Soul Surf

Terça sem lei – Parte I

Sidão Tenucci reflete sobre a insanidade de São Paulo. Foto: Renato dos Anjos.

Soul Surfer não pensa duas vezes e desce a serra sentido Guarujá. Foto: Silvia Winik.

Duas semanas atrás, em uma atitude vintage, fiz um bate-e-volta clássico tão inesperado quando prazeroso para o palco da minha infância e adolescência nas ondas: o Guarujá, Ilha de Santo Amaro.

Eu já estava há semanas imerso e catatônico na insanidade de Sampa, e parecia que, também naquele dia, não haveria mais salvação.

Era uma terça-feira sem lei e sem perspectivas, quando, por alguma espécie de milagre de chamamento das águas combinado com um sinal divino maliciosamente permissivo, a minha agenda da tarde apareceu aberta e vazia à minha frente. Conferi mais uma vez: realmente, nada ali.

Nossa! O que fazer com esse vácuo inexplicável? O meu primeiro sentimento foi uma incômoda angústia, o segundo um impulso automático de – paulistano viciado – tentar preenchê-la rapidamente com algum compromisso profissional “relevante”.

Nessa hora o anjo da sanidade soprou no meu ouvido esquerdo, e eu consegui dar duas, três respiradas profundas, o que me fez parar e refletir: “Porque ter que sempre preenchê-la? Porque não lidar com o fato zero como ele se apresenta?”, pensei.

O sol lá fora gritava: “Liberdade!”, e outra voz, ainda mais forte, dizia: “Tá fazendo o quê parado aí?”. Foi neste momento que me veio a ideia de gênio: “Vou dar um bate-e-volta e pegar algumas ondinhas no Guarú!”.

O que é corriqueiro para cariocas, baianos, cearenses, catarinenses, entre outros, é quase tabu para os paulistas, muito menos pela localização geográfica do que pela arraigada cultura europeia da servidão / produção, de um exagerado senso de dever meio torto coalhado de ambição, amor e medo.

Esse sentimento fez de Sampa a maior maravilha e a maior excrescência econômica da América Latina.
Surfar durante a semana! Tão fácil e tão impossível. E imagine ainda confessar aqui por escrito?! Comecei esta prática milenar quando ainda estava na escola.

Há registros que os assírios do século VII A.C. iam e voltavam entre Damasco e Sidon no mesmo dia para se refrescarem nas águas do Mediterrâneo. Na época do descobrimento, os tupinambás viviam dentro da água. O bate-e-volta para o útero-água, entre o mar, o rio e a aldeia era executado inúmeras vezes no mesmo dia.

A prática do bate-e-volta foi retomada e desenvolvida, através de regras não escritas, por visionários paulistanos na década de 1960/70, que não viam sentido em sobreviver na selva/mangue/deserto de pedra sem que houvesse, pelo menos, alguns momentos de vida real fora dela.

Longe de mim (nunca tinha usado essa expressão que soa tão falsa) querer definir os limites entre o ócio irresponsável e o responsável. O dever e o prazer são apenas dois dos pequenos itens éticos perdidos e confusos dentro da multipolaridade moderna.

O barulho dos aviões descendo em Congonhas me incomodou. A vontade de ir aumentou. “Fazer o dever com prazer e o prazer com merecimento”, mais que um pensamento, foi um sentimento que me invadiu.

Confesso que na adolescência, eu e o meu amigo Alex Dumont, o Montanha, pegamos altos finais de tarde no Morro do Maluf e, não sei por que, principalmente nas míticas quartas-feiras. Se me arrependo? Sim, me arrependo de não ter ido mais vezes.

A sensação de matar aula de matemática enquanto as direitas entravam no canal era como roubar um beijo da garota mais linda da classe e ainda receber um sorriso de volta.

Minha mãe estranhava o bronzeado repentino, o que eu tentava – e muitas vezes conseguia -, atribuir ao futebol no pátio do meu colégio, o Liceu Eduardo Prado (“Entra burro sai tarado” – ditado estranhamente profético).

Eu sempre passava de ano, portanto o raio cósmico atirado contra quem mente e as sequelas previstas no estatuto do praticante do bate-e-volta não se aplicavam a mim, certo? Semi-errado.

Não nego que uma pequena dúvida ainda sobrevive lá no fundo, para vocês verem como a cultura é composta de milhões de cracas que grudam nas nossas consciências pétreas e das quais não nos livramos tão facilmente.

(continua) 

Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio.

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