
De volta ao Hawaii depois de passar uns dias no Tahiti, Fábio Franco, surfista de Santos conhecido como Fabinho Anão, fala sobre sua primeira experiência no arquipélago polinésio, em que presenciou ondas cabulosas em Teahupoo e visuais paradisíacos.
Aos 40 anos, sendo 28 de surf, 1,17 metros de altura e 48 quilos, Fabinho é um exemplo de atitude e já tem projetos para se tornar um novo adepto do tow-in, depois de ser “apadrinhado” pelos irmãos McNamara, principalmente por Garret.
Nesta entrevista ele conta tudo o que rolou no Tahiti.

Quais foram as suas impressões em relação ao povo local, as belezas naturais e, claro, as ondas?
Gostei muito do Tahiti, o povo é muito hospitaleiro mesmo. Fiquei na casa de uma família em que todos surfavam, a casa deles era praticamente dentro da água e os barcos eram o principal meio de transporte. Tínhamos dois botes de alumínio para surfar e pescar. As belezas naturais nem se fala, não dava para acreditar, algo indescritível, igual ao que se vê naquelas revistas de turismo. Lagoas azuis, hotéis dentro d’água, muito verde, montanhas e vales lindos, sem dúvidas é um paraíso. As ondas quebram muito longe e sem barco fica quase impossível, fora isso as bancadas são super rasas e perigosas, as ondas secam em cima dos reefs, é muito perigoso o surf lá.

Durante o tempo que ficou por lá, quais foram os melhores dias e quem se destacou nas ondas?
Não deu muita onda enquanto estive lá, foram praticamente dois swells bons em Teahupoo. O primeiro tinha uns 6 pés e estavam na barca comigo o Ikaika Kalama, Shaun “Barney” Barron, Mikala Jones, que se ralou todo, e alguns locais. Esse dia estava sol e perfeito, com muitos caras arrepiando, entre eles Jamie Sterling, Ikaika e alguns locais como Manoa Drollet, Malik e Nicolas. Esses caras conhecem muito o pico, é impressionante. O segundo swell foi bem maior, uns 10 a 12 pés.
A triagem do WCT teve até que ser interrompida, pois estava grande demais para remar, mas estava muito bom para tow-in. Praticamente todos os grandes nomes estavam presentes, Laird, Poto, Parsons, entre outros, que eram literalmente coordenados por Arsene, uma lenda viva do pico que também surfou boas ondas. Acho que um dos momentos mais marcantes do dia foi quando o sortudo do Garret estava

disputando uma bomba com o Mike Parsons e conseqüentemente entrou muito atrás do pico e, antes de colocar para dentro de um tubão, deu um salto – tipo os de snowboard – por cima de um “double-up” de pelo menos 3 pés de altura, caindo de layback na parede da onda e engolido vivo pela massaroca. Não sei como ele sai vivo e, principalmente, sem nenhum arranhão… É muito sortudo esse cara. Com certeza essas fotos vão chegar em breve na internet e nas revistas por aí, aguardem.
Você conseguiu surfar em Teahupoo ou lá o buraco é mais embaixo?
Teahupoo todos sabem que é uma onda “assassina” e quando chega na bancada a base da onda fica quase abaixo do próprio reef, pelo menos essa e a impressão que se tem. Para se dar bem você tem que entrar no lugar certo, surfar quase na diagonal da onda, mas se tiver a manha é tubo certo. Sem dúvidas ter uma boa remada e essencial, e como esse não é o meu caso, foi bastante difícil. Só me senti a vontade quando

estava pequeno, uns 4 pés, e parecia mais um outro pico qualquer. Claro que as ondas ainda continuavam rápidas e tubulares.
Já no dia grande, além de apenas os melhores do mundo estarem surfando de tow-in, não achei que era o dia certo para eu estrear de tow-in em Teahupoo, apesar de ter uma pequena experiência em Phantons, Hamerheads e alguns outros outside reefs do Hawaii, onde o coral é bem fundo e só tenho que basicamente sobreviver ao caldo, não me preocupando muito em bater no reef. Já em Teahupoo é bem diferente, além do caldo, raramente você irá escapar do coral vivo, que pode te cortar todo e às vezes ser até fatal.
Você teve oportunidade de ver ou surfar outras ondas?
Surfei em vários picos quando o mar estava pequeno. Apesar de não ter surfado ondas grandes, foi bem divertido conhecer picos como Papara (beach break), Tapuna, Sapinus, Big Pass, Small Pass e Vairao. Fui também para Morea, onde surfamos ao lado de uma pequena ilha que chamei de “Ilha da família Robinson”…

Qual foi a reação dos taitianos ao descobrirem que independente da sua estatura você estava ali para surfar? Ficou tão famoso como aqui no Hawaii?
A princípio eles ficaram só me observando, mas depois que viram meu “go for it” ficaram amarradões e acabei fazendo bons amigos. Estava surfando em Papara, um beach break que lembra até as ondas do Maluf (Guarujá), e depois de pegar várias ondinhas, vi um amigo que não via há muito tempo, o Vetea “Poto” David, conhecido como o príncipe do Tahiti. Ele falou que quando me viu surfando, sabia que só poderia ser eu. Depois disso, cerca de 50 crianças nos cercaram e ele começou a explicar quem eu era, minha idade, de onde era, etc. Acho que depois disso fiquei bem conhecido na área.

Fora o surf, quais outras atividades pode se fazer no Tahiti?
Você pode pescar, fazer turismo em cachoeiras, nadar em piscinas naturais, ir de ferry até Morea ou Huahine. O meu programa favorito era conhecer as garotas locais que sempre vinham na nossa casa em festas diárias quando não tinha onda ou no sábado à noite, quando íamos para Papete no “Mana Rock”, uma boate tipo o Sirena de Maresias, só que lotado de taitianas lindas, que adoravam conhecer os “haoles”, pois segundo elas eram muito bem tratadas.
A quem você agradece por ter te ajudado a realizar mais esse sonho?
Agradeço primeiramente a Deus, que apesar de ter me feito um pouquinho diferente dos outros, me deu o dom de poder surfar, isso é uma bênção. Esperei mais de cinco anos para realizar essa viagem, que só foi possível porque algumas pessoas realmente acreditaram em mim. É uma trip muito cara, então tenho que agradecer também aos meus patrocinadores Hang Loose, G-zero e Reef pelo suporte moral e financeiro. Isso foi muito importante para mim, pois estou tentando consolidar minha imagem de free-surfer e agora entrando como tow-in surfer. Apesar de não ter feito tow-in nessa trip, aprendi bastante olhando os melhores do mundo na onda mais cabulosa. Também gostaria de agradecer meu shaper, Alexandre Moliterno, e ao lendário Dick Brewer, que cuida das minhas pranchas de tow-in e, claro, ao meu piloto e amigo Garret Macnamara por todo o suporte e incentivo que tem me dado e à todos os meus amigos do Brasil que sei que estão torcendo por mim.
Quais serão as suas próximas aventuras?
Estou com muitos planos de acompanhar o Garret nas trips, mas acho que isso só a mãe natureza poderá nos mostrar. Abração e Aloha!
