Sujeira em São Conrado

“O melhor do Brasil é o brasileiro”. É o que diz uma propaganda estatal amplamente divulgada na mídia.

 

Porém, quando se trata de preservação ambiental, pode-se afirmar exatamente o contrário.

 

Infelizmente, nosso país é marcado por uma crônica irresponsabilidade de políticos e administradores públicos perante nosso patrimônio natural.

 

Um exemplo ocorre na praia de São Conrado, mais precisamente no canto esquerdo que abriga

uma das mais tubulares e potentes ondas do sudeste brasileiro. Para quem não conhece, o pico propicia uma onda de fortes emoções.

 

Paraíso do bodyboard e reduto da galera da Rocinha, maior favela do Brasil situada a poucos metros dali, essa onda é conhecida por quebrar pranchas e oferecer tubos.

 

O americano Matt Archbold, por exemplo, quis colocar a onda à prova com seus aerials e recebeu como troco uma fratura exposta na perna. Essa onda gosta de respeito e oferece em troca fortes emoções em ondas ocas.

 

A exemplo de várias outras praias no Rio de Janeiro, nela desemboca um afluente que em outras épocas era composto por águas cristalinas provenientes das, então virgens, montanhas – hoje ocupadas em sua maioria por favelas. Atualmente, esses afluentes desabocam na praia trazendo uma grande quantidade de detritos provenientes desses locais.

 

A situação fica particularmente mais crítica por ocasião das fortes chuvas que, de tempos em tempos, castigam a cidade. Como conseqüência, grandes línguas negras de esgoto se formam nas areias de São Conrado, porém raramente alcançando o mar.

 

A solução para esse tipo de problema passa pela construção de um sistema de tratamento dos eflúvios pluviais e pelo desvio destes para o emissário submarino, mas o governo estadual através da Secretaria Estadual de Rios e Lagos (Serla) optou por uma
solução menos trabalhosa.

 

Com o nome de “Tratamento de Esgoto de São Conrado”, a Serla iniciou uma obra de desvio do esgoto pluvial da praia. Agora, ao invés de cair na areia da praia, ele passaria a ser jogado diretamente dentro da água, mais exatamente no pico de São Conrado, onde os surfistas pegam onda!

 

O projeto que possui apoio da Associação de Moradores e Amigos de São Conrado (Amasco) causou imediata reação dos surfistas moradores da região e que freqüentam o pico. “O projeto atende ao interesse dos especuladores imobiliários com sua visão míope”, afirma José Luiz Lamosa, um dos líderes do movimento contra a obra.

 

“Trata-se de uma obra de maquiagem e não de despoluição. O que eles estão fazendo é simplesmente desviar o esgoto da frente do Hotel Nacional para dentro d’água”, afirma. Atualmente, o Hotel Nacional está fechado e a incômoda língua negra na praia dificulta sua venda. Entrou-se com um recurso junto ao Ministério Público pedindo uma revisão do projeto.

 

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“Queríamos que, no mínimo, a tubulação fosse estendida mais 200 metros para que os eflúvios pluviais não fossem jogados tão próximos dos surfistas”, diz Lamosa.

 

Esta seria uma solução parcial para o problema, já que continuaria se jogando esgoto não tratado na água. O ideal seria conectar a tubulação ao emissário submarino já existente.

 

“Faz parte da cultura de gestão ambiental brasileira jogar os detritos diretamente no mar”, explica o biólogo André Breves.

 

“Porém os oceanos possuem uma capacidade

limitada de depuração desse material orgânico que acaba retornando às praias, especialmente nesse caso, quando o esgoto é jogado praticamente na área de arrebentação”, reforça Breves.

 

A tubulação do esgoto fica escondida sob um calçadão construído para essa finalidade. Esse calçadão representou um avanço de pelo menos 10 metros da calçada sobre a areia.

 

“Esse tipo de obra é muito arriscada pois altera a dinâmica da areia na praia podendo, por exemplo, afetar significativamente a formação dos bancos de areia e consequentemente das ondas”, explica Breves.

Durante todo o tempo em que o recurso tramitou na Justiça, a obra continuou em andamento, ora em ritmo mais rápido, ora em ritmo mais lento, despertando as reações mais diversas entre a população afetada. Na Rocinha, por exemplo, muitas pessoas viram com simpatia a obra  pois o calçadão serve como uma espécie de nova área de lazer.

Seu Severino, por exemplo, dono de um trailer bem ao lado do calçadão, achou benéfica a obra. “Ela criou um espaço que não havia antes, permitindo que mais pessoas circulassem nessa área”.

 

Ou seja, foi bom para o negócio dele. Ponto final. Naturalmente, a galera do surf e  bodyboard não compartilha a mesma idéia. A obra representa uma clara ameaça à saúde dos freqüentadores do pico. Além disso, exigiu a dinamitação da encosta espalhando pedaços de pedra por toda a praia, colocando em risco os frequentadores.

 

Tamanha agressão ambiental fortaleceu a união da diversificada população de surfistas que freqüentam o pico. Morro e asfalto se uniram para tentar deter o insaciável avanço da empreiteira encarregada em fazer o estrago.

 

Moradores da Rocinha também participaram do movimento. Um deles foi Ricardo Bocão, homônimo do famoso apresentador. Bocão tem uma longa trajetória de liderança e compromisso social na Rocinha, implantando uma escolinha de surf e estimulando os mais jovens a se manterem no caminho certo com ajuda do esporte.

 

Recentemente, Bocão conseguiu uma vitória para a galera surfista do morro: um espaço para guardar pranchas foi montada próximo à favela. Lá as pranchas são guardadas, consertos são feitos e recebe-se ainda a doações de equipamentos.

 

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Quando Tom Carrol fez uma recente visita à Rocinha e ao canto esquerdo de São Conrado, Bocão o acompanhou. Carrol fez questão de percorrer as vielas da favela e deu a Bocão uma prancha Byrne. “Carrol fez questão de dar uma aula aos nossos alunos sobre como se entubar”, lembra Bocão.

 

Bocão reconhece que o movimento de embargo da obra não teve o total apoio da população da Rocinha. “Os surfistas são vistos com reserva na favela, sendo considerados, de certa forma, como uma elite privilegiada. Aos olhos da população da favela, a questão da obra apareceu para muitos como uma questão que interessa apenas aos surfistas e não à toda comunidade”, conta.

 

Protestos unindo diversas classes sociais foram feitos para chamar a atenção da mídia para a obra que tornaria o pico de São Conrado um imenso esgoto a céu aberto. O rapper Gabriel Pensador emprestou seu prestígio para chamar atenção da irresponsabilidade ambiental que estava sendo cometida em São Conrado.

 

O processo foi a julgamento e o Ministério Público decidiu que a obra seria mantida, pois já se havia gasto muito dinheiro nela. Uma derrota do bom senso. Como sempre acontece, a corda arrebenta do lado mais fraco.

Bocão recebia auxílio do Governo do Estado do Rio de Janeiro para dar aulas para a comunidade da Rocinha. Numa curiosa coincidência, depois de seu nome ter aparecido na mídia associado aos protestos sua verba foi suspensa. Coincidência mesmo?

 

A obra mudou de forma irreversível o visual do pico e, devido ao seu andamento mais arrastado, uma enorme vala ao céu aberto surgiu pondo em risco a saúde e dando ao canto esquerdo um aspecto de terra arrasada. Para aumentar a seqüência de absurdos, as recentes chuvas de janeiro evidenciaram uma nova língua negra no meio da praia em frente a um outro hotel em plena atividade.

 

Ou seja, é bem provável que a tal obra não sirva para nada além de gastar, e bem, o dinheiro público. Segundo José Luiz Lamosa, dois políticos famosos do Partido Verde
demonstraram interesse pela causa dos surfistas, porém de forma superficial. “Não tivemos apoio verdadeiro de ninguém, fizemos tudo sozinhos”, conta ele.

 

Já se sentem alguns impactos claros da obra. “Tenho observado uma alta incidência de micoses de pele nos meus alunos e muitos já se machucaram nas pedras que se espalharam pela praia após as explosões”, informa Wanderley Silva, dono de uma populosa escolinha de bodyboard em São Conrado, e também contrário à obra.

 

A natureza, porém, costuma ser caprichosa quando se trata de Brasil. Quando não chove, o esgoto fica represado dentro da tubulação e por falta de potência, não caí na água. Além disso, o canto esquerdo tem apresentado um fundo excelente como a muito tempo não se via, como se o mar estivesse recompensando aos surfistas, que tão árduamente o defenderam da irresponsabilidade das autoridades públicas.

 

É, talvez Deus seja brasileiro…

 

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