Simon Anderson

Shaper trilegal

 

Simon Anderson durante  o ASP World Masters 2011, Arpoador, Rio de Janeiro (RJ). Foto: © ASP / Cestari.

O australiano Simon Anderson, atualmente com 57 anos, é uma das maiores lendas da história do surf mundial. Além de ter sido um bom competidor no incipiente circuito mundial, na década de 80, foi, talvez, o maior contribuinte do surf moderno. O surf, como é praticado nos dias de hoje, com velocidade e radicalidade sem precedentes, deve muito a Simon Anderson, criador da triquilha Thruster. 

 

Ao colocar uma terceira quilha sob a prancha, Simon alterou, drasticamente, os parâmetros e o rumo do esporte. O blog Near The Ocean e o site Waves foram atrás dos detalhes de uma das maiores revoluções no surf. Confira tudo na entrevista exclusiva com Simon Anderson.

 

Simon, o que mudou na sua vida desde que você criou a triquilha Thruster em 1980?

 

 

Simon Anderson já veio ao Brasil algumas vezes para produzir seus foguetes. Foto: Herbert Passos Neto.

Nada, apenas reconhecimento por estar envolvido em um importante ponto no desenvolvimento da prancha moderna. Eu ainda faço pranchas, surfo o máximo possível e trabalho no desenvolvimento de novas combinações de elementos de design para mudar a sensação do meu equipamento e desenvolver novos modelos.

 

 

Sabemos que o que motivou a invenção da Thruster foi o domínio exercido por Mark Richards com uma biquilha, durante o circuito mundial de 1980. Conte-nos, exatamente, o que passou pela sua mente quando você teve a ideia de criar a triquilha Thruster.

 

Eu pensei que talvez pudesse unir a velocidade e a sensação de estar solto da biquilha com a estabilidade e o controle proporcionados pela monoquilha. Assim surgiu a triquilha, em outubro de 1980.

 

A maioria das pessoas o conhece por ter criado a triquilha Thruster, mas não sabe que você foi um surfista profissional. Isso o incomoda? Você gostaria de ser lembrado como um bom surfista profissional que foi ou como o criador da Thruster?

 

Eu preferiria ser lembrado pelo meu surf, mas meus feitos em cima da prancha não foram bons o suficiente para me manter. Então, eu tenho sorte de ser reconhecido como shaper e sou feliz com isso.

 

Quando você decidiu se dedicar à fabricação de pranchas teve de parar um pouco de competir. Você se arrepende disso? Como você lidou com essa escolha?

 

Não, nem um pouco. Eu sempre avaliei a minha situação competitiva de acordo com circuito mundial e com o meu potencial para fazer o melhor nele. Nós estávamos, ainda, desenvolvendo o surf profissional e o circuito mundial, então não era algo ideal para grandes pessoas. Era difícil manter o foco nas competições, em particular quando elas aconteciam em regiões de ondas pequenas. Sendo um shaper, eu possuia duas profissões, então, dependendo das circunstâncias, eu pendia para uma delas. Por exemplo, quando chegava à temporada havaiana, meu foco, definitivamente, voltava-se para o surf profissional, o mesmo ocorria durante a perna australiana do circuito mundial. 

 

Como ocorreu o processo de apresentação da triquilha ao mundo, e a posterior aceitação dela?

 

Em 1981, eu tinha a missão de provar ao mundo que a triquilha era um projeto válido. Em janeiro do mesmo ano, estive na Califórnia para lançar um modelo pela Nectar Surfboards. Fizemos alguns protótipos da triquilha Thruster e os apresentamos para o mercado americano numa mostra em Orlando. Fomos, basicamente, expulsos do prédio por risadas e zombarias. Eu não liguei para aquilo, sabia que tínhamos de mostrar a credibilidade dessas pranchas, então era necessário que eu fizesse algo. Durante a temporada de 1981, eu tive um certo equilíbrio entre fabricar pranchas e surfar como profissional, mas acredito que me dediquei mais a este. Naquele mesmo ano, as ondas estavam de boas a épicas, o que me deu uma boa oportunidade de demonstrar o potencial da triquilha Thruster. Além disso, faz bem para a mente quando o mundo todo não acredita no que você está fazendo, acho que isso o estimula.

 

Fazer pranchas ou surfar, o que te faz mais feliz?

 

Definitivamente, surfar. Fazer pranchas é algo que faço para aumentar a diversão e o prazer das pessoas que surfam. Fabricar pranchas tem o seu lugar e cumpre a sua função. É ótimo ser capaz de ajudar os surfistas a encontrar a prancha certa, mas estar em uma sala pequena, com luzes fluorescentes em chamas e poeira voando não pode ser comparado a estar no oceano, em um lindo dia, pegando ondas.

 

O que você pensa sobre as pranchas de quatro e de cinco quilhas? Esses modelos são, realmente, melhores do que as triquilhas em certas condições? 

 

Eu acho que as pranchas de quatro e de cinco quilhas são modelos válidos, não é por acaso que Kelly Slater está trabalhando com esses projetos, principalmente com as pranchas de cinco quilhas. Alguns surfistas irão dizer que quatro quilhas é melhor, e eu tenho certeza de que elas funcionam melhor do que as triquilhas em certas condições. A principal questão é encontrar o que é melhor para o surf na região que você frequenta. 

 

Mas três parece ser o número perfeito de quilhas.

 

Talvez por enquanto, mas veremos o que vem por aí. Espero que haja mais avanços inovadores no design das pranchas para ajudar a todos nós. Ter boas pranchas para maximizar a sua diversão enquanto surfa é a missão de todos os surfistas, independentemente do nível em que você se encontra.

 

Simon, você foi imortalizado no Surfing Hall of Fame. O que isso significa a você?     

 

É bom ser reconhecido por algo que você fez há 30 anos, e também é uma honra ser homenageado junto com George Downing, Chuck Linen e Taylor Knox, pessoas importantes na história do surf.

 

Recentemente, você publicou um livro chamado “Thrust”. Conte-nos um pouco sobre ele.

 

O livro é sobre a minha vida, crescendo em Collaroy e North Narrabeen, nas praias do Norte de Sydney. Também retrata o caminho até o desenvolvimento da triquilha Thruster. É um livro estilo “coffee table”, com muitas fotos coloridas de pranchas-chave e de momentos-chave do surf.

 

É comum grandes shapers terem uma equipe de surfistas. Você possui uma?

 

Eu tenho um pequeno time de surfistas australianos, integrado por Jay Thompson, Adam Robertson, Felicity Palmateer e Freya Prum. Mas eu faço pranchas, de tempos em tempos, para muitos surfistas do World Tour.

 

Simon, muito obrigado pela entrevista. Se quiser, deixe o seu recado para os nossos internautas. O espaço é seu.

 

Muito obrigado pelas palavras amigáveis e pelo espaço. “Best regards”.


Lohran Anguera Lima é editor do blog Near the Ocean

 

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