Praia Mansa

Proibida e perfeita

A temporada de ondas chegou na costa Norte / Nordeste do Brasil. Com isso, eu e alguns amigos resolvemos nos aventurar em uma onda diferente, sem crowd. 

 

Mas pensamos, onde encontrar um lugar assim em Fortaleza, capital do Ceará. Então alguém falou em Imbinhoara, ou praia Mansa para os mais novos. Resolvemos ir até o pico. 

 

Paramos no Corpo de Bombeiros do Mucuripe. O Portão bombava. A maré ainda estava muito cheia. Olhei para o Titanzinho e corri para fotografar. As ondas eram visivelmente grandes. Contudo, a vontade de explorar um pico sem crowd era mais forte.

 

Caminhamos até a praia Mansa e entramos pelo Portão. Foi bem difícil. As ondas quebravam com muita força na parede da área militar que divide um pico do outro. Pensei em desistir. Meu material fotográfico corria grande risco. 

 

Entramos um por um e passamos. No meio do caminho, fomos barrados. Com uma boa conversa, terminamos liberados. Para chegar ao pico, precisávamos andar sobre o caminho citado pela autoridade local. Mal sabíamos que neste caminho, ao lado do paredão, quebrariam ondas grandes com força suficiente para arrastar um de nós. 

 

O paredão não nos deixava ver o momento em que iria quebrar uma série. Corremos na iminência de sermos arrastados. Até que aconteceu: um dos aventureiros, o free surfer e fabricante de pranchas Dennys Massara, foi arrastado e sofreu vários ferimentos nas pernas e braços.  

 

Corri agarrado no material. As ondas estouravam com tudo, algumas bem atrás de mim, outras bem na frente, por sorte não quebrou nenhuma em cima. Foi loteria. 

 

O free surfer Gustavo Loiola resolveu pular no mar. Achou que na remada chegaria no pico. Depois de muita adrenalina, finalmente chegamos.

 

Definitivamente, o lugar não parecia ser em Fortaleza. Conhecemos um pescador local. Ele havia surfado pela manhã. Disse que as ondas estavam muito boas. Não acreditamos. Olhávamos para o mar e não havia ondas. Então ele disse: Espera que a série vem.  

 

Dito e feito. Quando a série bombou, fez brilhar os olhos da galera. As ondas quebravam perfeitas, tubulares. Completamente diferentes da grande maioria das ondas da região. Meus companheiros correram para o mar. 

 

As maiores rolavam ao lado de uma fila de colunas que lembra a Ponte Metálica. Como ninguém conhecia o pico, achamos que o fundo era de pedra, mas não era. A galera surfou o dia inteiro e fez a cabeça. Eu fiquei na praia e fiz as fotos.  

 

Este pico, para quem não sabe, é área de responsabilidade militar e federal. Os federais, inúmeras vezes, fizeram gente voltar a nado e confiscaram as pranchas.

 

Alguns dias atrás, li em um jornal local sobre o pico. Dizia que seria entregue ao Governo do Estado para construção de pólos, restaurantes e o surf seria liberado. Mas não sei se isso seria interessante. Aquela praia deserta, com acesso restrito e perigoso, acabaria tornando-se mais uma praia suja em pleno centro urbano. 

 

A natureza local vai perder sua magia. Aquela praia escondida será aberta para se tornar outro ponto turístico abandonado. Se isso acontecer, infelizmente, não teremos mais o prazer de viver uma aventura como a que vivemos.

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