Surfistas que salvam vidas

A cidade de Saquarema, litoral norte do Rio de Janeiro, possibilita um estilo de vida privilegiado para um seleto grupo de surfistas.

 

Eles conseguem conciliar uma vida profissional séria e o convívio com uma das melhores ondas do Brasil. Muitos mergulhadores da Petrobrás, por exemplo, moram e surfam lá.

 

A dupla de salva-vidas Patrick dos Reis e Marquinhos Monteiro, dois surfistas locais de temperamento tranqüilo e surfe de alta performance, é um caso típico dessa situação.

 

Com total conhecimento do pico, eles marcam ponto nas ondas de Itaúna em seus momentos de folga.

 

Ambos possuem histórias de vida muito parecidas e pertencem a famílias que se mudaram para Saquarema quando eles ainda eram crianças.

 

Cresceram juntos e descobriram o surfe juntos, e juntos também passaram a sentir a necessidade de arrumar um emprego e ganhar a vida.

 

Um certo dia, Patrick e Marquinhos caminhavam juntos em direção ao canal de Itaúna para entrar no mar, quando viram uma série bombando no Backdoor.

 

“A série foi tão animal que despertou nossa atenção”, lembra Patrick. Naquela hora, eles perceberam que havia um banhista passando a nado, com bastante dificuldade, a série cascuda que explodia sobre as  rasas pedras. 

 

Foi aí que notaram uma pequena multidão na beira da praia que acompanhava, aflita,  o suplício do banhista, que já havia sido dragado pelo mar e estava se afogando em pleno Backdoor de Itaúna.

 

Para quem não sabe, o Backdoor é uma direita que quebra do outro lado da laje de Itaúna, bastante surfável nas condições certas. Naquele dia, entretanto, estava uma autêntica “tampa de caixão”.

 

 

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“Olhamos um para o outro e decidimos ir resgatar o banhista”, lembra Marquinhos. “Nunca havíamos feito isso antes, pelo menos em condições tão extremas”, reforça Patrick.

 

O resgate foi bem sucedido e a dupla de surfistas foi ovacionada pela multidão quando chegou com o banhista na areia.

 

“A partir daquele dia, surgiu em nós a vontade de conciliar nossa paixão pelo mar com a possibilidade de salvarmos vidas”, lembram eles.

 

“Nunca mais esquecemos a emoção da mãe daquele banhista quando o entregamos  a ela na areia”.

 

Alguns anos se passaram desde esse episódio. Hoje ambos são salva-vidas concursados pelo Estado do Rio de Janeiro e exercem seu trabalho em Saquarema.

 

Para quem não sabe, os salva-vidas possuem uma escala peculiar de trabalho. No verão, por exemplo, trabalham 12 horas e folgam um dia. Já no inverno, trabalham um dia e folgam dois.

 

Na prática, isso significa que tanto Marquinhos como Patrick possui tempo de sobra para pegar altas ondas em Itaúna, conciliando seu estilo de vida a um trabalho sério, onde a competência como surfista acaba servindo para salvar-vidas.

 

Cabe lembrar que o trabalho de salva-vidas concursado  possui características de emprego público, como estabilidade funcional entre outros benefícios.

 

O resultado desse privilegiado estilo de vida é que ambos mantêm o surfe bastante afiado e sempre estão com um excelente condicionamento físico, muito útil nos dias em que o mar sobe.

 

Apesar de Itaúna ficar “de ressaca” nos grandes dias de sudoeste e sudeste que atingem o litoral fluminense, existem algumas opções de big surf na região que são sempre exploradas pelos dois.

 

Ondas como Lage de Fora, Backdoor e Laje do Caboclo fazem parte das opções de big surfe na região e que acabam propiciando sessions épicas, normalmente sem testemunhas.

 

“Gostaríamos muito de ser convidados para o  próximo campeonato de ondas grandes, caso exista um”, falam em coro os dois atletas, que temem ficar de fora de uma possível lista de convidados devido ao isolamento em que vivem.

 

Por sinal, em 2003 Patrick foi o líder e Marquinhos o vice do circuito local e ambos surfam com pranchas do shaper local Leandro Santos, que faz questão de dar uma força para dupla.

 

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