Surf movido pela paixão

O big rider carioca Evaristo “Kiko” Ferreira é um exemplo de amor e dedicação ao esporte.

 

Aos 32 anos, Kiko é um dos poucos surfistas de ondas grandes que ainda remam para o outside nos maiores dias sem ajuda de máquinas e parceiros, rema com vontade nas maiores e bota pra baixo com coragem e disposição.

 

Em sua 12a temporada nas ilhas havaianas, ele conta que só conseguiu aterrissar no North Shore de Oahu este ano graças a persistência e a ajuda de amigos e conhecidos do meio, como alguns tops do WCT que lhe deram dinheiro e produtos durante a etapa brasileira do mundial, no ano passado em Florianópolis.

 

Em entrevista exclusiva concedida a Bruno Lemos direto de Oahu, ele fala sobre as principais dificuldades em se manter no Hawaii, as diferentes ondas grandes do mundo e o tow-in, modalidade que cresce a cada temporada e é sinônimo de surf em ondas grandes.

 

Quem é Evaristo “Kiko” Ferreira?

 

Bem, tenho 32 anos, nasci no Rio de Janeiro e aprendi a surfar no Arpoador. Sou regular, minhas ondas prediletas são Backdoor, Pipeline, Off The Wall e Waimea, no Hawaii, estou namorando há 1 ano e meio, atualmente moro em Floripa, na Barra da

Lagoa, e amo esse lugar. Tenho apoio da Bully’s acessórios, Mormaii, Natural Mistyc restaurante, North Shore resinas e das pranchas Mauro Roxo.

 

Há quanto tempo você freqüenta o Hawaii e como está sendo esta temporada?

 

Eu venho pro Hawaii há doze anos. Esta temporada pra mim está sendo a mais guerreira de todas, vim com auxílio de alguns amigos e de alguns dos tops do WCT, que me deram uma grana e uns produtos pra eu vender antes de vir. Cheguei com apenas quatro pranchas, um quiver de leashes e US$ 28 no bolso. No meu terceiro dia aqui já estava trabalhando na feira Swap Meet das 4 da manhã às 6 da tarde, existem vários brazucas fazendo isso pra sobreviver… É complicado, mas é a verdade. Sei que deu muita onda até o final do Pipe Masters, que foi mais ou menos quando eu cheguei, mas depois disso ficou horrível. Para mim até agora está sendo uma das piores temporadas que já passei. Não deu muita onda, só “kona wind” (maral) e até os fotógrafos estão entediados. O localismo está mais tranqüilo e não tenho problemas, conheço todos os locais e todos me tratam super bem.

 

Quais as principais dificuldades que o surfista brasileiro enfrenta no North Shore e qual a melhor maneira de lidar com elas?

 

Em primeiro lugar, os preços das pousadas estão cada vez mais absurdos, as pranchas brasileiras não funcionam muito e temos que fazer algumas aqui, que acabam saindo bem caras, ou muitas vezes não podemos fazer pela falta de grana, decorrente da falta de patrocínios e apoios das empresas brasileiras. Existem muito mais surfistas do que empresas dispostas a apoiar, e o localismo agressivo chega a ser criminoso. Este ano os locais apavoraram o Pigmeu e o Paulo Moura na competição de Haleiwa, as ondas são extremamente fortes e perigosas e, pra terminar, os brasileiros não são bem vistos por aqui já há alguns anos. A melhor maneira de lidar com todas essas dificuldades é ser muito humilde, ter fé em Deus, trabalhar muito aqui no que pintar e tentar sempre surfar cedo antes do crowd pra fazer a cabeça e depois surfar novamente só pelas fotos, no caso de quem é profissional do esporte e precisa desse tipo de retorno. Fé em Deus, atitude dentro e fora d’água e humildade acima de tudo!

 

Na sua opinião qual a melhor maneira para conseguir surfar ondas grandes no Brasil?

 

Em primeiro lugar, preparar-se bem, depois fazer um bom quiver de pranchas e depois ficar monitorando os swells pela internet para sempre saber onde ele vai chegar melhor e maior. Pra tudo isso é preciso ter também uma boa condição financeira e tempo livre… O melhor local de surf pra ondas grandes é sem sombra de duvidas o Rio de Janeiro, aquela cidade reúne todas as qualidades de ondas e tamanhos possíveis para que um lugar seja considerado perfeito pro surf de ondas grandes. No inverno no Rio não existe o problema dos ventos fortes de Floripa e os swells de sul entram perfeitos. A segunda opção seria São Paulo e Fernando de Noronha na temporada.

 

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Como você compara as ondas grandes do Pacífico Norte (Hawaii, Maverick’s) com as da América do Sul (Chile, Brasil e Peru)?

 

Cara, o Pacífico Norte é simplesmente muito forte e violento, Hawaii e Maverick’s pra mim são locais em que as ondas quebram com uma intensidade enorme e muita força mesmo. Já no Pacífico Sul também temos ondas gigantes, como as de El Buey e Pico Alto, no Peru, mas os swells gigantes demoram um pouco pra chegar, não são tão constantes como no North Shore de Oahu ou em Maverick’s. A diferença principal está na Constancia de entrada de swells, mas o Chile e o Peru são as melhores opções de surf  de ondas grandes na América do Sul. Já o Brasil é bem legal, mas não tem ondas de 20 pés. 

Pelo menos por enquanto.

 

Você pratica tow-in? O que acha da modalidade e como acha que será o futuro do esporte?

 

Eu já fiz tow-in sim. Fiz uma vez aqui em Oahu com um amigo e outras vezes no Brasil com meus amigos de Floripa, o Capilé, Adriano Bola e outros. Na verdade acho bem legal, deve ser incrível pegar tubos que cabem três ônibus dentro, mas é um outro esporte e é supercaro, fica difícil pra qualquer ser humano sem grana começar a praticar. Quero um dia ter um jet e começar, pois sei que sou capaz

de surfar estas ondas, me sinto muito bem preparado e pronto pro tow-in, só preciso de uma chance. Na verdade acho o surf de ondas grandes na remada algo assim inexplicável, que exige muito mais habilidade e talento, mas não descarto a hipótese de fazer tow-in um dia. O tow-in foi uma fuga do crowd e a única maneira de surfar ondas de 40 pés pra cima. O futuro do esporte é cada vez mais os atletas puxarem seus limites, o cinema entrando na parada pra fazer grana, a produção de vários vídeos, muita gente se machucando e outras pegando os tubos da vida e etc…Vejo uma interatividade imensa entre as grandes empresas motonáuticas com os surfistas e uma troca de informações importantíssima entre eles, mas o surf de remada sempre será o surf de remada pra mim, o surf que depende inteiramente de você e mais ninguém, sua saúde tem que estar impecável.

 

Você acha que concursos como o Billabong XXL e o Towsurfer trazem algum benefício para o surf de ondas grandes?

 

Acho legal sim todo esse reconhecimento por partes das grandes marcas, elas é que nos promovem de certa forma. Algumas pessoas não gostam de competição, mas é foda, a gente já nasce competindo. Sinceramente, quem mais se dá bem com isso são elas e é preciso colocar juizes de todos os países para que não haja os favoritismos que estão ocorrendo nesses concursos. Foi ridícula a derrota do Danilo Couto e também a minha no ano passado, mas ta limpo.

 

Quais são seus objetivos para o futuro?

 

Quero muito continuar surfando como profissional e viajar o máximo que puder atrás de swells irados e locais inóspitos. Pretendo ir pra todos os campeonatos de surf em ondas grandes e gigantes. Quero seguir meu caminho no surf e um dia se Deus quiser trabalhar com isso quando já estiver velhinho. Eu amo o surf, foi ele que me salvou e é ele que me mantém jovem e feliz como uma criança. Se Deus quiser esse ano devo arrumar um bom patrocínio e vou conseguir fazer as viagens mais importantes. Vou tentar também terminar meu curso de direito na Federal de Santa Catarina, falta apenas um ano e meio.

 

Deixe uma mensagem para os internautas do Waves.

 

Galera, o surf é pura magia, uma diversão irada! Não surfem por fama ou por dinheiro e patrocínios, mas sim pela energia maravilhosa desse esporte, pelo contato diário com a natureza e pela bênção e riqueza de poder estar com ela diariamente. Eu costumo dizer que o surf é tão legal que quanto mais praticamos mais nos apaixonamos, é um esporte em que a gente não passa calor e nem sua, é muita vibe. Mantenham-se afastados das drogas e dediquem-se, pois é muito difícil atingir um estágio de alta performance sem disciplina. Que Deus abençoe a todos e um big Aloha!

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