
Após muita polêmica e diversas mensagens recebidas pela redação do Waves criticando a prática desordenada e sem regulamentação do tow-in em praias brasileiras, como a sempre lotada Maresias (SP), Romeu Bruno, pioneiro da modalidade no Brasil e experiente salva-vidas do North Shore do Hawaii, dá a sua opinião e assume: “Sei que errei por ter praticado no meio de surfistas de remada”:
“Realmente é muito perigoso fazer tow-in no meio do crowd. Sei que sou culpado de ter feito isso algumas vezes, mesmo sabendo do perigo e do desrespeito com os outros surfistas de remada. Mas, sem maldade, sempre tentamos nos convencer que vai ser só aquela série e não vai pegar nada.
Só que isso está errado e tem que ser corrigido. É como um vício do qual queremos nos livrar, temos que nos conscientizar do problema e ficar atento para não cometê-lo de novo. Acho que chegou a hora de regulamentar o tow-in e já estou trabalhando para isso. Com certeza as regras e punições vão ajudar a eliminar, ou pelo menos, limitar os riscos ao máximo.
Gostaria de explicar algumas situações e aproveitar para defender a prática do tow-in em ondas pequenas, que também é muito proveitoso. Com a ajuda do jet, você entra numa onda de um metro com muita velocidade para fazer a primeira manobra, surfa com uma prancha 5’6″ (na remada é difícil você ver alguém com uma 5’6″, a não ser garotos de até 14 anos), a prancha com alças permite ao surfista fazer manobras aéreas e seguir na onda com mais controle e segurança, além de pegar muito mais onda em menos tempo.
É errado praticar onde tem surfista de remada, mas para quem fala que é palhaçada fazer em merrecas, veja Rodrigo Resende, tricampeão do Big Trip e campeão mundial de tow-in: ele se amarra em praticar nos dias pequenos, se não estiver colocando ninguém em risco! Não fazemos tow-in porque é mais fácil entrar nas ondas, e sim porque a performance em geral é melhor.

Defendendo, ou melhor, explicando mais um pouco sobre o tow-in, tem dias que o mar está com um metro com series de um metro e meio, e em algumas bancadas se forma uma correnteza que empurra para fora bem embaixo do pico das ondas. Na remada o surfista às vezes nem consegue pegar a onda. Quando consegue, manda aquele drop no ar e quando vai para a cavada, a onda foi rápida demais e já fechou.
Neste caso típico, o tow-in resolve o problema e a onda fica viável. Várias vezes estávamos praticando numa bancada dessas sem nenhum surfista, aí a galera vê da praia que estamos pegando boas ondas naquele pico e resolve cair bem onde estamos (sendo que normalmente tem vários outros picos bem melhores ao lado). Aí temos que parar de surfar de tow-in e aquela mesma galera bóia durante duas horas e não pega nada. Falta experiência de anos de surfe, saber ler o mar e entender o que acontece com as correntes, etc…
Claro que isso não é uma justificativa para praticar tow-in no meio do crowd, apenas parte da noção de bom senso que se deve ter. Outra coisa que acontece muito é o erro de interpretação: às vezes nós estamos fazendo tow-in e damos carona para alguns amigos que estão no outside surfando na remada, pois estes têm outra visão e acham que é bom ter os jets por perto.
Quando o mar está com um metro e meio a dois, eles sabem que se tomarem uma pranchada ou baterem no fundo com a cabeça, ou mesmo se forem cortados pelas quilhas, os jets vão resgatá-los e podem salvar a vida deles. Aí tem aqueles surfistas lá na areia, que nem caíram na água e estão comentando: “olha lá, os caras estão fazendo tow-in no meio dos surfistas”, sem saber que são todos amigos, de acordo e seguros com a situação!
Para aqueles que acham que o jet-ski polui e vai acabar com os oceanos, comecem parando de usar seus carros para ir à praia, pois a destruição da camada de ozônio provocada por eles é muito pior. Pior ainda é a poluição causada pelos barcos que pegam os peixes que todos nós comemos. Colocar as coisas na balança, sem exagero, é mais sensato!

Como sempre digo, o jet-ski custa caro, a gasolina é cara, o sled é caro, todo equipamento é muito caro, a manutenção é cara, enche o saco ficar colocando e tirando o jet, é a maior mão de obra e, por isso tudo, acho que nunca teremos um congestionamento insuportável de jet-skis na água. Nada como pegar a prancha, botar o calção, sem depender de um parceiro, e cair na água sem nenhum barulho e cheiro de óleo.
A praia de Maresias é um problema em particular. Lá existem muitas pessoas com poder aquisitivo para comprar jets. Enfim, todos nós temos que ter bom senso. Eu já criei a Federação de Tow-in Surf com o propósito de organizar o esporte e cadastrar todos os praticantes para termos um controle junto ao Corpo de Bombeiros e a Capitania dos Portos. Assim, os próprios praticantes poderão fiscalizar os federados e os novos praticantes, e também punir os infratores.
Também devemos realizar cursos de pilotagem com regras e leis, de resgate, reanimação cardio-pulmonar, teste escrito e carteira de piloto para todos os praticantes.
Isso não vai acontecer da noite para o dia, mas já estamos trabalhando! Na minha opinião, deveria ser criado um espaço de cerca de 500 metros em alguma faixa da praia de Maresias (do lado esquerdo da praia) para a prática do tow-in nos dias pequenos e médios, assim delimitaríamos os jets a uma área só e estaríamos dando o direito de praticar o esporte sem discriminação.
Já conversei sobre isso e algumas pessoas acham que não é justo, comparando a quantidade de surfistas com a quantidade de tow-surfers. Mas, se pararmos para pensar em todas as praias que têm ondas, aí já não fica tão injusto e eu, como surfista, preferiria que existisse uma área para abrigar os jets do que não ter nenhuma e os jets ficarem soltos como estão. Seria muito mais fácil de policiar se tiver uma área delimitada com bóias e placas. Nos dias de dois metros ou mais, onde não tem surfista remando, aí tudo bem, pode praticar fora da área.

Existe uma lei da marinha chamada ‘Norman 4’ que permite utilizar o jet-ski próximo à praia, mas a área tem que ser delimitada com placas na praia e bóia na água.
Quanto aos cursos de tow-in que ministro, a finalidade é ensinar como fazer corretamente, tentando diminuir os riscos e passar experiências de segurança que adquiri em doze anos como salva-vidas no Hawaii, além de cadastrar e poder ajudar a controlar, junto a federação, os praticantes do esporte. Ensino não apenas o tow-in, mas as regras, a ética do respeito mútuo entre os surfistas e banhistas, o resgate e reanimação cardio-pulmonar.
Acredito que mesmo sem o curso essas pessoas iriam praticar o tow-in, porque viram na TV, na revista ou mesmo na praia e quiseram fazer também. É assim que nós surfistas começamos a surfar, vimos alguém fazendo, achamos legal e resolvemos fazer. O curso só ensina como fazer corretamente e mostra os perigos envolvidos e as regras a serem seguidas.
O jet-ski deve ser visto como a principal ferramenta de resgate no mar. Nós surfistas fazemos muitos resgates e cooperamos com os salva-vidas, pois muitas vezes estamos em lugares isolados e acabamos ajudando banhistas e os próprios surfistas.
Para aqueles que ainda acham que o tow-in no Brasil não tem nada haver, confiram em breve as fotos de uma sessão de tow-in na ilha dos Lobos, em Torres (RS). Graças ao auxílio de jet-skis pegamos ondas de 12 pés tão quadradas e ocas quanto em Teahupoo. Agora, graças ao tow-in, temos ondas surfadas no Brasil que estão entre as mais ocas, perfeitas e pesadas do mundo!
E tenho certeza que existem várias outras lages, ilhas e parcéis longe da costa, onde as ondulações chegam a 18 pés, e que em breve estaremos surfando graças ao auxílio do tow-in!

Será que estou viajando ou será que tenho alguma credibilidade devido aos 35 anos de experiência que tenho nos oceanos? Quando realizarmos o primeiro campeonato de tow-in no Brasil, muita gente vai ficar maravilhada com a performance, a dinâmica e a evolução da modalidade!
O mercado leva tempo para enxergar, entender e acreditar na evolução, mas isso é inevitável. Assim como quando lançaram as biquilhas na época das monoquilhas, ou as triquilhas na época das biquilhas!
Peço desculpa àqueles que possa ter atrapalhado no surfe! Paz, respeito, paciência, bom senso, consideração e muito surfe a todos! Deus está no controle!”