
Após passar dez dias no Nordeste acompanhando duas etapas dos dois maiores circuitos de surfe do Brasil, vivi dois mundos diferentes no que se refere ao estilo dos campeonatos.
O primeiro rolou o circuito Petrobras, totalmente voltado para o surfe feminino. O outro, o SuperSurf, reúne a elite profissional, de homens e mulheres, numa mesma competição.
Os dois foram impecáveis quanto à estrutura e organização, mas completamente distintos em suas propostas e estilos. Nunca, antes da existência do Circuito Petrobras, um campeonato foi tão apropriado e idealizado para o público feminino. Uma proposta de competição com educação e dignidade. Nele vemos a arte de ser mulher.

O que quero dizer com isso é que realmente somos diferentes e merecemos um evento de acordo com nossas necessidades. Somos mais sensíveis, mais delicadas, mais família, e mais mil outras coisas que nos diferem dos homens.
A alma feminina é solidária, é mãe que procria, como a terra que produz frutos. Só uma outra mulher poderia captar essa necessidade feminina e criar algo tão especial.
Há três anos, Laila Werneck teve a coragem e o arrojo de implantar no calendário brasileiro do surfe um evento tão diferenciado e dedicado totalmente às mulheres. Tudo foi muito bem elaborado, desde as categorias inseridas, até as atividades extra-competição que acontecem durante o evento.

Nos anos 80, o surfe feminino no que se refere a competição era uma única categoria sem distinção de idade, onde o nível das surfistas se misturava.
Agora, vemos uma seleção justa e organizada. São cinco categorias bem divididas: Grommets, Mirim, Longboard, Open e Profissional.
Todas têm chance de evoluir sem que tenham que se expor em situações de desvantagem. O surgimento da categoria Longboard nos últimos anos também tem atenção especial neste evento e vem crescendo muito.
Mas, isso não é tudo. Tem ainda o lado artístico e bem feminino, que envolve e contagia todas as participantes e o público presente. A preocupação com as causas sociais e ecológicas faz parte das atividades e, a cada etapa, é lançada uma nova campanha com participação das atletas.

Já foram abordados temas como: combate ao câncer de mama, doações de sangue, gravidez na adolescência e prevenção à violência doméstica feminina. Cada tema com direito a uma palestrante na areia.
A maior surpresa da última etapa foi o emocionante depoimento de uma das surfistas. Ela declarou ter sofrido violência doméstica e fez questão de tornar pública sua história emocionando as ouvintes.
E tem mais, tudo é feito com muito charme e um toque bem feminino. Já foi montado até salão de beleza na praia. As meninas receberam tratamento especial para os cabelos e dicas de como protegê-los do sol e da água do mar.

Ainda ganharam massagem e tiveram a oportunidade de se tatuarem como henna. Tudo é aproveitado e passado às meninas como ensinamento. Sempre tem um show à parte valorizando as raízes culturais do lugar onde o evento é realizado.
Podem ser grupos folclóricos ou até uma banda nova do pico. Na hora do show tudo pára, e as atletas apreciam com atenção. No final unem-se ao grupo dançando com os artistas. A alegria toma conta da praia impressionando quem assiste.
Artistas locais também são convidados para expor seus trabalhos na areia durante as competições. Causas ecológicas como o replantio da restinga da Barra da Tijuca serve como lição à parte.

A organização cuida de todos os detalhes, as meninas recebem comida, brindes e ainda é disponibilizado um ou dois ônibus que levam garotas do Nordeste para Rio e São Paulo, ou ao contrário. A competição acabou se estendendo até o Nordeste justamente para estimular as surfistas locais.
Desconheço a existência de outro evento como este, tanto aqui, como fora do Brasil. O circuito Petrobras é muito mais do que um simples campeonato. É uma lição de solidariedade, que explora a arte, cultura, educação e valoriza a mulher com o respeito que ela merece.
É um evento onde as meninas, além de competir, participam ativamente das causas em questão e isso serve de exemplo para as mais jovens. Este é um ótimo modelo para ser seguido por quem atua e vive deste mercado. É importante ter a consciência de que precisamos dar para receber, educar para ter respeito e valorizar para crescer.
Valeu Laila “Mamuxca” Werneck, Pedro Falcão e Petrobras!
Parabéns!
