Importante frisar, como um caprichado pin-line de pensamento, que o conceito do “bate-e-volta” não se restringe a perpetrar o ato no mesmo dia ou a uma distância regida por limites. É mais uma questão de distanciamento interno.
Dei um bate-e-volta de uma semana à Boca Del Toros, Panamá, em fevereiro, a sete horas de voo do aeroporto de Cumbica (SP), por exemplo.
Talvez o meu amigo, o lendário shaper carioca Horácio, esteja fazendo um bate-e-volta de 30, 40 anos, ao Hawaii. Mas não creio. Ele migrou mesmo. Fez sua vida no 50º estado norte-americano.
O importante não é somente voltar, mas sim voltar diferente do que quando se foi. O bate-e-volta predispõe que haja uma base fixa que assumimos como nosso “lar”, e que a partir dela todos os pontos do universo são atingíveis, desde que a ela retornemos.
Neste sentido podemos dizer que os drogados fazem o bate-e-volta constantemente, até o momento em que perdem em definitivo a referência da base, de quem são e onde estavam, e aí: bate mas não volta.
Pairam sem rumo não em outro lugar fixo, mas no limbo entre mundos, numa dolorosa fragmentação do “eu”. Parece-me uma boa descrição do inferno.
Dica cultural pertinente: meu amigo Marcos Prado, o produtor de Tropa de Elite I e II e diretor do fantástico documentário “Estamira”, explora o universo das drogas artificiais no seu filme “Paraísos Artificiais”, a ser lançado no final do mês.
Nesta terça à tarde, no entanto, a descida na rodovia dos Imigrantes foi sensacional. Eu estava exultante, com a ajuda do Lenine, que tocava a mil: “Quanto foi? Quinhentos reais…”.
E como esse texto é uma frondosa árvore lisérgica com inúmeras e inesperadas ramificações ácidas e agridoces que surgem do passado como gêiseres vulcânicos, lá vai mais uma sinapse: o Lenine é o digno herdeiro de Chico Science, um maravilhoso músico também pernambucano que conheci na década de 1980, alguns anos antes da sua morte, em 1997.
Trocamos expertises: ele me cedeu uma música para um clipe da OP e eu lhe dei, a pedido dele, umas roupas da marca. O escambo dá um prazer bem diferente da simples compra-e-venda com dinheiro.
Significa. Você troca algo seu, pessoal, sua arte, com a do outro. Existe uma densidade palpável nessa troca. Esse fato foi o inverso do que aconteceu em Bali no ano passado – mais uma ramificação dessa mente mangue-beat -, quanto eu dei um show de violão no restaurante da Made, em Seminyak, Bali, em troca da especialidade da casa, o melhor Nasi Kampur da ilha – um mix de legumes, carne de vaca, frango, peixe, camarão e arroz balinês, com o molho secreto da Made. “A gente só dá o que tem, Made…”, disse à ela enquanto a “dona da ilha” abria o seu famoso sorriso acolhedor… “Oh, Sidão! So gooood!”.
Mas vamos em frente, de volta ao tronco principal da narrativa: descer numa terça-feira não tem nada a ver com descer numa sexta. É outro planeta, não só de tempo como de percepção da realidade. É como se eu, repentinamente, tivesse me permitido ser livre, tivesse quebrado as correntes de décadas de culpa sem sentido, acordado de um sono cheio de torpor e aterrissasse numa alforria de sol e ondas. Eu estava pleno.
A consciência é o oposto da droga, mas o barato é muito mais intenso e duradouro. Lenine continuava bombando: “Quando o mundo pede um pouco mais de calma, quando o corpo pede um pouco mais de alma…, a vida não para”. Pensei que estar consciente, lúcido, é o antídoto da droga.
Nos tira da droga da inconsciência em que vivemos. Contra-veneno mortal. Na serra o sol dava umas bicadas, tirando pedaços de nuvens, enquanto afiava suas unhas amarelas nas árvores da Serra do Mar. Esse é o caminho que todos buscam para se voltar a quem se é: a trilha da consciência.
Grandes cientistas já disseram; percebam: cientistas, não monges: “Se tiver que exercer somente uma atividade durante o dia, medite”. E perceba a vida. É um instrumento poderoso para se retomar a alma, e, no processo, se conseguir um pouco mais de calma.
(continua)
Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Almaquarica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com os textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio.