
A Surfrider Foundation, organização não-governamental sem fins lucrativos que cuida da preservação das praias e oceanos em todo o planeta, possui sede nos EUA, mas está presente e ativa em vários países do mundo, como Austrália, Japão, Europa e Brasil.
Aqui ela chegou através de um grupo de surfistas, entre eles Rosaldo Cavalcanti, Rômulo Fonseca e Cadu Vilela, que entrou em contato com o escritório central da Surfrider em San Clemente, Califórnia, e pediu autorização para iniciar as atividades no Brasil.
Dois diretores executivos passaram pela ONG – Leonel “Nuna” Canto e Melo e Helmo Carvalho – antes do carioca Guilherme Fernandes de Araújo assumir. Foi justamente em um momento que o cargo ficou vago que Guilherme, ou Guil, como é conhecido, ingressou na Surfrider.
No cargo de diretor executivo da entidade há cinco anos, Guil pode ser definido como um cara idealista, pois dedicou preciosos anos de sua vida a uma causa de grande importância para todos: a preservação de nossas praias.
“Morei sete anos na Austrália, onde trabalhei na Surfrider Foundation de lá. Na verdade, aqui no Brasil eu era provavelmente o único que possuía experiência concreta nessa área”, ressalta Guil.
Porém, a atividade nunca foi suficiente para lhe dar um sustento confortável. “A remuneração provém do desempenho da ONG, o que gera um caráter imprevisível na minha vida financeira. Sempre tive atividades paralelas que me garantiram uma remuneração extra, como consultoria de meio-ambiente e tradutor”, explica Guil, que fez de sua casa um escritório da ONG para minimizar os custos administrativos.
Foram grandes os desafios encarados ao longo desses cinco anos. Mas a principal dificuldade enfrentada pelo ambientalista foi a falta de uma cultura de voluntariado no povo brasileiro.
A Surfrider é formada por uma diretoria não remunerada, que escolhe um diretor executivo, remunerado, para cumprir as diretrizes estabelecidas. O profissional apresenta as propostas, que serão avaliadas pela diretoria.
Porém, na prática, avalia Guil, a ONG brasileira não funcionava assim: o diretor executivo acabava assumindo a maioria das decisões, pois era difícil reunir a diretoria. Além disso, as decisões corriam o risco de se tornarem excessivamente burocratizadas devido à necessidade de consenso sobre as propostas.
Na avaliação de Guil, o início da Surfrider Foundation no Brasil foi marcado por muita disposição, mas pouca estrutura, sem falar na total falta de verba.
Na SurfExpo 97, a ONG viveu um momento importante quando, através do empresário Tucano, dono da rede de lojas Star Point, Guil foi apresentado aos principais empresários do ramo. “Havia muita desconfiança por parte dos empresários, pois ainda não tínhamos um histórico de resultados. Mesmo assim conseguimos alguns apoios fundamentais”, lembra.
Entre os apoiadores estão as empresas Osklen, site Waves, Rip Curl – HD e o canal Sportv. “Todos foram muito importantes no nosso começo, especialmente a Sportv, que disponibilizou um tempo de mídia muito importante para a divulgação de nossa causa”, afirma Guil, que faz questão de citar os nomes dos empresários Oskar Metsavaht, da Osklen, e Claudio Martins de Andrade, do grupo Waves, como peças fundamentais para a causa da Surfrider.
Um aspecto que Guil ressalta é que uma ONG como a Surfrider trata de assuntos desgastantes, luta contra grandes interesses de terceiros e lida com aspectos desagradáveis e até mesmo mal cheirosos, como, por exemplo, um esgoto in natura. “Isso tudo, às vezes, pode levar à desmotivação”, comenta o surfista.
Na busca de apoio financeiro para sua causa, Guil aprendeu que as ONGS que têm ajuda do exterior, como a Viva Rio e o Greenpeace, têm mais capacidade de sobrevivência.
“Nós não recebemos ajuda da Surfrider Internacional, então dependemos de doações aqui do Brasil. O empresário ajuda, mas chega uma hora em que você mesmo já fica sem graça de pedir de novo, pois sabe que fica pesado. Viver de favor dos outros é muito desgastante”, completa.
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Junto aos surfistas, Guil experimentou diferentes comportamentos. “A associação de surfe de Grumari (RJ), por exemplo, sempre nos apoiou e possibilitou a realização de alguns projetos muito importantes. Porém, os surfistas do Quebra-Mar nos decepcionaram.
Uma vez fomos lá e estendemos uma faixa de luto na praia protestando contra as péssimas condições da água naquele local, que recebe todo o esgoto clandestino da Barra da Tijuca.
A única manifestação que recebemos dos locais foram gritos de ‘fora haole!’ enquanto coletávamos amostras de água para exame do índice de coliformes fecais. Realmente foi decepcionante”, lembra Guil.
Ao longo dos anos, a Surfrider optou por nunca envolver apoio de políticos em seus projetos. Guil acredita que essa tenha sido uma estratégia acertada: “Sempre tivemos apoio da Prefeitura e do Ministério Público, mas nunca demos oportunidade de nenhum político utilizar nossos projetos para se promover.”
Olhando para os anos de trabalho que dedicou à causa, Guil acha que valeu a pena. “Vejo que hoje há mais conscientização, conseguimos preservar alguns trechos importantes da orla carioca e percebo a própria comunidade do surf mais conscientizada”, diz.
Porém, ele não deixa de mandar um recado: “É fácil preservar a Prainha no Rio de Janeiro, uma praia que por si só já está preservada. A luta está em preservar o que realmente corre perigo. A Prainha já é uma causa ganha. É hora de novos desafios”, desafia o idealista Guil.
Olhando o mundo pós-11 de setembro, Guil vê uma dura realidade para as causas ambientais: as verbas encolheram depois do atentado e, para piorar, Bush não assinou o protocolo de Kioto. Se olharmos a realidade econômica brasileira, marcada por incertezas, não é exagero dizer que meu sucessor terá uma pedreira nas mãos”, alerta ele.
Não à toa o guerreiro já demonstra sinais de cansaço. Na verdade, seu plano inclui a saída da Diretoria Executiva da Surfrider Brasil até novembro e a volta para a Austrália, onde possui visto de cidadão.
Seu sucessor deverá ser escolhido pela Diretoria e o desafio não será pequeno. Por outro lado, a sociedade brasileira se encontra num estágio mais evoluído do que há cinco anos. A Campanha do Voluntariado, em 2001, ajudou muito a desenvolver uma consciência coletiva mais voltada a esse tipo de ação e novos frutos deverão ser colhidos no futuro.
Para os interessados em começar uma ONG, Guil oferece as seguintes dicas:
1º) Arrume uma diretoria motivada e que trabalhe de verdade.
2º) Comece pequeno, não tente fazer mega projetos – é mais difícil conseguir apoio.
3º) É melhor trabalhar uma hora por dia nos cinco dias da semana do que cinco horas em um dia e nada no resto da semana.
4º) Realize encontros periódicos.
5º) Esteja preparado para receber criticas.