Existe limite para uma onda ser surfada? Até agora, pelo o que vi, pode existir. A onda é Teahupoo.

Após o Human Teahupoo challenge (que foi, sem duvida um dos melhores da história), fica a questão: 

 

Qual é o limite entre a razão e a sanidade?

Enquanto Pipeline tem a sua beleza, sua plástica, sua perfeição (e seus riscos, é logico), Teahupoo é a maior expressão do perigo, da visão assustadora e do poder de uma onda, quebrando em cima de uma bancada de coral.

Chegamos no Tahiti e a janela de espera, começava no dia seguinte. A previsão
não era boa e só teria marolas nos proximos dias. Quer dizer, marola pro lugar. Ondas de 2 a 4 pés em Teahupoo, são a própria perfeição. Uma onda bem surfável e com um tubo lindo.

Aliás, se o Tahiti não for o lugar mais bonito do planeta, está entre os mais. A água cristalina, as montanhas, as ondas perfeitas. E uma população tão amigável e hospitaleira, que até assusta. Nós, que estamos acostumados com tudo de ruim, nos encontramos com tudo de bom… É uma lição que todos do planeta deveriam ter: visitar o Tahiti é voltar para o mundo com outra cabeça.

Ficamos esperando um swell gigante, vindo da Nova Zelândia, mas no meio da semana,
acabou desviando e chegou pequeno. Enquanto isso rolavam as triagens, que classificou três bodyboarders locais.

Como que por ironia do destino, um poderoso e consistente swell chegaria nos
ultimos dias da janela. Já era domingo e a apreensão ficava cada vez maior.

Na segunda, fizemos o check in, as 6 da manhã, de dentro do barco que saia da Marina. O swell não havia entrado. Vetea David, o Poto, que é o chefe dos  salva vidas do Tahiti, nos falou que chegaria mais a tarde. Realmente, depois das duas da tarde, o mar tinha de 6 a 8 pés sólidos. O dia seguinte prometia.

 

De madrugada fomos checar e a visão já era outra. Ondas de 8 a 10 pés consistentes.
É onde Teahupoo mostra a sua cara. Uma onda de energia oceânica, que nasce
preta e assustadora, meio que no nada, e roda em cima da bancada. Explodindo
em uma baforada animal.

Depois disso, tem que sair da onda, pois ela fecha e vai para a parte mais rasa
da bancada, com água abaixo dos joelhos.Não da pra comparar com nenhuma onda no mundo.

Só estando lá, para entender que as histórias contadas pelos locais sobre o lugar são verdadeiras. Não foi a toa, que Vetea David, gastou quase duas horas explicando como se portar e como respeitar todas as normas de segurança e principalmente para respeitar o lugar.

Mortes, mutilações, acidentes terríveis. Mas parece que isso nao foi levado em conta por quem surfa aquela onda. Já na primeira bateria do primeiro round, Simon Thornton dropa uma bomba de 10, 12 pés. Tira um tubo cavernoso, fazendo uma media 8,75 e abrindo o campeonato com chave de ouro.

 

Essa bateria foi uma das melhores do primeiro round. Mike Stewart, tirava os tubos com muita consciência e, GT,  bem ao seu estilo, se largava nos tubos profundos e em manobras arriscadas. Uma dessas ondas foi animal, Tâmega mandou um ars animal, na boca do tubo, muito alto. E ainda completou a onda com um rollo.

 

E o melhor ainda estava por vir, o mar continuava subindo e as séries ficavam mais consistentes. Não dá para ficar citando nome por nome. Seria necessário uma
edição só das ondas. Destaque para os brasileiros, que se jogaram nas ondas. Hermano botou pra baixo em uma bomba. Encaixou em um tubo monstruoso, mas acabou ficando la dentro. Levou a galera ao delirio.

E o nosso outro representante, Paulo Barcellos simplesmente pegou uma das
maiores ondas do dia, com 10, 12 pés sólidos, fez um drop animal e conseguiu,
no ultimo momento, a cavada salvadora dentro de um dos maiores tubos do
campeonato, o que lhe valeu a média 9,33. Fazendo a galera gritar de novo.

Todos falam que Teahupoo é uma onda que muda a vida de quem a surfa nessa
intensidade. Os grandes destaques do campeonato foram o aussie Damien King e o havaiano Kainoa McGee. Os dois simplesmente não tomaram conhecimento do perigo. E domaram as maiores ondas do evento

Enquanto Damien dominava tubos gigantes com extrema confiança e
serenidade, Kainoa impressionava pelos gritos que vinham de dentro dos tubos mais profundos e gigantes, sendo que um desses foi de Drop knee.

Mas foi no segundo round que o australiano garantiu a vitória. Pegou a maior e melhor onda do campeonato. Tinha 12 pés sólidos. Damien botou pra dentro do tubo, acenou para a galera, sumiu na baforada e saiu depois dela. levou o crowd, já alucinado, ao delírio total. Nota 10 unânime e a vitória do Human Teahupoo Challenge

No dia seguinte os organizadores decidiram tentar a realização do terceiro round. O mar estava diferente, com 12 pés constantes e uma previsão de subir ainda mais. Algumas ondas estavam tortas. Em uma dessas series tortas, o barco dos juízes, que é o que fica mais perto da zona de impacto, quase não conseguiu varar a ondulação, correndo sério risco de ser  arremessado para trás, direto na bancada de corais. Nos salvamos no último segundo. Só para se ter uma ideia, alguns dias antes, um barco com atletas virou em outro pico. O timoneiro fraturou a bacia, um fotógrafo quebrou o pé, Jazon Hazle se ralou todo nos corais e o barco foi destruído. Isso num mar de 3 pés.

Tanto eu quanto o Bruno fomos unânimes em apontar esse momento como um dos
mais sinistros e com risco de vida para toda a tripulação. Como o dia já se desenhava sinistro, na terceira bateria, o acidente que pararia o campeonato. Isso depois de Mike Stewart ter um dez unânime e Kainoa Mcgee assombrar em sua bateria.

 

Guilherme Tâmega foi para o tudo ou nada, ele sabia que precisava de uma onda animal para chegar nas cabeças. Colocou para dentro de uma onda com 8, 10 pés, muito profunda e rasa. Tirou um tubo muito longo e seco. E saiu arriscando um rollo inacreditável. Simplesmente em cima da parte mais rasa da bancada. O lugar onde todos geralmente abandonam a onda. Horrorizando a todos, inclusive Vetea David, que já prevendo o pior, “voou” com seu jet ski para a zona de impacto, afim de resgatar um seriamente acidentado GT, que saia do campeonato com um corte abaixo do joelho, alem de outros pequenos ferimentos.

 

O corte foi tão profundo que ele precisou ser operado para retirada dos corais que ficaram presos no interior do ferimento. A direção do campeonato ainda pensava em manter o round, mas Bruno Calheiros, head judge do evento, com toda a sua experiência, e preocupado com a segurança dos atletas, pediu uma reunião com Vetea David e a equipe de segurança, para saber das condições. Vetea recomendou que o round fosse cancelado por falta de segurança.

Sendo assim, o resultado veio dos dois rounds do dia anterior. Nesses 15 anos de julgamento, pensava que nada mais me surpreenderia, tive a oportunidade de perceber que o bodyboard e um esporte sem limites. Mas se existir um limite, esse limite poderia se chamar Teahupoo. Pessoalmente gostaria de fazer um comentário nessa coluna:

Sobre o episódio do texto de cancelamento da etapa do Rio, peço desculpas
por toda repercussão. Não quis de forma alguma desmerecer nossas autoridades politicas que fazem grande esforço para melhorar a nossa cidade em todos os setores. O fato é que estava em um local sem nenhuma infra estrutura de comunicação, os fatos chegaram de maneira equivocada e fui pressionado por todos os lados. Chegavam equivocados e saiam equivocados, o que gerou alguns transtornos, que já foram resolvidos.

O que mais me surpreendeu, foi não ter visto nos comentários, palavras de apoio a minha pessoa, nem mesmo daqueles que “pareciam” sempre estar do meu lado. Acho que em todos esses anos, contribuí muito para o esporte. E me surpreendeu a falta apoio. 

 

Tapinha nas costas quando estamos certos e nos criticar atrás de um computador, sem realmente saber o que aconteceu lá fora. Estava defendendo a imagem das nossas organizações, do nosso país e dos nossos atletas (é o que tenho feito nesses últimos anos). É nessas horas que a gente sabe com quem pode contar.

Um abraço e até Shark Island.

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