
O recanto da família Lopes, no topo da montanha em frente a Sunset Beach, possui visual ímpar e com certeza é uma das casas que mais respira surf no North Shore de Oahu.
O anfitrião é o carioca radicado em Oahu Jonnhy Lopes, 15 anos de Hawaii, que está hospedando os surfistas Neco Padaratz, Léo Neves, Guilherme Herdy, Romeu Bruno e o fotógrafo Tony Fleury. Ali eles conversam e respiram surf 24 horas por dia.
Enquanto essa galera treina forte para os últimos eventos do circuito mundial da temporada 2004, aproveitei para trocar uma idéia a respeito das suas pretensões nesse fim de temporada e o que acham do localismo – questão muito abordada nos últimos dias por aqui.
Neco Padaratz
Quais são suas reais chances de ser bicampeão do WQS?
Ainda irão rolar dois eventos 6 estrelas onde cada um distribui 2.500 pontos ao campeão (Neco ficou em nono lugar na primeira etapa, o Vans Hawaiian Pro e lidera o ranking com vantagem). Muita água vai rolar. Eu e mais seis atletas estamos na briga pelo título.
No caso de você conquistar mais esse título, esperava isso quando tinha 12 anos e somente sonhava com o circuito mundial? Você está satisfeito?
Olha, eu ainda tenho muito o que fazer. Foi demais ser campeão do WQS e agora estar disputando o bi-campeonato, mas eu sei que toda a experiência que eu adquiri nesses anos no tour irá me favorecer e muito nos próximos anos.
O que você acha de decidir o título no Hawaii? As ondas ou o localismo te afetam?
Não. Aqui é o Maracanã do surf. Eu sinto como se eu fosse o time do São Caetano indo decidir o título brasileiro no Maracanã contra o Flamengo. O que importa é o talento individual e a garra, as ondas são para direita, Haleiwa e Sunset, estou tranqüilo.
A sua geração tem qualidades fortes e que colocaram o nome do Brasil no lugar mais alto do pódio. Alguns títulos do WCT na Europa, o Renan em Pipeline. O que você acha da nova geração?
Isso é muito individual. Nós soubemos passar grandes dificuldades e nos superamos. Hoje tem uma galera com tudo na mão e só vai depender deles. A expectativa é grande e eles têm que acreditar no seu potencial interior e mandar bala. O Mineirinho e o Raoni são os nomes que me vem à cabeça. Sou péssimo em guardar nomes, mas notei uma boa safra no Brasil nos últimos anos. Temos que torcer para a cabeça deles agüentar o tranco.
Falando então sobre apoio, eu vejo aqui no North Shore uma estrutura muito forte para as novas gerações de australianos, havaianos, etc. Você não acha que o brasileiro sofre muito com a falta de onda e um apoio do nível que os gringos têm?
Essa questão é forte. Se nós que somos tarimbados e temos nome sofremos para arrumar patrocínio, imagina quem não tem nome e quer crescer. As coisas no Brasil são muito mais difíceis do que para os gringos.
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Guilherme Herdy
Você acha o Hawaii um lugar favorável para conseguir os pontos necessários para a classificação para o WCT em 2005?
Se eu não precisasse de resultados seria mais confortável. A pressão e as ondas grandes tornam a parada mais complicada, mas eu acho que para mim o Hawaii é mais positivo nesse aspecto.
Você precisa de bons resultados tanto no WQS quanto no WCT. Em qual dos dois você está mais focado?
Eu mesmo já me perguntei isso e uma galera também. Desde o começo do ano não me dei muito bem. Temos mais três campeonatos. Não estou em situação de escolher. A parada é de vida ou morte (rs).
Qual etapa no tour mais te agrada?
Tahiti e Fiji.
O que você acha do localismo no Hawaii?
Compreensível, mas excessivo. É localismo demais para uma ilha tão pequena. Rolou um fato engraçado comigo em Itacoatiara, onde sou local. Estava na água e um garotão veio encrencar comigo. Fui obrigado a explicar para ele que apesar de viajar muito, enquanto ele ainda estava na barriga da mãe eu já surfava ali…
Romeu Bruno
Quantos anos você foi salva-vidas aqui no Hawaii?
12 anos.
Não sente saudades?
Sinto de passar o dia inteiro na praia só me exercitando e esperando os swells. O dia-a-dia aqui deixa você muito sarado.
O que você acha desse curso que a galera tem que fazer para poder praticar o tow-in?
Não acha que estão dando carteirinhas para um pessoal que não tem tarimba para comprar um jet-ski e sair por ai dizendo que agora vai surfar Jaws?
Eu acho essencial o curso. Pena que quem está por trás dele seja o Ken Bradshaw. Se fosse somente um cara como o Brian Keaulana isso não iria acontecer. O certo seria um curso que testasse as habilidades físicas do cara dentro d’água, além de saberem quem é esse cidadão. Se ele surfou algum mar de 20 pés na vida remando. Da forma que está rolando, muitas pessoas não habilitadas estarão credenciadas a colocar a vida deles e de outras pessoas em risco.
E no Brasil, muita gente tem comprado seus jet-skis e atormentado o crowd passando no meio da galera que rema. O que você tem a dizer?
Olha. Eu já estou em contato com a Secretaria de Segurança Estadual de SP para fazermos a mesma coisa que a galera esta fazendo aqui, mas como disse antes, com testes físicos e também veremos quem são esses atletas.
Quem vai monitorar isso?
Os salva-vidas e mais uma galera que iremos selecionar. Só irá fazer tow-in no Brasil quem tiver a carteirinha homologada.
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Léo Neves
Quais são seus objetivos nesta temporada?
Conseguir fechar o ano com o melhor resultado possível no WQS.
Você me contava que sofreu duas contusões este ano?
Eu torci o tornozelo na Europa e mesmo usando tornozeleira cheguei a duas quartas-de-final e no Brasil fiquei em segundo lugar no SuperSurf, no Recife.
E essa historia do joelho?
Eu bati o joelho em Hossegor e fiquei duas semanas mal.
E o que rolou que você perdeu sua inscrição em Haleiwa?
Houve um mal-entendido com a Faith (representante da ASP, no Hawaii) e eu me dei mal.
Você acha positivo fechar a temporada no Hawaii?
Eu gosto. Fica todo mundo na expectativa, e se você fizer um bom resultado aqui você carrega essa vibração para o resto da vida. Na Europa eu me dei bem porque as ondas estavam grandes e pouca gente varou a arrebentação. As ondas estavam fechando tudo e ficou mais fácil para mim. Eu prefiro me dar bem aqui do que no Tahiti. Precisar de um bom resultado em Teahupoo é complicado. Aquela onda é animal.
Você considera Teahupoo mais animal que Pipeline?
Com certeza. A bancada suga toda a água.
E o localismo aqui no Hawaii?
Eu nunca tive problema, pois tento respeitar ao máximo. Como nunca fui local de praia nenhuma por vir do subúrbio do Rio de Janeiro, já estou acostumado.
E essa casa aqui de frente para o pico em Sunset. Muito visual?
Alem de ser alucinante rola um intercâmbio maneiro. O Guilherme, Neco, Jonnhy, Romeu e daqui a pouco chega o Raoni, que é meu irmaozasso.Vamos surfar juntos e estamos sempre trocando idéias a respeito de surf, é lógico.
Johnny Lopes
Quando foi a sua primeira temporada havaiana?
Em 1985.
E quando veio morar de vez e por quê?
Desde 1990. Meu objetivo na época era trabalhar o ano inteiro para curtir a temporada no Hawaii, então resolvi trabalhar aqui e às vezes ir para o Brasil. Assim ficou mais fácil (rs). Hoje eu tenho dois filhos e aqui a segurança é outra, as oportunidades são maiores.
Você trabalha em uma companhia aérea?
Eu sou comissário de bordo na rota SP-Nova York, duas a três vezes por mês. Eu passo cerca de dez dias trabalhando e 20 shapeando (Jonnhy também é shaper).
E como foi juntar essa surfistada toda na sua casa? Só casca-grossa?
No Hawaii não tem um hotel acessível, as opções são escassas, então arrumei uma casa de quatro quartos e alugo para os amigos mais íntimos. Rola um intercâmbio de primeira qualidade. Não só no surf como também nos equipamentos. Eles trazem as últimas novidades em shapes e designs.
E o localismo, Jonnhy. Você já se enturmou ou se acostumou?
Nesses 15 anos eu nunca tive problemas com o localismo. Para mim é uma questão de atitude. Respeite para ser respeitado.