Mario Pettini nasceu em 1926, e no domingo de 29 de março de 2009, se despediu da aventura de viver deixando saudades, não apenas pela ausência, mas pelo que representou como ser humano e como exemplo de homem em busca constante do saber.
Tive o privilégio de conhecê-lo, e às vezes que conversamos vi nele a importância do aprender, de estar sempre buscando, era uma pessoa que prendia as atenções e tinha prazer no que fazia.
Marcamos de nos encontrar no dia 30 de março, quando ele me entregaria um texto sobre algumas passagens da sua vida relacionadas à origem do surf no sul, o encontro não chegou a acontecer, pois no domingo ele já havia partido. Foi por intermédio de seu neto Felipe Pettini que recebi a notícia. Tive a sensação de tristeza por não ter me despedido dele, mas ao mesmo tempo senti uma alegria por ter tido a oportunidade de compartilhar um pouco da sua história. O que ele escreveu caiu como um presente para todos os apaixonados pela história do surf.
No fim da década de 50, Mario Pettini estava estabelecido em Porto Alegre, onde tinha uma fábrica na Av. Farrapos, que fabricava pequenos barcos em madeira compensada que revestia com tecido de vidro e resina epoxy.
Tanto a resina, da marca Araldite, como o tecido de vidro era adquirido da firma Suíça, Ciba. Desse relacionamento surgiram convites para assistir seminários sobre o uso de plásticos reforçados na fabricação de modelos de fundição e ferramentas de estamparia, o que abriu um leque de conhecimentos.
Em 1962, o chefe da divisão de plásticos da Ciba no Brasil, ao saber que Mario faria uma viagem à Itália, o chamou para dar um pulo ao laboratório de desenvolvimento de produtos da Ciba, na Basiléia para fazer um estágio, onde aprendeu muito.
Ao voltar ao Brasil, começou a fabricar em fibra de vidro, entre outras coisas, capacetes para motociclistas e corredores de automóvel. Aos poucos foi tomando conhecimento do uso de resinas poliéster e dos poliuretanos, aumentando a variedade de produtos que fabricava.
Pouco depois de voltar da Itália, por volta de 1963, Jorge Gerdau Johannpeter, sabendo que Mario trabalhava com fibra de vidro, vem ao encontro dele com a seguinte informação: ?Mario, meus irmãos e eu acabamos de experimentar umas pranchas havaianas, tirei fotografias em que eu apareço ao lado para ter uma referência de tamanho”. Desta conversa surgiram as primeiras pranchas de fibra de vidro feitas pelas bandas do sul.
Na verdade as pranchas eram toscas, mal acabadas, grandes e pesadas, mas refletiam o pouco que na época se sabia de tecnologia de fabricação.
De posse das fotos Mario foi à oficina de modelos para fundição do Fileno Vizentin, pedir-lhe se poderia fazer um protótipo. Ele pensou, coçou a cabeça, e terminou concordando.
O modelo, feito em cedro, ficou lindo. Se seu peso não tivesse ficado alto, teria sido usado como prancha, tinha um acabamento perfeito, madeira de primeira.
Deste modelo fizeram um molde em fibra de vidro, na verdade dois moldes: um para o dorso e outro para o ventre. Nestes dois moldes fabricaram as cascas que seriam as paredes externas, e no espaço interno injetaram a espuma de poliuretano.
A primeira peça foi perdida. A experiência em lidar com a espuma era pouca, a pressão dela contra o molde foi muito grande, os grampos de fechamento não resistiram à força de expansão da espuma, da qual a maior parte jorrou para fora do molde. A partir deste experimento, reduziram a quantidade de material, reforçaram os grampos e daí para diante elas foram ficando pouco a pouco melhores.
Fez pranchas para seus filhos Paulo e Roberto, o Fernando Sefton surfou também com pranchas Pettini. Esporadicamente vendeu algumas pranchas, mas na verdade a qualidade deixava a desejar.
Assim foi até novembro de 1968, quando Mario, que na época era piloto, foi buscar um avião nos Estados Unidos, lá acontecia a Feira Mundial de Plásticos em Chicago. Nesta feira conheceu uma firma da qual terminou se tornando representante para o Brasil. O Dono, porém disse que só daria a representação se, ao terminar a feira, ele visitasse sua fábrica em Los Angeles. Concordou, mas perguntou se ele conhecia um fabricante de pranchas de surf para que pudesse visitar e ver como eram feitas.
A resposta foi positiva, disse que conhecia o Dewer Weber. Assim conseguiu passar um dia em sua fábrica. Dele comprou uma prancha que terminou servindo de modelo para as demais que passou a fazer. Diga-se de passagem, que Dewer é considerado até hoje um dos grandes da história mundial do surf.
Nesta altura da história as pranchas já tinham baixado de tamanho de cerca de 3 m para 2,40 m. A fábrica de pranchas Pettini foi descontinuada. O imposto de consumo passou a taxá-las em 50% – como barcos ? e com mais 16% de ICM, seu preço tornou-se proibitivo. Os fabricantes de fundo de quintal passaram a tomar conta do mercado. E por aí adiante, já estávamos nos anos 70, as pranchas diminuíam gradativamente de peso e tamanho, chegando ao que hoje, em 2009, representa uma grande evolução tecnológica.
Mario veraneava em Atlântida, nunca conseguiu surfar bem, o que o motivou a mudar de esporte, o filho Paulo também não quis continuar, mas o filho Roberto e mais tarde o caçula Luiz continuaram surfando por anos e até hoje a família mantém a tradição do surf com os netos Felipe, Marcus, Ricardo, Rodrigo e Antonio Pettini.
A história do surf continua…
