Situados ao Norte do Chile, localizam-se duas cidades famosas, Arica e Iquique. Elas são conhecidos pelas ondas poderosas, água gelada e bancadas bem afiadas.
As bancadas destes lugares são cobertas pelo pior rival de um atleta, o tão famoso Picoroco! Um toque nestes animais marinhos, que podem chegar a 30 centímetros de altura, certamente abrirá um buraco em sua pele.
Em minha primeira viagem ao Chile, fui competir na cidade de Iquique em um evento local patrocinado pela marca Redley Fins. Minha primeira impressão, quando o avião sobrevoava o deserto, foi chocante. Nunca imaginaria que poderia existir uma cidade no meio daquele mundo de areia!
Arica é um lugar mágico, com ondas e areia por todos os lados. Como o ser humano é um ser que adapta-se em qualquer condição, simplesmente criaram cidades no meio do deserto do Atacama.
Arica e Iquique são os lugares mais desérticos do mundo. Para se ter uma ideia, demoraria cerca de 100 anos para encher uma caneca com a água da chuva do lugar. As casas foram outro fato que me chamaram muito a atenção. Os telhados são retos e servem para armazenar coisas sem utilidades.
Bem, voltando ao campeonato. Logo que o evento terminou, o organizador da etapa do mundial – o famoso Tomate – me chamou para conhecer o conhecido pico chamado Flopos para os locais e para nós mais conhecido como El Gringo, em Arica.
Peguei o ônibus de Iquique, cruzei o deserto, e depois de cinco horas já estava na rodoviária esperando o Tomate. Era bem cedo e fomos direto para El Gringo. Nunca há ninguém na água de manhã no Chile, o país funciona meio ao estilo europeu: acorda-se tarde, o comércio fecha na hora do almoço e dorme-se tarde.
Tinha uns 2,5 metros de onda e, quando parei na frente do pico, Tomate estava todo empolgado com as bombas. Eu olhava para ele meio que desconfiado e pensava: “este chileno safado está querendo me matar!” (risos). Quando vi a série, consegui entender o porquê da famosa esquerda do Gringo. Um tubão soltou duas “baforadas” e aí sim me animei!
Mas o engraçado foi quando ele me indicou por onde se entrava. O canal é de aproximadamente 1 metro de largura e ainda é necessário desviar de algumas pedras, só dá para entrar na calmaria!
Se entrar na hora errada, meu Deus, é certeza que irá pagar as consequências! Pulei na água e acho que nunca remei tão rápido, parecia que remava pela minha vida! Bem, eu remava. Consegui me posicionar no pico e foram mais de duas horas sozinho na água e com altos tubos.
Um ano depois, estávamos em uns 12 atletas brasileiros na etapa do Circuito Latino. Foi uma carnificina! Me lembro de ter sido o único brasileiro que saiu ileso do campeonato! Bem, vamos aos azarados:
– Hermano quebrou o pé em três lugares;
– Luis Villar fez dois buracos nos joelhos;
– Magno Oliveira foi dar um rolo bem em cima das pedras,
acabou se machucando do pescoço ao calcanhar e demorava quase uma hora para colocar remédio nos machucados;
– Alexandre Cruz, em sua primeira onda, foi dar um invertido aéreo, bateu com a cabeça e as costas. Resultado: dois buracos;
– Dudu Pedra foi colocar para dentro na hora que o vento entrou, bateu com a coluna tão forte na pedra que não conseguia mais andar. Depois o encontrei na pousada e claro, fui sacanear! Ele começou a pedir “pelo amor de Deus” para não fazê-lo rir, pois estava todo travado!
– O baiano Fábio Pinheiro foi entrar pelo famoso canal na hora errada e ganhou de presente cinco pontos no supercílio.
Mas a medalha de ouro dos desastres foi para José Otávio. Ele pegou um tubão e no final sentiu uma fisgada na perna, mas fez o tubo normalmente e voltou ao outside.
Depois ficou na água mais de uma hora e falou para o Dudu que iria sair porque a perna dele estava doendo. Não satisfeito, pegou uma última onda mandando um invertido aéreo animal!
Quando foi tirar a roupa de borracha, viu sangue na roupa e foi logo olhar sua perna. Tinha um buraco gigante! Resultado: dez pontos na panturrilha. O detalhe mais sinistro foi ele não ter sentido dor por causa da temperatura da água, congelante!
No final desta trip, o dono da pousada deu de presente um Picoroco para cada um e brincamos que no próximo ano voltaríamos com patrocínio de um plano de saúde!
Vou falar uma coisa que pode parecer provocativa! Desculpem-me pessoal do WT, mas a onda de El Gringo foi feita especialmente para os bodyboarders. Aquela esquerda é sensacional e nosso mundial “dá gosto de se ver”. São sempre cinco dias de alto nível de tubos e manobras. A etapa de Arica já se transformou em uma das melhores para se acompanhar!
Existe também uma onda muito boa em Arica, chamada de El Buey. Esta sim recebe toda a ondulação de Sul e quebra perfeita! Lembro-me de ter pegado altas ondas em um mês de junho, quando passei um dos maiores perrengues da minha vida!
Neste dia entrou uma esquerda de 5 metros. Ramon Navarro gritou para eu ir, mas como estava um terral muito forte, remei muito e não consegui entrar. Quando me virei, havia uma onda que nem consegui medir o tamanho!
Comecei a orar e pedir para Deus me tirar daquela situação! Fui arrastado por uns 400 metros sozinho. Detalhe: era minha primeira onda, ou seja, o pulmão ainda não estava preparado! Mas, graças a Deus, deu tudo certo depois de ver de perto o poder de El Buey.
Mudando um pouco de foco, resolvi dar umas dicas aos interessados em trips para o Chile!
Arica é um local bem barato para se hospedar. Possui uma variedade de hoteis com os mais variados preços. Sempre me hospedo no mesmo lugar, chamado Surfhouse, dos proprietários Kurt e Nicole. A diária custa mais ou menos uns US$ 15 e ainda possui cozinha.
Porém, a comida local é tão barata que vale a pena comer fora. Sobre as refeições, a melhor opção é pedir um prato executivo, com preços variando entre US$ 3 e US$ 5.
Particularmente recomendo o ceviche, prato feito com peixe fresco cru no limão, Ari (pimenta famosa chilena), cebola e coentro. Vale também experimentar a sopa de marisco.
A água no Chile é sempre gelada, então é aconselhável uma boa roupa de borracha 3×2 selada. Arica é um lugar maneiro para uma trip com amigos. Se você gosta de surfar cedo, provavelmente teria que ficar esperando alguém chegar para não cair sozinho. Os chilenos já estão tão cansados de pegar estas ondas boas que nem acordam cedo para surfar!
Por falar neles, os locais de Arica são as pessoas mais tranquilas do mundo. Eddy, um famoso bodyboarder, sempre leva umas empanadas para vender na praia. São até consideradas as melhores do lugar!
Por ser na América do Sul, o Chile torna-se relativamente barato para quem sai do Brasil. A passagem até Arica gira em torno de US$ 600 a US$ 700, e nós brasileiros não precisamos nem do passaporte, basta a carteira de identidade.
Nos dias de mar flat, vale a pena conferir os pontos turísticos de Arica. Uma subida ao morro na hora do almoço, quando o sol está bem em cima, permite fazer altas fotos do pico e do porto. Fora as montanhas de areia que são impressionantes!
Os meios de comunicação como internet e telefones são bem acessíveis. Pode-se usar tranquilamente a internet por US$ 1 a hora, e uma ligação para o Brasil é bem barata.











