É com muita felicidade que escrevo sobre a minha décima sexta viagem ao Hawaii, um arquipélago paradisíaco e que considero como um dos mais poderosos do planeta. Neste ano, estive nas ilhas por 90 dias. Trabalhei, treinei dentro e fora da água e vivi o sonho do surf ao extremo.
Na verdade tudo começa sempre no Brasil. A preparação física varia entre corridas, treinos com corda de saltar, apneia (estática e dinâmica), natação, mergulhos livres, entre outras coisas.
Levei pranchas feitas com cuidados extremos. Modificamos o fundo, tamanho, espessura, a caída das bordas e também fizemos o edge mais afiado, para momentos de extrema precisão em cavadas super arriscadas. No Hawaii, uma derrapada pode significar um grave acidente. Muitas vezes um descuido pode transformar o sonho em pesadelo.
Os big riders brasileiros estão muito bem preparados, mas hoje vejo a grande diferença de quem optou por morar nas ilhas e os que ainda sonham em viver do surf aqui no Brasil. Simplesmente não há dúvidas, quem vive lá tem muito mais chances de arrebentar no surf em ondas de verdade. Eles treinam, vivem e respiram aquele ar. Vivem a realidade daquela natureza e praticam o surf no palco real. Porém não desmereço a galera daqui.
Além de mim, temos hoje Felipe Cesarano, Gabriel Pastori, Lucas Silveira – que por sinal dropou boas ao meu lado em Waimea -, Rodrigo Jorge, entre outros que não moram nas ilhas, mas também são verdadeiros guerreiros dos mares bravios.
Amo isso no surf, essa adrenalina das ondas gigantes e os amigos que estão lá conosco, torcendo para nós e para as gerações mais novas. Isso faz bem, nós puxamos o bonde e eles vieram mesmo no rastro. Parabéns para Carlos Burle, Rodrigo Resende, Eraldo Gueiros e tantos outros que representaram e ainda representam tão bem essa galera que começou tudo.
Eu estou na coluna do meio, com meus 39 anos, mas a molecada está demais, vieram com tudo e já estão com seus nomes no XXL.
Na maioria dos casos, nossos super-homens brasileiros não têm bons patrocínios ou excelentes salários. Muito menos jet-skis de última geração ou coisa parecida. Mas somos o que somos pela garra, determinação e muita fé. Acredito que ainda vamos longe com o big surf, se Deus quiser.
Quando saí daqui rumo às ilhas no dia 4 de dezembro, pude levar apenas seis pranchas: três Arakawas e três Udo Bastos. Foi difícil demais, pois sabia que precisaria de mais sete no mínimo para poder fazer o comercial e dar um bom retorno de free surf aos meus co-patrocinadores. Então cheguei, paguei minha estadia e logo em seguida corri atrás de um trampo, pois precisaria comprar um carro, pagar minhas pranchas e ainda mandar dinheiro ao Brasil para as contas que não param de chegar.
É incrível como lá fora tudo é muito mais fácil. Dá realmente para viver e ter uma vida razoável. Você trabalha de 6 a 8 horas por dia em apenas quatro dias e vive super bem. Muitos fazem isso lá. Vi o fotógrafo Pedro Tojal colocando flyers nas portas de bases militares para divulgar a Pizzaria Domino’s, que também virou meu trabalho. Era legal porque fazíamos nosso horário. Tudo isso por amor ao esporte.
A malhação também fazia parte do meu dia. Duas horas por dia de treinos fora da água e muitas dentro. Quando havia ondas, mudávamos nossa escala de trabalho para outros dias e assim surfamos muito. Era animal.
Surfei ondas de 1 até 7 metros. O maior dia foi quando o Eddie Aikau foi cancelado. Que dia lindo, à tarde o mar cresceu novamente e deram altas ondas, vi todos arrebentando. Destaque para Igor Lumertz, gaúcho radicado no Hawaii. Eu consegui pegar duas ondas de bom tamanho também, tomei uma série enorme na cabeça e pude testar meus treinos na hora H. Foi muito massa. Ainda surfamos Pipeline em dias bons e incríveis, além de Off-The-Wall. Foram meses de muita luz e adrenalina, dias intensos como sempre.
Como abandonar esta vida? Viajar, conhecer novas culturas, viver ao lado da mãe natureza, conviver com animais como, por exemplo, em Java, Indonésia, onde até tigres podem ser vistos. Como largar este lifestyle? Simplesmente impossível para mim.
Neste exato momento estou tentando fechar apoios e patrocínios para ir ao Chile e disputar o evento de ondas grandes do BWWT (Big Wave World Tour) em Pichilemu. Se der tudo certo este será meu primeiro ano neste circuito. Quero muito chegar lá também, conquistar meu lugar ao sol e surfar as maiores bombas.
A preparação já começou. Aliás, ela nunca para. Já estou treinando forte novamente, fazendo duas guns e escolhendo as roupas especiais de frio, botinhas, etc. Fazer esta mala de viagem é alucinante. É a mala de mais um super-heroi brasileiro indo atrás de seu sonho.
Valeu muito a temporada 2010 / 2011. Mas o sonho continua e a vida também. Que Deus abençoe a todos e que sempre nos deixe dispostos a nos renovar, crescer e quem sabe um dia sermos verdadeiros super-herois do surf, não pelas vitórias, mas pela humildade de amarmos a vida como ela é.
Hoje conto com apoio da Local, Mad Dog, Rhyno Foam, pranchas Udo e Erick Arakawa Brasil e academia Body Tech. Não tenho patrocinador, se alguém se interessar favor entrar em contato pelo [email protected].
Foto da capa James Thisted