
Escrevo de Tóquio, Japão, onde atualmente moro, trabalho e surfo desde março deste ano.
Vim para estudar na Ásia no ano passado e acabei ficando por aqui, para aprender mais sobre essa cultura, ganhar experiência profissional e, de quebra, surfar ondas diferentes.
Uma coisa é certa: a quantidade de ondas que eu pego é muito menor do que pegava no Brasil. Essa facilidade de ir pro litoral, ou já morar nele, é uma grande vantagem dos brasileiros.
E se as ondas não são sempre perfeitas ou tubulares, ao menos quase sempre tem uma boa brincadeira.

Aqui no Japão tem uns fundos de pedra e saídas de rio muito bons. O único problema é que os tufões que geram as ondas chegam e vão embora muito rapidamente, então o swell é sempre de dois ou três dias apenas.
Tem que dar sorte de ser no final de semana, o que não é fácil. Mas vou deixar as histórias sobre o Japão para uma próxima vez, quando eu já tiver acumulado boas fotos.
Eu queria falar um pouco de nossas atitudes como surfistas e de nossa satisfação, e para isso preciso falar de dois lugares especiais: Bali e Tahiti. Sobre Bali a maioria já conhece bastante, alguns por terem visitado e outros por acompanharem as reportagens do Darcy.
Por ter conhecido o Tahiti antes de Bali, acabei me dedicando muito mais em ir pro Tahiti e Tuamotus e não cheguei a pegar a época de Bali em que o crowd ainda era mais controlado. Então, fui para Bali em 2002 e 2005, diversas vezes. A conclusão que cheguei é que as pessoas pegam crowd porque insistem em ir no auge da temporada para os mesmos picos.
Tudo bem que todos nós queremos surfar Uluwatu e Padang uma vez ao menos, mas há tantas ondas boas sem ninguém na Indonésia ou em outros oceanos… Eu continuo indo para Bali com ou sem bomba, com ou sem crowd. Do avião para as ondas é mole. Mas procuro ir fora de temporada e sempre pego altas ondas.
O Tahiti é diferente. Nem melhor nem pior do que Bali. Não tem a mesma mágica de arte e religião de Bali. Mas também não tem o crowd. Na primeira vez que fui ao Tahiti, em 1997, o que mais me marcou foi a camaradagem dos locais.
No ano anterior, eu tinha ido para o Hawaii com meu irmão e depois de uma pelada na Sunset Elementary School, em frente a Pipeline, fomos dar um mergulho e acabamos numa briga, quando havaianos bêbados no estacionamento de Pipe começaram a nos xingar e decidimos não abaixar a cabeça.
Olhando para trás vejo que era melhor ter fingido que não tínhamos escutado. Mas até que demos sorte e fomos salvos por havaianos mais velhos que saíram da água para separar a briga ao ver que eram cinco contra dois. Vivendo e aprendendo.
Por isso que no ano seguinte, no Tahiti, a camaradagem dos locais foi marcante para mim, pois na teoria havaianos e tahitianos são primos, mas no comportamento são bem diferentes.
Uma coisa mudou no Tahiti de 1997 para 2002: Teahupoo ficou famosa. De 2002 para cá outra coisa mudou e, por incrível que pareça, não foi o crowd (quer dizer, a falta de crowd), mas a facilidade de acesso às outras ilhas ao redor do Tahiti.
São 118 ilhas e muita onda boa. As distâncias são grandes, é necessário muito tempo para conhecer várias ilhas. Mas tem umas 10 ilhas facilmente acessíveis por barcos especializados em levar surfistas, mais ou menos como em Mentawai, mas apenas dois ou três barcos em vez dos 40 de Mentawai.
Outra coisa que mudou foi minha atitude em relação ao surfe. Em 2002, eu era só fissura. Quantos tubos tirei hoje? Dez ou vinte? Maravilha, nunca vou esquecer aqueles dias. Mas hoje eu admiro mais as oportunidades de conhecer gente do mundo todo. Quando você vai para lugares muito crowd, você não consegue ficar tranqüilo e trocar idéias com novos amigos.
Hoje eu valorizo quando, além de mim, todos ao meu redor também peguem boas ondas e que role mais ou menos uma fila em que todo mundo possa se concentrar em curtir, conversar e descontrair.
Teve um dia no último mês de maio que estava cheio de profissionais treinando pro WCT em Teahupoo, mas mesmo com uma longa espera, em uma das séries o Damien Hobgood sentiu que estava muito atrás do pico e aliviou a onda para mim. Foi um drop chocante e o tubo ficou um pouco atrás de mim, mas tudo bem.
No final da onda ainda vi que mesmo sem eu ter feito nada especial, o Pancho Sullivan vibrou porque percebeu que um reles mortal também pode surfar com os melhores do mundo, desde que o crowd seja organizado e civilizado.
Mas como isso é realmente raro de se ver, o jeito é procurar lugares novos, menos acessíveis, para que o surfe seja novamente um esporte que gere mais amizades e menos disputas.