Surfista do asfalto radicaliza em Maui

Mauricio Franco, o Tijolo, leva uma típica vida de surfista no Hawaii. Nascido no carnaval de 1961, em Santos, Tijolo faz a festa nas ondas da paradisíaca ilha de Maui, onde vive na praia de Haiku, perto do pico de Jaws, com o filho Keone e a mulher Cris.

 

Mas, ao contrário dos surfistas que habitam o arquipélago, as ondas não são o principal objeto do desejo. Isso porque a maior paixão é o esporte criado e desenvolvido por ele e alguns amigos, o surfbike, uma modalidade de boardsport em que a bicicleta é usada para surfe no asfalto, montanha ou em qualquer superfície capaz de permitir a prática de um esporte sem muitos adeptos, é verdade, mas que também gera emoção e adrenalina.

 

Nessa entrevista concedida ao correspondente Bruno Lemos, Tijolo fala do seu protótipo e como leva uma vida sossegada despencando vulcão de surfbike ou fazendo demonstrações em eventos do WCT.

 

E aí, Tijolo, o que tem feito na vida?
Moro em Maui há 14 anos. Trampo como garçon  à noite para aproveitar o dia na praia com o Keone, que vai fazer 2 anos. Surfo todos os dias e não quero outra vida.

 

E o surfbike, como e quando começou?
Comecei em 1979 com meu parceiro Eder, quem realmente fez a primeira bike. Gostávamos de surfar e como a bike era o transporte diário e o flat do mar uma constância, ficávamos zoando com as bikes. Com isso, os tricks foram aparecendo: empinar, dar saltos sobre a galera e, finalmente, ficar em pé no quadro. Com o tempo, fomos aperfeiçoando a bike para melhor desempenho. Depois de muita grana gasta com solda e quadro cerrado, chegamos ao ideal após dois anos.

 

Quantas pessoas praticam o surfbike atualmente?
Hoje em dia acho que só eu, meu irmão Andre e o Eder ainda. Naquela época eram uns seis, sete no máximo.

 

Quais manobras mais difíceis e extremas  para fazer em cima da bicicleta?
Essa é uma bike extremamente específica para a prática do surfbike. Pode ser usada normalmente, mas o tesão é o surf no asfalto. A maior dificuldade está nos drops de montanhas, em que a velocidade chega a uns 45 km/h. Com o guidão totalmente solto, temos que controlar tudo no equilíbrio. E, se vacilar, é melhor saber como dar o rolamento salvador. Já desci o Corcovado, a serra de Maresias, o vulcão Haleakala, em Maui, e muitos outros drops irados.

 

Existe alguma semelhança com outros esportes, tipo surf, skate, snowboard?
Totalmente. A base é igual ao surf e os movimentos são o zigue-zague e os cut-backs. Além disso, a bike conta com uma prancha de madeira em cima do quadro. Sendo assim, é um boardsport, com certeza.

 

Você anda muito em Maui? Qual a reação das pessoas?
Na verdade não ando tanto por aqui. Venta muito e tenho me dedicado ao meu  filho full-time. Dou uns drops no vulcão aqui atrás de casa quando sou chamado para sessão de fotos ou filmagens. Não importa o lugar, a reação é de espanto total. Na real, ninguém  imagina que isso é possível. Daí, surge interesse de me patrocinarem para divulgar uns lances.

 

É verdade que o Kelly Slater tentou ou ficou interesado em dar uma voltinha? Como foi isso?
Nos anos 90, eu ia quase todo ano para a perna européia extrapolava nas ruas da França, Espanha etc. Toda a galera dos campeonatos me via andar e não tem como não ficar chocado. O lance é maneiro mesmo e muitos arriscavam uma voltinha, inclusive Tom Curren, Tom Carroll, Kelly Slater e os brazucas, sendo que o Bronco foi quem mais arrepiou.

 

Clique aqui para ver a galeria de fotos de Tijolo e a surfbike.

 

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Já sofreu algum acidente?
Vacas foram muitas mas as piores são as porradas em carro.

 

E problemas com a polícia?
Sempre tomo uma dura pela ousadia no trânsito, mas os cops também ficam chocados e acabam aliviando. Já tomei uma multa de US$ 250 em Huntington Beach, Califórnia.

 

Qual a situação mais adrenalizante  ou perigosa que já viveu ou presenciou?
Foram muitas, mas uma que marcou bastante foi durante a copa da Franca, em 98. Dei uns treinos em volta do estádio horas antes da partida e depois fui ao Carrefour dar um rango. Saí do mercado e vi meu cadeado cortado e nada de bike. Fiquei louco, estava lá com patrocínio da Reef e tinha que gerar retorno na mídia, o que era fácil, mas eu precisava da bike. Sai atrás da policia, que parou no meio da rua para ver porque eu acenava desesperado. Os canas me reconheceram, me colocaram para dentro da viatura e passamos a procurar a bike nas redondezas do estádio. Isso em Paris, cidade grande e cheia de gente para todos os lados em dia de jogo do Brasil…fala sério! Depois de meia hora, eu já estava desistindo e ficando conformado quando o cana virou num bairro mais capenga. Aí, numa rua com trânsito parado, vi na frente a bike indo embora. Gritei “mom velo” (minha bike) e disse para eles não ligarem a sirene, senão neguinho iria se entocar antes de ser alcançado. Os dois canas pularam do carro e correram dois quarteirões no meio do trânsito e pegaram o mané. Os outros dois me seguraram na viatura e não me deixaram sair, pois sabiam que eu tava a fim de dar uma “massagem” no cara, né. Cara, Deus é grande. Não fiquei sem a bike nem por uma hora, e num lugar onde eu não conhecia ninguém. Os canas já tinham me visto andando na bike e me ajudaram legal. Voltei com mais pilha ainda.

 

Quais as condições ideais  e qual o equipamento apropriado para uma boa performance?
Bom, vento muito forte atrapalha mesmo. O ideal é praticar em asfalto liso ou calcada limpa de areia ou pedras. Agora, sem a surfbike não dá para andar, tem que ser ela. Numa bike comum dá para ir em pé, mas só reto. Fiz umas 20 bikes desde o começo,  em 79. A  atual é de alumínio e tem 27 marchas.

 

Qual é a manha para manter-se em pé sem cair e o que poderia falar para alguém interessado em praticar a modalidade?
Não é difícil andar. Todos sabemos andar sem as mãos e, com uma cinturada para a direita ou esquerda trocamos facilmente de direção. O surfbike é a evolução disso. Com a bike certa, facilita ainda mais essa troca de borda. E com treino e alguns toques, já vi muita gente andando em 10 minutos. Isto é, reto, é claro. As curvas saem  boas com o tempo e muitas raladas. O melhor aliado do aprendizado é justamente o maior medo, a velocidade. Todos querem tentar devagar e é aí que o bicho pega, pois é quase impossível andar devagar. E o chão é rumo certo para os que insistem. Olha, a vaca é braba, pois você está a 1 metro do chão. Eu não uso, mas equipamento de segurança é de lei. Valeu pela oportunidade de falar sobre essa modalidade totalmente brasileira. Nunca ninguém pelo mundo afora me deu um retorno negativo pela loucura. E olha que viajei duas décadas e conheci muita gente com a bike. Vivi dela e espero que meu filho faça o mesmo, pois ainda hoje sou o único praticante fora do Brasil. Mas, é bom lembrar que sem a bike certa não tem como ir pra frente. Aloha, galera e God bless.

 

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