Um pouco antes da entrada nas ondas, na corrida para o mar da ilha, furei o pé em um pedaço de madeira fino escondido na belíssima areia – o espinho na rosa branca, o que, estranhamente, não resultou em infecção posterior.
Óbvio: a vibe estava muito luminosa para as bactérias sobreviverem. Não tinha espaço para malandragem.
Posteriormente, a minha especialista em shiatsu e reflexologia definiu o lugar da incisão na sola do pé como o ponto equivalente ao intestino, e intuiu o significado: “o livrar-se das coisas antigas, do passado”.
Os hindus e os espíritas acreditam que nossas almas dão incontáveis bate-e-voltas entre este mundo encarnado e o outro, o Lar Supremo. Passeamos na dor e surfamos o sofrimento, mas no final dos milênios estaremos em pleno Samadhy, na perfeição espiritual.
A ondulação não estava com pressa. O intervalo entre as ondas permitia uma melhor observação do entorno. A água estava perto do ideal, quando quase não se sente que ela está ali.
As nuvens atrás do morro das Astúrias mexiam e reconfiguravam-se como dançarinas indianas, ondulando e retorcendo os dedos finos e elegantes, convocando o sagrado.
Prestei atenção na ausência de qualquer odor e de qualquer som. Algo muito sutil queria musicar, mas ainda não.
As ondas vieram. Linhas de quatro, cinco. Pequenas para médias. Não é o tamanho da alma que determina sua grandeza, como não é o tamanho da onda que determina a abrangência do prazer.
Pode estar pequeno e você estar curtindo o máximo, como pode estar grande e a vibe estar pesada e desumana. Claro que, quando se junta tamanho a significado, massa a conteúdo, aí o negócio potencializa e ilumina.
O sorriso maroto do Eurípedes, naquele outside ao lado ilha, no Guarujá antológico e ontológico, levou minha memória de volta aos outsides de Oahu. Ri muito com as suas histórias e o seu jeito de contá-las. Ele ainda está magrinho e bronzeado, com alguns cabelos brancos autênticos dividindo o espaço das têmporas. Está naquele time que minhas amigas definem como “ainda com cabelo e sem barriga”.
Seus comentários (vejam só!) sobre a prisão que é morar em São Paulo reverberaram o meu estado de espírito com uma sincronicidade atordoante. Dizia como para ele é um sacrifício voltar de vez em quando para lá, e que só o faz porque tem que cuidar da mãe.
“Não saio do apartamento durante três dias”, disse com um sorriso meio amargo, meio sarcástico. “Ela toma uns remedinhos que eu acho que não servem para nada”, completou, cético quanto à medicina alopática, enquanto mantínhamos um olho no horizonte. Procuramos o simples, mas é ele que sempre acaba nos encontrando. O mesmo acontece com a verdade e o amor.
O outro surfista, local das Astúrias, era psicólogo e deu seus pitacos no diagnóstico, na farmacologia empregada e nas condições gerais da mãe do Eurípedes. “Dá resultado sim, segue a prescrição que dá”. Não pude ouvir o final da deliberação porque uma série entrou e eu fui na terceira, que me pareceu mais ajeitada.
Não fiquei sabendo se o Eurípedes alterou a posologia da mãe, mas fiquei realmente feliz em surfar aquelas modestas, porém sinceras linhas, enquanto entre uma e outra trocávamos amizade e piadas, e o sol se punha com a graça e leveza das entidades imortais. Simples, muito simples essa vida no surf.
Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Alamaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com os textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio. Só se encontra quando está totalmente perdido.