Soul Surf

Terça sem lei – Parte III

Pitangueiras, Guarujá, local de muitas histórias de surf. Foto: Aleko Stergiou.

“Quantos corações viajam sem porto pelo tempo da vida? Quantos se reconhecem nos dias e no espelho?? A quem devemos pedir permissão para ser senão para nós mesmos?? A nossa presença é sempre divina, e se olharmos somente para ela, só por alguns momentos, os segundos que bastam para nos alimentarmos, chegaremos ao nosso lar, dentro, profundamente dentro dessa pessoa que nos pensa”.


Terça sem lei – Parte III

Finalmente cheguei à familiar vibe da vila guarujaense e seu inigualável cheiro de pitangueira com ar marinho. Esperei o elevador com impaciência e, depois de contar os andares, quase quebrei a chave na fechadura.

Entrei no apê, chutei imediatamente as havaianas para cima da TV logo na entrada da sala – uma enganchou na antena -, enquanto tirava ao mesmo tempo a camiseta e o jeans manchado de molho de barbecue.

Sem olhar no espelho, passei o protetor solar bem mal passado ao mesmo tempo em que dava um gole na garrafa de água já morna da viagem. Abri e tirei a lycra da mochila, – não sem antes da desgraçada enroscar no zíper -, e corri para tirar o pó do long-john entrincheirado na garagem, parecendo um desanimado fantasma sem cabeça.

Com o pequeno raspador preto cunhado pelas sereias na oficina-mosteiro de Netuno na mão direita, executei o deck em finas camadas, já desejando a sensação de água salgada na pele.

Faltava a parafina! Passei na loja do Fukuda e da Patrícia, e com o suor correndo na velocidade do coração comprei uma “pra calor” com os únicos cinco reais que levei para a praia – bem menos que o Lenine.

Atendeu-me a sobrinha da Patrícia, a recém-mãe Maria Eduarda, aliás, muito bonita, simpática, e com uma personalidade – deu para notar -, forte.

O mar tava o quê? Dois pés e meio, três e três quartos? Não sei. Só sei que só tinha dois caras na água ao lado da ilha, sob um sol de ofuscar jacaré. No meu tempo de moleque a ilha não tinha essa única árvore que agora nos fitava de longe, nem esses tantos prédios que me fitavam tão de perto, com suas sombras no meu encalço a caminho do mar.

Finalmente pisei as areias mais brancas e macias do mundo, que continuavam ali naquela linda praia, apesar dos assaltos na areia e no calçadão serem hoje mais constantes que swell nas Mentawaii, e do saneamento básico ser mais para trifásico, com seus choques epidérmicos sujeitos a manchas na pele e micoses ocasionais durante todo o período.

Mais tarde, na frente da praça, vi uma velhinha de vestido estampado e óculos de aro grande quase lhe caindo do nariz avermelhado, correndo pelo meio da rua.

Gritava com uma voz ao mesmo tempo estridente e sofrida: “Pega ladrão! Ele me roubou, ele me roubou!” Só deu tempo de ver o moleque parrudo, sem camisa, com a sua bike da hora – provavelmente também fruto de furto -, com a bolsa vermelha balançando numa das mãos, voando, pedalando a magrela a milhão até desaparecer na próxima esquina.

Alguns transeuntes mais próximos tentaram alcançá-lo, em vão. “Caras” autoridades municipais: tenham piedade do Guarujá. O respeito pela integridade física dos cidadãos é o básico do básico num país, nem que seja supostamente civilizado. Quanto custa uma segurança melhor na área? E quanto valorizaria todo o município, aumentando o fluxo de turistas e os recursos a serem arrecadados se esse pequeno investimento fosse feito?

Na penúltima vez que estive lá, há uns quatro meses, desta vez em um final de semana, fui testemunha de uma cena muito similar, com pessoas correndo pela areia atrás de um cara que corria em zigue-zague entre os guarda-sóis com um relógio roubado.

Daquela vez pude ver os PM’s, logo depois, colocando três caras grandes de joelho na areia, enquanto perguntavam: “Cadê o relógio?”. Cena de filme. Algo entre um Cidade de Deus light e um Tropa de Elite soft – pelo menos não houve tiroteio. Desculpem: o número de policiais ainda não é suficiente.

Milhares de pessoas com poder aquisitivo maior estariam querendo não só visitar, mas morar no Guarujá, se houvesse uma ação efetiva para sanear essas pragas crônicas. Os próprios moradores dizem: “Depois das 10 da noite é melhor não dar bobeira no calçadão…”.

Quer qualificar ainda mais o público visitante no Guarú, além de melhorar a qualidade de vida da população nativa, que é o principal objetivo? Invista mais, muito mais, em segurança e saneamento. Que tal, caros servidores públicos – ainda e tão importante quanto -, serem lembrados com orgulho pelos seus filhos, netos e bisnetos, como participantes de uma administração que revolucionou o caos existente na segunda década do século XXI nesta preciosa ilha de Santo Amaro, e fez o mitológico Guarujá renascer?

(continua)

Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com os textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio. Além disso, talvez dê para notar: ama o Guarujá.

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