Soul surf

Surfista Peregrino – Maldivas Parte I

Recebi uma carta do Peregrino, momentos antes de entrar no carro para uma surf trip numa quinta-feira sem lei. A influência do planeta Marte estava forte. É a primeira vez que ele chega tão perto da Terra nos últimos 60 mil anos. Senti-me meio guerreiro, e o envelope avermelhado com selos das Maldivas só aprofundou a sensação. A capa de prancha estava aberta. Fechei o zíper e abri a carta. Ele dizia:
 
“Cheguei nas Ilhas Maldivas literalmente flutuando sobre o oceano. Há muitos anos eu era uma alma à procura de um ofício, hoje sou o próprio ofício da procura. O “dhoni”, típica e milenar embarcação desta parte do mundo, mal tocava as águas transparentes. Imnti, o capitão, olhava serenamente para o horizonte com seus olhos amendoados no rosto escuro sulcado pelo sal. Ele procurava uma lembrança em forma de arquipélago. Viajávamos há três dias vindos de Goa, na Índia, e eu permitia que o tempo passasse docilmente pelas minhas veias.

 

Estive durante 22 dias surfando as belas ondas escuras da Mauritânia, nas costas da África Ocidental, mas o impulso que freqüentemente me comove não quis que eu permanecesse. Estava tranqüilo, no entanto, quando contornei a pé, durante dois dias, a capital do país, Nuakchott. Evitar grandes aglomerações, principalmente no chamado terceiro mundo, é sempre uma sábia decisão. As pessoas são mais amenas e acolhedoras nos pequenos vilarejos. Continuei seguindo por terra até a Argélia, peguei carona numa caravana de tuaregues, uma das mais antigas tribos nômades do deserto, durante sete dias, até reencontrar o Mediterrâneo.

 

De ferry-boat, atravessei o canal de Suez até o Mar Vermelho e em seguida o Mar Arábico, quando finalmente, na ilha de Suqutra, embarquei num cargueiro até Goa, na Índia. Lavar e esfregar o convés da popa à proa era a única forma de pagar a passagem. Um ritual rude, mas esperado e até bem-vindo. Encarei como uma música cantada com as mãos e que nos põe no ritmo com o universo. Atividade terapêutica e, naquelas circunstâncias, até mística.

 

Resolvi transformar o trabalho em prazer. À noite, o som das músicas brasileiras que eu cantava ao violão provocava sorrisos na tripulação reunida na cozinha. Balançavam as cabeças no compasso dos acordes. Mesmo quando eu queria, era difícil estar só. Às vezes fechava os olhos, contatava o meu Ser Divino, e era repentinamente abençoado com o silêncio. A madrugada trouxe estrelas tão grandes e brilhantes que pareciam fogos de artifício. A vida é uma celebração constante, pensei, é só observar.
 
Chegamos na manhã de um sábado na costa hindu. Fui o primeiro a colocar o pé na areia. O sol já ia saindo quando contratei um pescador maldivense para me transportar ao arquipélago. Ele pareceu meio relutante em ir sozinho, mas o austero Benjamim Franklin na nota de cem dólares falou mais alto com sua careca reluzente e seu repressor olhar puritano. Pude observar, mais uma vez, a cobiça vencer o medo. Ele, estranhamente, deu-me um presente em troca.

 

Surpreso, peguei no “santinho”, um pedaço de papel com a efígie de São Peregrino, o protetor contra o câncer. Troca justa, pensei. Uma viagem de purificação em troca de eventuais curas das chagas do corpo e das torturas da alma. Como um santo cristão, que eu nem sabia que existia, tinha ido parar nas mãos de um remoto pescador de um país 100% muçulmano, islâmico sunita, era mais um mistério que me fazia mais sorrir do que pensar.
 
Três dias depois, a primeira ilha, do total de 1.198, surgiu no horizonte claro. Meio metro acima da superfície. A água só reagia ao movimento do barco. Dava para ver as linhas de espuma dos dois lados da pequena costa. Tirei a capa da prancha e, enquanto mantinha um olho nas ondas, passava a parafina que exalava um suave aroma de morango. O Imnti deu um tapinha no meu ombro e apontou a água do lado esquerdo do barco. Uma barbatana cinza de mais ou menos 30 centímetros passeava ao nosso lado.

 

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“No problem”, ele riu. “Shark don’t eat people in Maldives”. Tinha ouvido falar. Os tubarões pertencem ao ciclo perfeito da cadeia alimentar. Não faltava nenhum elo por aqui, portanto não tinha porque substituir uma presa mais fácil como os peixes habituais do seu cardápio por um homem, que além de ter um gosto desconhecido seria provavelmente indigesto. Conforme fomos nos aproximando, eu vi que as ondas tinham pelo menos 8 pés. O dhoni parou a 100 metros do pico das esquerdas.

 

A sua sombra dançava como uma sereia negra. Ninguém à vista. O Imnti ia ajeitando o seu anzol e linha, sem a vara de pescar, à moda maldivense. Mergulhei com a prancha e o tubarão se afastou aumentando a velocidade, em direção à ilha. Limpei todos os karmas de dias no barco com aquele mergulho. A água salgada lavava minha pele e cauterizava quaisquer maus-olhados e companhias perniciosas que eu inadvertidamente tivera durante a jornada.

 

A aproximação das ondas dava uma percepção de algo muito familiar, como se eu estivesse voltando para casa. Esperei um pouco no canal para poder observar exatamente onde quebrava a série e, quando a primeira passou, constituída de sete picos perfeitos, remei para a zona de impacto. Não deu três minutos e outra série entrou. Deixei passar a primeira: “esta vai para o santo”, pensei. A segunda quase quebra em cima de mim, enquanto eu era ligeiramente levado para dentro do pico pela correnteza.

 

Corrigi a velocidade da remada e me coloquei um pouco atrás da sessão verde que vinha lambendo a ilha. Não havia nenhum som no ar. Duas gaivotas passaram numa rasante na minha frente e eu dropei. Vi a sombra escura dos corais sob a superfície e percebi que era raso, bem raso. Não dava para saber a profundidade, mas umas cabeças de pedras coloridas aparecendo logo à minha direita, perto da espuma, davam uma pista distorcida e difusa. Cavei com todo o peso do corpo e das minhas mentalizações de dias nas diversas embarcações. A onda respondeu surpreendida, talvez por nunca ter sido surfada antes.

 

Parecia calma, sua força desproporcional ao seu tamanho. Mas, imediatamente recuperou-se. Jogou uma sessão poderosa que não deixava outra alternativa de passagem a não ser o tubo. Agachei e aceitei o caminho proposto. Conforme ela ia se contorcendo em torno de si mesma, passei a mão de leve na parede para acalmá-la. Ela pareceu entender. Não diminuiu sua potência, mas foi se construindo melhor, mais bem formada, como se aceitasse e até acolhesse a minha presença. Dropar ondas durante anos é como um mantra líquido, que repetido várias vezes com a devida reverência nos dá equilíbrio e unidade.

 

O problema é que vicia. Problema? O equilíbrio me alcançou. Terminei a onda no meio do mar, bem longe da praia, que tinha ficado pelo menos cem metros às minhas costas. Ouvi o Imnti gritando e gesticulando do barco. Parecia excitado com a visão de algo inédito para ele: o surf.

 

Com esta primeira onda, eu mesmo tinha carimbado o passaporte na alfândega de Deus. Não vi taxas, leis nem oficiais carrancudos dentro de guichês de vidro. Só o vento balançando os coqueiros, alguns peixes coloridos de diversos tamanhos e formatos passando velozes debaixo da minha prancha, e o mar trazendo mais ondas.

 

A generosidade da Natureza é infinita. Se toda a realidade exterior é uma projeção da nossa alma, o meu filme interno tem um ótimo roteirista e um diretor talentoso. A temperatura da água era quase imperceptível já que se confundia com a do meu corpo. O cheiro de coral banhava o perímetro da ilha até o limite onde o dhoni ancorara. Sentei na prancha, juntei as mãos na frente do peito e agradeci. Tinha chegado às Maldivas”.

 

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