Silvia Nabuco afia o surf em mais uma temporada no North Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Silvia Winik.

Cheguei há algum tempo de mais uma temporada havaiana, talvez a melhor de todas para mim até agora.

 

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Logo no primeiro dia, tive uma surpresa, pois fiquei instalada na cara do gol em Pipeline, na casa que pertenceu ao lendário Gerry Lopez e ao waterman Lard Hamilton.

 

Foi emocionante estar hospedada no local, vizinha à casa da Volcom e também do cantor Jack Johnson. Logo pensei que aquele lugar tinha muita história pra contar.

 

A casa pertencia a Mike Estrada, experiente

Silvia a caminho de mais uma queda. Foto: Lika Maia.

corretor que na baixa do mercado imobiliário adquiriu o imóvel, além do localizado à frente e também o do lado.

 

O imóvel de frente para a praia abriga, na época de campeonatos, eventos importantes como o WQS e o WCT em Pipeline. A casa dos fundos, geralmente é alugada, inclusive por brasileiros.

 

Mas, durante nossa estadia ele fechou um ótimo negócio com a Volcom e vendeu a casa por sete vezes o valor que havia pagado.

 

Ele é muito legal e nos deixou desfrutar de sua varanda que proporciona a melhor visão de Pipeline. Era viciante olhar aquele visual mágico. O fato de estar posicionada bem em frente ao pico, funcionou como um aditivo para encarar essa temida onda.

 

A realidade é que o Pipe sempre esteve fora dos meus planos devido ao crowd de locais e das paredes verticais que se transformam em tubos maciços. Fora a pouca profundidade e o número de acidentes ali ocorridos.

 

Mas, com o tempo o cenário foi se transformando e ficando mais favorável para eu arriscar algumas quedas. Logo no primeiro dia, a Michaella Fregonese e a Alice Santos me chamaram para cair.

 

E eu fui, pois desafio é comigo mesmo. Daí pra frente, fui caindo em mares cada vez maiores e me acostumando. Cheia de coragem, cheguei a surfar em um mar com ondas de até 15 pés que quebravam no terceiro reef. Nesse dia tinha tanta gente na praia, em frente a casa, que eu e a Mica entramos três casas à esquerda.

 

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Silvia Nabuco solta nas ondas do North Shore. Foto: Lika Maia.

Quando você entra, a correnteza te joga para a direita como num rio violento. Dali tem que remar o mais rápido possível para fora.

 

Neste dia algumas ondas se formavam ainda no terceiro reef. Quando isso acontecia, eu remava muito forte pra fora e às vezes passava no limite. Muitos eram varridos nestas séries. Esse foi o único dia que não peguei nenhuma onda.

 

Aliás, poucos conseguiam dropar com aquele tamanho e um vento terral fortíssimo. Remei em várias ondas, mas o vento jogava um spray violento que cegava tudo.

 

Hospedada na cara do gol, a surfista pega a manha de dropar Pipe. Foto: Arquivo pessoal.

Apesar de não ter surfado nenhuma, me debruçava no lip para ter a incrível visão de quem passava por baixo no drop.

 

Dali se tem a imagem de como é vertical a parede de Pipeline. Mas, valeu a lição e a experiência. Até para saber como dar joelhinho com uma prancha 8 pés usada somente nesse dia.

 

No dia seguinte, o mar tinha baixado para 8 a 10 pés, e o psicológico estava fortalecido. Então, me soltei muito e peguei várias ondas, com mais confiança.

 

Minha maior inspiração era o carioca Stephan Figueiredo, meu companheiro na equipe MCD. Via ele entrando nos salões com a maior tranqüilidade. Sempre procurava cair junto, ou mesmo perguntar qual tamanho de prancha usar.

 

A partir daí nasceu uma vontade grande de surfar bem essa onda. Isso significava ter confiança, saber os limites, ter um drop rápido e colocar no trilho para entubar. No começo, dropava e via aquele lip se formando na minha frente. E a reação era ir para fora do tubo. Depois de quase três meses surfando lá, consegui entender a onda melhor e ficar por dentro das que me sentia segura.

 

Cada dia no Hawaii é uma emoção diferente. Seja surfando, ou participando de eventos promovidos pelas marcas, caso de festas de comemoração e shows. Assisti ao do Pearl Jam e Kelly Slater e também a uma apresentação da cantora Lauren Hill.

 

Fiz uma trip com a Michaela e a fotógrafa Lika Maia para o Kauai para surfar e curtir o evento promovido anualmente pelos irmãos Irons.

 

Surfamos em Hannalei Bay, uma direita longa com um visual incrível e um clima amigável no mar. Mas, nos picos  mais casca fica muito difícil quem é de fora surfar devido ao localismo.

 

Outra situação diferente enfrentada nesta trip foi a participação no WQS em Sunset como caddie do Marcelo Trekinho, de última hora. Enquanto todos os outros caddies utilizavam rádio dentro d’água para passar informações para os atletas, pois não se ouvia as notas, eu estava ali, de improviso, vestindo inclusive uma bermuda do Treko.

 

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Silvia Nabuco, North Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Silvia Winik.

Ele quebrou a prancha e eu fui lá para o meio trocar. Graças a Deus ele passou em primeiro na bateria e o Kai Garcia veio de jet-ski me pegar.

 

Na temporada, caí em Waimea duas vezes. Também surfei pela primeira vez um pico chamado 3º Deep, localizado depois de Makaha. A onda é tubular com fundo de corais cabeçudos e muito raso.

 

Nesse dia o mar apresentava ondas de 2 metros tubulares. Havia uns 10 surfistas no mar, entre eles Makua Rothman, Melanie Bartels, entre outros. Surfei com a Mica e a

A atleta atua como caddie do carioca Marcelo Trekinho durante prova do WQS. Foto: Arquivo pessoal.

bodyboarder Samantha Moreno porque fomos com um amigo havaiano.

 

Tomei duas vacas feias na temporada em Sunset, com ondas de 4 metros. Cai do lip com o leash enrolado no pé e fui batendo na prancha.

 

No outro, comecei a entubar, mas vi que o tubo não tinha fim e resolvi sair. Só que o lip bateu nas minhas costas. Era tão pesado que parecia uma trombada. Mas, só fiquei dolorida.

 

Enfrentei momentos de alegria e tristeza. Um surfista sumiu em Pipe no fim de tarde em um mar de 10 pés. Ficamos a noite e o dia inteiro escutando e vendo os helicópteros procurando o corpo que não apareceu.
 
Também vi algumas brigas no mar. Mas, acho que já está bem melhor o convívio entre os havaianos e os brasileiros. Vi a nova geração se entrosando com alguns locais naturalmente, inclusive em um churrasco que promovemos de despedida de uma amiga.

 

Para minha surpresa, mais de 30 brasileiros conversaram superbem entrosados com havaianos como Makua e Kala Alexander. Tomara que seja positivo para o surf, e principalmente para surfar ali.

 

Notei que a nova geração está muito mais saudável e antenada. Não ficávamos só no surf. À noite, do outro lado da rua, havia duas quadras de tênis públicas, onde a galera formava duplas, caso do Bruno Santos, Robson Santos, Junior Faria, André Silva, Heitor Pereira e mais alguns amigos. Rolava também futebol entre os brasileiros, franceses e tahitianos, que são bem amigos.

 

Também passamos por dois sustos com alarmes de tsunami. O primeiro falso, mas como vimos toda galera da Volcom House e o Kai Garcia mandando a galera evacuar a área, fizemos o mesmo e fomos dormir na Pupukea, única montanha ali perto.

 

Na segunda vez, acompanhamos pela tv a notícia de um terremoto no Japão, que poderia gerar uma onda gigante e atingir o Hawaii. No entanto, duas horas antes do programado deram a notícia de que ela não se formou e dormimos em paz.

 

Depois que toda a galera do WCT e WQS foi embora para as festas de fim de ano, ficou um pouco melhor surfar ali. Vi muitos tubos insanos de brasileiros como Stephan e os mais novos como Wiggolly Dantas, Ricardinho Santos, Kiron Jabour, entre outros. Fizeram bonito!

 

Meu último dia foi fechado com chave-de-ouro pegando um tubo para Pipe. Depois fomos a uma fazenda particular do Estado para fazer um ensaio fotográfico para uma revista.

 

A modelo foi a longboarder Marcela Duarte, eu atuei como produtora e a Lika Maia fez os cliques. O lugar era maravilhoso, totalmente virgem e deu pra notar que tem ainda muitos picos assim no Hawaii.

 

À noite rolou uma despedida com direito a karaokê e jogo da verdade. Fechei a trip com muitas risadas.

 

Aloha!

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