Soul Surf

Terça sem lei – Parte IV

Como o goleiro que coça o nariz com as costas da mão esquerda, Sidão também tem o seu ritual antes de entrar na água. Foto: Bruno Lemos.

Já dentro da água, nesta terça agradavelmente sem lei, mas com sentimento (duas entidades antípodas não ocupam o mesmo lugar no espaço do coração ao mesmo tempo), passei vagarosamente a mão sobre todo o perímetro da prancha e pela extensão das três quilhas, por dois motivos singelos:

1) Para detectar alguma eventual rachadura.

2) Para exercer mais uma vez este meu ritual compulsivo, um cacoete antigo que eu cultivo com um grau comedido de neurose.

Assim como o goleiro que coça o nariz com as costas da mão esquerda, estica as meias até o joelho e levanta os dois dedos indicadores para o céu antes de beijar as duas traves e dar um pulinho para tocar o travessão.

Ou aquele jogador de beisebol que, antes de atirar a bola, olha para os dois lados, cospe duas vezes para a direita e uma para a esquerda, pisca três vezes com o olho direito enquanto finge que olha para o batedor, reza algo incompreensível bem baixinho, e torce o corpo fluidamente, como se aquilo tudo fizesse o maior sentido, no exato segundo em que solta o petardo.

Não se preocupem, é apenas um “toque” que desde sempre faz o meu amigo Dôdo rachar o seu bico germânico. Como sempre, não havia nada errado com a boia, portanto pulei sobre ela ainda no raso, remei com gosto e quase passei por cima de uma mulher gorda que saiu inesperadamente do seu mergulho rejuvenescedor.

O meu cabelão estilo Bill Clinton molhou na segunda série melhorando a visão geral, e assim fui chegando perto dos dois surfistas que olhavam para o horizonte despreocupadamente, sem sacar a minha presença.

Quando cheguei mais perto: surpresa! Um dos caras era o Eurípedes! Um amigo que eu não via desde uma das primeiras enchentes na confluência dos rios Tigre e Eufrates, quando ainda éramos guerreiros caldeus na Mesopotâmia de Assubarnípal – soberano respeitado e ao mesmo tempo implacável com dissidentes, como puderam constatar os rebeldes de Chamás-Chum-Uquim, derrotados com triste fim numa guerra civil, como descreveu o próprio Assurba:

“Eu alimentei com seus cadáveres, cortados em pedaços pequenos, cães, porcos, abutres, águias, os pássaros do céu e os peixes do oceano.”

O cara, apesar de amante do oceano, não era de contemporizar. Bate-e-volta eterno para os insurgentes. Mas, voltando ao Eurípedes, pude sacar o clima da sua 7’10’’ square-tail, very hard bordas em três descaídas em faca para cortar as ondas sem piedade, à lá Assurbanípal. Ele boiava naquele outside como se tivesse nascido ali.

Embaixo do bico da sua gun nervosa jazia um pequeno ramo de samambaia “renda portuguesa” colado com resina. Achei poético.?Eurípedes (nome fictício, já que o personagem em questão prefere permanecer no anonimato e tem horror à exposição indiscriminada que a internet oferece…) portava uma roupa de borracha com a aparência bem confortável, apesar dos buracos e de ter estimadas décadas de uso, lindamente puída e desgastada, com jeito de um acolhedor pijama de estimação de borracha.

Para alguns, o surf parece ser a única ligação com uma sanidade precária. Não para ele. Sempre o achei muito sincero. Como todos nós, fica perplexo com as eternas perguntas sem resposta da humanidade – “Quem somos? De onde vem todas essas ondas? Para que serve o surf, afinal?”, a diferença é que ele demonstra essa perplexidade, não faz pose de “tô sabendo…”, a não ser quando dropa, mas aí tá valendo, porque é natural.?

Conhecemos-nos melhor na primeira trip de todos nós para o Hawaii, em 1975 / 76, ou seja, ainda muito próximo da época do banho de mar dos assírios. Acho que já contei essa história, mas vale resublinhar: no Hawaii o cara tinha uma cachorra vira-latas adotiva que sempre vinha de cabeça baixa, em silêncio, arrastando as patas e o rabo pelo chão, quando a chamávamos, o que lhe rendeu o nome de “Humildade”.

Os traumas de infância da Humildade foram largamente compensados pelo carinho do Eurípedes durante os meses que quase morríamos e renascíamos diariamente em Pipeline e Sunset de manhã, em Laniakea e Jocko’s à tarde, e, eventualmente, em Kahuku ou Mokuleia se o vento estivesse Kona (onshore ) no resto do North Shore.

Sou obrigado a concordar: “As coisas que têm realmente valor o dinheiro não compra”. E já que hoje estou cheio de frases, inspirado pelas miragens de viagens e ondas, lá vai outra: “O dinheiro despendido numa viagem é o único gasto que te deixa mais rico”.

Não lembro se o grande Horácio já shapeava na sua oficina no morro de Pupukea nessa época, mas com certeza foi logo em seguida.

Lembrei-me desse outro simpático irmão quando ele, recentemente, me enviou umas fotos de uma prancha gun lilás maravilhosa com “pin-line” – fino e delicado detalhe em tinta colorida que disfarça a junção dos tecidos de fibra de vidro em cima da prancha – caprichado, por meio do meu mais recente amigo, o Alex Miranda, da produtora paulistana Trator ( “e seus Arados” ), dizendo:

“Essa é pro Sidão”. O Horácio ficou por lá, vivendo o sonho das ilhas. Nós ficamos por aqui vivendo o pesadelo paulistano. Acho que ele foi mais esperto. Fico pensando o que deveria ter sido a vida do Horácio nos últimos 30 anos naquele vibeira havaiana. Honra total receber essa intenção carinhosa feita de poliuretano, fibra e pin-line do renomado artesão do North Shore.

(continua)

Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com os textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio. Ama o passado, de vez em quando está presente, apesar de estar quase sempre sendo jogado para o futuro.

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