
15 de abril de 2004. Durante uma típica quinta-feira na redação do site Waves.Terra, na capital paulista, recebo um inesperado telefonema do amigo e colaborador Sergio Laus, que estava no Maranhão em mais uma expedição à uma das Pororocas brasileiras.
“E aí, tá a fim de surfar a Pororoca?”, intimou ele. “Já tá tudo certo pra você vir, mas tem que embarcar amanhã”. Fiquei sem reação. O convite incluía não só cobrir a última etapa do circuito brasileiro na Pororoca, no Estado do Amapá, como também competir no evento.
Já tinha ouvido inúmeras histórias sobre o fenômeno, do próprio Laus, surfista e jornalista veterano nas competições e expedições na onda de rio mais longa do mundo. Porém, por se tratar de uma onda perigosa e diferente de todas que eu já vira em meus 13 anos de surfe, imaginava que teria toda uma preparação, inclusive psicológica, para enfrentá-la. Mas eu tinha apenas algumas horas para decidir. Acabei topando e no dia seguinte já estava de malas prontas pra partir.

Depois de sete horas de vôo até Macapá, capital do Estado, incluindo escalas em Brasília e Belém, embarcamos em dois ônibus para uma viagem de quatro horas por uma estrada de terra esburacada até a cidade de Cutias do Araguari, onde havia três barcos nos esperando para mais doze horas de viagem até a fazenda Campo Novo, no meio do rio Araguari e em plena selva amazônica, nossa base durante os quatro dias de campeonato.
Durante a longa viagem, a falta do que fazer levava o pensamento mais longe ainda (se é que era possível), e a expectativa aumentava a cada sacolejo do barco e a cada rodada de conversas com a galera presente – comissão técnica e atletas, cada um com a sua própria definição sobre a mítica onda de rio, considerada a mais cascuda das Pororocas conhecidas e surfadas atualmente no Brasil. Os outros dois barcos levavam a imprensa e a equipe de bombeiros que acompanhou a expedição.

Dormimos a primeira noite no barco, em redes, e às 4:30 da manhã já estávamos nos preparativos para encarar a Pororoca, já que o dia seria destinado ao free-surf e reconhecimento do pico e das bancadas. Antes de continuar, vale uma explicação sobre como funciona o fenômeno.
A Pororoca acontece praticamente todos os dias nos rios que fazem confluência com o mar na região da Amazônia. Porém, é durante os períodos do equinócio, no primeiro e segundo semestre, que o surf na Pororoca se torna possível. Três dias antes e depois das luas cheia e nova, durante as marés de sizígia ou marés vivas, o silêncio das matas é quebrado por ondulações que podem atingir até quatro metros de altura e devastam tudo o que estiver pela frente, como margens, árvores, barcos, animais e até casas. Não é à toa que a palavra Pororoca vem do termo “poroc poroc”, que no dialeto indígena significa “destruidor, grande estrondo”.

Ela ocorre pela atração combinada entre sol, lua e terra, que provoca um desnível de até sete metros entre a preá-mar e a baixa-mar. Outro fator importante para o acontecimento da Pororoca é o maior volume das águas no estuário do rio Amazonas. Durante a vazante do rio, as águas descem em direção ao mar, que funciona como uma represa acumulando um grande volume de água no estuário. Quando a maré começa a encher, o oceano “empurra” toda a água do rio de volta, formando a Pororoca, que volta como uma avalanche líquida extremamente poderosa que se repete a cada doze horas.
É por isso que a onda possui a particularidade de ter uma corrente contra passando por baixo, diferente das ondas do mar, o que dificulta ainda mais a ação do surfista. Porém, segundo os moradores da região, com o passar dos anos a Pororoca está diminuindo de tamanho devido ao alargamento das margens, que sofrem com a erosão provocada pelo fenômeno, e o conseqüente assoreamento do rio.
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A princípio a onda é um imenso espumeiro que varre o rio de margem a margem, mas conforme vai entrando nas diferentes bancadas de areia, paredes, às vezes perfeitas (depende da presença ou não de vento), se formam e oferecem uma área incrível para manobras como cutbacks, rasgadas e batidas na espuma que fazem a cabeça de qualquer surfista. Em algumas Pororocas, como a do Maranhão, existem inclusive sessões tubulares que podem surpreender.
Voltando à barca, a agitação era grande e geral para o primeiro encontro com a onda, e mesmo os mais experientes mostravam certa ansiedade. Principalmente Laus, que teria seu primeiro contato com a Pororoca do Araguari depois do acidente sofrido um ano atrás, quando foi pego pela espuma e fraturou a apófise da L5, uma das vértebras da coluna cervical, e ficou durante meses se recuperando do acidente, que exigiu uma operação de resgate digna de cinema.

Seis “voadeiras” (pequenos barcos de alumínio) saíram ao encontro da Pororoca levando atletas, comissão técnica, repórteres e fotógrafos, além de uma com os bombeiros, que fariam o resgate depois do surfe. Depois de cerca de 25 minutos navegando, chegamos ao “ponto de encontro”. A calmaria das águas e o silêncio na mata indicavam que a Pororoca estava a caminho.
De repente, o silêncio foi quebrado pelo barulho da onda, um ronco poderoso que mais parecia uma manada de búfalos – criação comum nas fazendas da região – correndo pela mata, antes mesmo de ela aparecer no horizonte. O primeiro momento foi mágico, mas na medida em que ela se aproximava o frio na barriga aumentava, até que paredes começaram a se formar e a galera começou a pular na água.
Para garantir a entrada na onda, o ideal é pular na frente da espuma, pois na maioria das vezes a parede não é cavada o suficiente para levar o surfista. Naquele dia quase todos pegaram a onda, menos eu e um dos juizes, os únicos que ainda não conheciam a onda do Araguari. Esperamos demais e acabamos perdendo o momento certo. No meu caso, perdi a chance de experimentar a onda e meu equipamento antes da competição, que começaria no dia seguinte.

Felicidade de uns, decepção de outros. Voltamos para os barcos e partimos para a fazenda Campo Novo, que seria nossa base durante a semana. Qual não foi minha surpresa ao ver que existia uma “pousada” construída especialmente para os eventos na Pororoca, e que oferece uma infra-estrutura bem digna para o local que se encontra: pra ser mais exato, no coração da selva amazônica, a horas de qualquer coisa parecida com civilização. Inclusive um dos pontos altos era a alimentação, preparada pela equipe do Seu Martinho, proprietário de um restaurante em Macapá que acompanhou a expedição do começo ao fim, sempre com cardápios de primeira.
No dia seguinte, terça-feira, saímos já da pousada nas voadeiras para o primeiro dia de disputas na Pororoca, por um igarapé quase seco que nos obrigou a descer da lancha e literalmente enfiar o pé na lama para “empurrar” os barcos em direção ao rio. Esse tipo de situação fazia com que perecesse que estávamos ao mesmo tempo em uma corrida de aventura, e somente quem tinha espírito de “Indiana Jones” encarava a situação com bom humor.

O sistema de disputas rolaria da seguinte forma: um sorteio determinou as baterias, que teriam cinco minutos de duração, e as bancadas que cada uma seria disputada. Ao término da primeira, a segunda entraria na água na segunda bancada, e assim por diante. Por ironia do destino, o sorteio me colocou frente a frente com Laus, que acabou levando a melhor devido a sua grande experiência na Pororoca. Mesmo eliminado precocemente, fiquei feliz de ter experimentado a onda e participado da competição.
Ao sair da onda, ao lado de Laus, ele comentou com a maior naturalidade: “O chato de ficar à deriva esperando o resgate é que os animais começam a voltar pro rio”. “Que animais?”, perguntei. “Ah, jacarés, piranhas, cobras, arraias e até tubarões!”, disse ele. Logo pensei: cadê esses bombeiros que não chegam logo. Isso sem falar no risco de bater num tronco ou algo do tipo enquanto surfa a onda. A Pororoca é mesmo uma caixinha de surpesas.
Nesse dia rolaram outras surpresas e três surfistas simplesmente não conseguiram entrar na onda. Um deles foi o maranhense Marcelo “Piu-Piu” Vaz, eliminado pelo paraense Sergio Roberto. O cearense Adilton Mariano derrotou o paraense Noélio Sobrinho, organizador e diretor de prova que competiu substituindo o carioca Ricardo Tatuí, que não compareceu ao evento. Com a vitória, Adilton garantiu o título do circuito, já que nenhum dos seus adversários na disputa pelo título brasileiro poderia alcançá-lo no ranking. A bateria entre o paraense Sandro Rogério e o representante do Amapá Stanley Gomes não aconteceu porque nenhum dos dois conseguiu entrar na onda.
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Na quarta-feira rolou a primeira semifinal, entre Adilton e Sergio Roberto, com o cearense levando a melhor e avançando para a final. Na seqüência ocorreu um fato que surpreendeu a todos: pela segunda vez Sandro Rogério, tricampeão brasileiro na Pororoca, pulou no momento errado e não conseguiu entrar na onda, deixando o caminho livre para Stanley levar pela primeira vez o Amapá ao pódio. Stanley apenas tinha que ficar em pé na prancha, e dessa vez não deu mole, garantindo vaga na semi, contra o paranaense Sergio Laus.
O último dia começou com a disputa desta bateria, e Laus não deu chances para Stanley tentar qualquer tipo de reação. Com o paranaense na onda, foi autorizada a entrada de Adilton para a disputa da grande final. Os surfistas teriam cinco minutos para apresentar tudo o que sabiam, com o critério de julgamento valorizando o desempenho dos atletas, e não o tempo de permanência na onda.

Depois de muitas rasgadas, cutbacks e batidas na espuma, a vitória ficou com o cearense, que pôde comemorar também o título da terceira e última etapa, já que havia vencido também as duas etapas anteriores, no Pará e no Maranhão (veja aqui a reportagem completa e resultados da última etapa, no Amapá). Adilton, de 21 anos, também detém o recorde de permanência na Pororoca do Amapá com 34 minutos e dez segundos, título conquistado ano passado.
“Estou muito feliz com mais esta conquista. No momento estou sem patrocínio e é sempre bom estar em destaque, ainda mais em uma competição difícil como essa. Quero agradecer a todos que apoiaram e realizaram este evento, que exige um esforço muito grande de todos os envolvidos, principalmente ao governo do Estado”, disse Adilton durante a entrega de prêmios.

“Em nome do governador do Amapá Valdez Góes, gostaria de parabenizar a todos os competidores por este belíssimo espetáculo na Pororoca do Araguari e a todos que participaram deste evento, de extrema importância para o Estado. Apesar de ser um fenômeno presente há milhares de anos, somente nos últimos tempos a Pororoca vem sendo explorada da forma devida, sendo um dos principais atrativos turísticos do Amapá”, declarou o secretário de comunicação do Amapá Olímpio Guarani, que acompanhou e participou do inicio ao fim do evento, mostrando o comprometimento do governo com o surfe na Pororoca.
Terror e pânico* – No terceiro dia da expedição, os jornalistas Harris Whitbeck e Jean Pierre Salinas, da CNN, e Maria Adélia de Mendonça, da TV Alemã ARD, ficaram cerca de dez horas à deriva no meio do Rio Araguari (já de noite), momentos antes da Pororoca surgir destruindo tudo o que estaria em sua frente, depois de a embarcação que os levaria até uma fazenda próxima do local do evento apresentar pane no motor.

Por sorte, um avião monomotor do Governo do Estado que aguardava os correspondentes sentiu o perigo no ar e sobrevoou a região. O piloto observou o pânico e terror que a equipe passava numa região extremamente perigosa e redigiu dois bilhetes e os arremessou dentro de garrafas plásticas na área da fazenda Campo Novo.
Observando as revoadas da aeronave, um bombeiro viu uma das garrafinhas caindo no rio e foi averiguar o que estava acontecendo. Foi assim que as equipes de resgate rumaram para a boca do rio para realizar o salvamento dos repórteres e cinegrafistas, que já se encontravam em condições deploráveis.
Resgate ao Boto cor-de-rosa – No último dia de competição mais uma surpresa estava reservada aos participantes do evento. Na saída do igarapé que leva à Pororoca, atletas e organizadores ajudaram, nas primeiras horas do dia, a salvar um casal de botos cor-de-rosa que estavam encalhados num raso banco de lama.

“Não podíamos deixá-los se batendo no raso, então o piloto Márcio e o juiz Márcio Bahia, que também é veterinário, tomaram a atitude de tentar acalmá-los e deu certo. No final todos estavam ajudando os botos a acharem a saída do canal”, lembra Sergio Laus, que também esteve presente na ação de resgate.
Naufrágios – Ainda no último dia, durante as baterias finais do II Circuito Brasileiro de Surf na Pororoca, dois naufrágios ocorreram com os dois melhores pilotos da região, Zeca e Márcio, quando os motores das respectivas lanchas deram pane. Com experiência de anos na Pororoca, os pilotos souberam contornar a situação reduzindo o risco e garantindo o resgate das lanchas sem ninguém ficar ferido.
Entre aventuras e disputas foi encerrado o II Circuito Brasileiro de Surf na Pororoca, com o apoio excepcional do Governo do estado do Amapá, através de seu governador Waldez Góes, Secretaria da Comunicação – Olimpio Guarany, ao Detur (Departamento de Turismo) e toda equipe de pilotos e logística.
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* Colaborou nesta matéria Sergio Laus.