Silvana Lima é a nova sensação do surf brasileiro

Na capa do Jornal do Brasil de segunda-feira (28/07) uma foto, colorida!, de Silvana Lima, vitoriosa nas duas principais categorias na primeira etapa do Circuito feminino que a Petrobras patrocina por obra das nossas complicadas leis de incentivo.

 

Nunca vi tanta cobertura, nem em WCT. Na sexta, supostamente um dia sem muita importância, contei sete câmeras Beta na praia, devidamente acompanhadas de respectivas repórteres. O fato de o campeonato se realizar em Ipanema, logo em seguida da semana da moda no Rio, deve ter contado muito ponto a favor – falta de assunto nas editorias de esporte, talvez, o outro…

 

Naturalmente, todo mundo, especialiazados ou não, buscavam as mais famosas, quando não as mais bonitinhas, as musas que rendem boas matérias, as mais novinhas, as mais velhinhas.

 

Tirando as 120 meninas que competiram, o resto se contentava em passar o tempo todo de costas para o mar, ignorando o desempenho, evitando uma análise mais acurada (epa!), dando suspiros aborrecidos quando não encontravam alguém para aporrinhar. Alheia a tudo isso, uma cearense, mais uma cearense!, tratava de surfar de maneira nunca antes vista em águas cariocas, arrisco dizer, águas brasileiras.

 

Duas semanas antes, num campeonato local da Associação de Ipanema, amigos me chamaram a atenção para uma “nordestina” que competiu entre os homens no Júnior e passou duas baterias. No feminino a disputa foi pelo segundo lugar. Acreditei, mas como o tal do santo que só acredita vendo, fui conferir com esses olhos que a terra há de comer.

 

Licença para um parêntese: Corria o ano de 90, uma menininha muito da bonitinha, olhinhos claros, quadril largo, 17 aninhos, patrocinada pela Quiksilver, isto foi uns quatro anos antes da criação da Roxy, pranchas do All Merrick, já a conhecia das revistas, era a aposta americana para o futuro do surfe feminino.

 

Lisa Anderson surfava com uma linha limpa, sem muitos trejeitos com os braços, que sempre caracterizou as surfistas, pisava firme e fazia manobras feito um guri da idade dela. O resto da história vocês todos conhecem. Pois o impacto de assistir, sentadinho na areia, Silvana debulhando as ondas em Ipanema foi muito maior do que em 90. Olhava para os lados e procurava os fotógrafos, os câmeras, as estudantes de jornalismo com calcanhares sujos do Nélson Rodrigues, um sujeito qualquer de crachá de grande imprensa, nanica, umzinho só…nada.

 

Tudo cego pelo clichê, pela frase feita, pronta. E, dentro d’água, numa inocência e obstinação de um Garrincha, Silvana ia atropelando uma a uma. Pra começar, a guria tem colocação de tubo. Postura, noção de espaço e agilidade para se meter e sair de qualquer caroço que fechava nos cocos de Ipanema. Perdoem-me pela franqueza e empolgação, nunca vi uma garota com colocação de tubo – nem aqui nem lá fora. Nem me venham com Rochele, nem Keala. Atitude e coragem é uma coisa, faro e colocação são outros 500…

 

Velocidade! Meu Deus, que velocidade tem a Silvana, ‘ces tinham que ver. A pisada, por mais machista que possa parecer (e só por esse comentário já o é), o jeito de pisar na prancha é de homem. Tem força e projeção. Suas finalizações são fantásticas. Não se trata aqui de uma menina que surfa como você ou eu, Silvana surfa duzentas vezes mais do que você, eu e mais da metada dos caras que correm o Super Surf.

 

Um leitor mais exaltado vai se enfurecer e dizer que mais do que fulano ela não surfa. Surfa. – Ah! mas num surfa onda grande! Por enquanto, malandragem, por enquanto… Lembrem-se de que a Tita tambem não tinha nenhuma experiência no Havaí e arrastou dois campeonatos seguidos em Haleiwa. Silvana Lima veio de Paracuru, direita perfeita com fundo de pedra, a umas duas horas de Fortaleza, ou mais, se não me engano, distante dos centros mesmo do surfe nordestino.

 

Foi preciso a iniciativa dos irmãos Pedro e Thiago Cunha, garimpeiros de talentos, para alertar outro amigo, o shaper Udo Bastos, que aquela baixinha era o futuro do surfe. Dito e feito. Foi assim antes com Adilton Mariano, Pablo Paulino, Bibi, Martin Bernardo e outros, um empreendimento ousado e corajoso. Mas, entretanto, com Silvana a conversa é outra: trata-se de uma campeã mundial nata.

 

Durante o evento da Petrobras ela não perdeu uma única bateria nas duas categorias. Sua prancha, branquinha, não ostenta nenhum patrocínio. Talvez porque, como disse Brigitte Mayer durante a competição, ela não se encaixe nos padrões de beleza exigidos pelas marcas de roupas de surfe nacional – Brigitte usou o exemplo de um anúncio, em saite, de griffe pedindo meninas com “boa aparência” para serem ‘usadas’ ( tá na propaganda!) em futuras campanhas (sic).

 

Ouso afirmar publicamente que a cearense no WQS em três anos é campeã mundial, uma vez no WCT, se nada a desviar, destrona toda a turma de loirinhas da Surfer/Surfing. A graça e beleza de Silvana se descobre quando sobe elegante na sua prancha. O surfe tambem serve à isso. Pura estética, pura sensibilidade.

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