar no Brasil. Fui para Austrália. Tentei lá, mas não tinha muito nome. Tive que arrumar trabalho e continuei a competir. O esporte não era tão desenvolvido por lá. Na época, não tinha um circuito nacional australiano. Tinha um circuito do North Shore, que eu ganhei várias competições, mas os meus patrocinadores nem ligavam muito para resultados. Eles preferiam ver boas fotos nas revistas e sempre me mandavam para a Indonésia.
Você mora fora do Brasil há muitos anos. Quando e o que te levou a sair do nosso país? Hoje, onde mora e o que faz profissionalmente?
Depois de competir dois anos na Austrália, voltei para o Brasil com outra cabeça. Tentei ficar ai, mas voltei para a Austrália. Moro fora do Brasil há 17 anos e 12 foram em Nova York. Hoje, trabalho como designer de roupa. Trabalhei para marcas como DKNY, Calvin Klein, Nautica, entre outras.
No tempo em que ficou afastado do esporte, acompanhou as notícias do bodyboard? Quais são as suas impressões sobre a organização, premiação e evolução das manobras?
Por um bom tempo não segui nada, mas com o Facebook, comecei a me interessar de novo. Minha mãe mora no Rio e sempre me mandava notícias quando saia alguma matéria de bodyboard nos jornais.
Não tenho a mínima idéia de organização e premiação, mas segui o campeonato de Itacoatiara online e achei o máximo.
Ainda pega onda? Caso afirmativo, com que frequência?
Não. A última vez foi em 2007 no Pepino, em São Conrado.
Aparentemente você esta em forma. O que faz para manter-se bem fisicamente?
Sempre fui magro. Teve uma época que vivia em noitadas e festas. Finalmente parei com essa vida e dei uma encorpada. Pratico apenas malhação.
Rolam alguns encontros Masters aqui no Brasil. Você participaria de uma bateria entre os antigos amigos?
Seria um prazer ver todos aí, mas não competiria.
Amigos inesquecíveis Paulo Esteves e Fabio Aquino
Melhor parceiro de trip Paulo Esteves
Maior alto astral Paulo Esteves
Mais chato Xandinho. Adorava reclamar de tudo
Puxava o limite Paulo Esteves e Guilherme Tâmega
Melhor onda que surfou no Brasil Quebra-Mar e Itacoatiara
Melhor trip Indonésia, G-Lang, Mentawai e Sumbawa